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segunda-feira, 19 de maio de 2014

Carta Aberta ao Ministro Aldo Rebelo - Pela socialização do torcedor brasileiro!

Emissoras de rádio e TV retransmitem a carta do Borogodó.
Caro Ministro Aldo Rebelo,

Desculpe incomodá-lo, pois sei que Vossa Excelência deve estar ocupado sobremaneira com as quadrilhas responsáveis pela organização das festas juninas vindouras. Quisera eu estar falando do São João, mas é sobre Copa do Mundo, mesmo. Sabedor do seu contagiante nacionalismo, venho tratar de um assunto o qual preciso de sua avaliação, na esperança de, quem sabe, ser convencido por vossa sapiência a reconsiderar minha decisão, mas o fato é que estou pensando seriamente em migrar para a Alemanha.

Perdoe a falta de ufanismo, senhor ministro, mas de tão desiludido com os cartolas daqui, e de tão empolgado com a evolução do futebol alemão, cheguei a escrever uma carta, propondo uma contratação (a minha), ao ex-craque e atual embaixador do Bayern, Paul Breitner. Acho, no entanto, que ele ainda não teve tempo de ler a correspondência sul-americana... (Alô, Paul, responde aí, meu!). De todo modo, espero que o senhor encontre um tempinho para ler esta cartinha, já que sequer lhe peço emprego.

E se tomei essa drástica decisão, Dr. Aldo, é porque estou cansado de ser achincalhado por notícias vindas d’além mar, dando conta do respeito que as autoridades alemãs têm pelo futebol do país. Sem falar do respeito que os cartolas de lá têm pelos clubes que gerenciam, e também pelos seus torcedores! Estou farto da eficiência dos projetos por eles arquitetados, e olha; estou “por aqui” com a maior média nacional de público, no mundo, presente aos estádios de futebol. Só a zorra do Borussia Dortmund põe 80 mil negos nas arquibancadas, por jogo, com direito a salsicha e cerveja alemãs nos bares – além das próprias alemãs, seu ministro!

Dia desses, em texto aqui publicado (Maracanã: chucrute com banana), eu já havia enchido a bola dos germânicos, ao tomá-los como referência na arte da antropofagia ludopédica, conquanto soubessem assimilar características importadas, mantendo a originalidade cultural local. Exemplo disso ocorreu quando se acatou certas imposições da FIFA durante os jogos da Copa-2006, revogando-as, posteriormente, por não serem de interesse do torcedor alemão. Êta, povo evoluído!

A FIFA obriga o torcedor a ficar sentado; o dirigente alemão, não. Em muitos estádios, uma quantidade específica de cadeiras foi retirada após o Mundial, respeitando os desígnios e as tradições das torcidas mais populares que desejassem torcer “à moda antiga”. E mesmo durante o Mundial daquele ano, as autoridades locais impuseram cerveja nacional nos estádios, contrariando os interesses da empresa americana que patrocina a FIFA. Se os teutões podem fazer valer a vontade deles, por que a gente não pode comer comida brasileira nos estádios? Uma farofinha, um queijo de coalho, uma macaxeira na manteiga... Um tutuzinho, um acarajezinho... Nada? Ninguém merece um cachorro-quente seco e sem gosto por 10 reais, né, ministro!

Enquanto isso, nas mesas-redondas das TVs brasileiras, o que mais se escuta é apresentador e comentarista coxinhas se regozijando em dizer que “o torcedor brasileiro vai ter de reaprender a torcer(!?) e se reeducar por conta das novas arenas...”. Nossa, o pobre Darcy Ribeiro deve se revirar no túmulo com tanta subserviência cultural! Esses jornalistas deveriam conhecer o povo das Alagoas, gente tipo o senhor, a fim de desenvolver alguma auto-estima, não é verdade? Tem muito vira-latas complexado na mídia brasileira! Sinto saudades do Nelson, ministro... E do João, do Armando e de gente que dizia as verdades, sem redemoinhos e cantilenas... Néééé, ministro?!

Na Bundesliga, a média de torcedores numa partida de futebol supera os 45 mil. Já por aqui, o narrador global Luiz Roberto se derreteu ao constatar o total de pagantes presentes à decisão do Carioqueta-2014: “Agora, sim, um púbico digno de final!”, desabafou, satisfeito com os 42 mil aficionados que assistiram ao “Clássico dos Milhões”. E olha que Flamengo e Vasco jogaram num Maracanã padrão FIFA, ministro!  Tava assim de cadeiras vazias, ministro!!! Não seria o caso do senhor acionar a ABIN, para eles apurarem o que está acontecendo? Isso só pode ser sabotagem internacional! Esses gringos são foda, ministro!

O abnegado da Fiel que nesse Domingo quis curtir Curíntia e Figueira, pela 5ª rodada do Brasileirão-2014, conseguindo escapar dos cambistas, desembolsou ao menos 50 mangos pra ver o Timão se afogar no recém-inaugurado Itaquerão inacabado. E não adianta vir com chorumelas e com aquele “papo de noiva” porque a gente não é bobo, ministro; o bagulho tá em obras e ponto! Nesse evento, o ingresso mais caro custou 400 pilas. Já na terra do chucrute, da panqueca de batata e da salsicha branca, o ingresso mais barato sai a 45 reais para as partidas do Bayern, ou a 453, caso o felizardo queira assistir aos 17 jogos que o time fará como mandante, na multicolorida e moderníssima arena construída para a Copa-2006. Como eles conseguem isso, senhor ministro?

O presidente do Bayern de Munique nos dá uma dica preciosa ao revelar que essa acessibilidade sócio-econômica ocorre porque os dirigentes alemães não enxergam os torcedores como vacas a serem ordenhadas; - “O futebol tem de ser para todos!” – alardeia, deixando claro que não se deve impor ao torcedor uma realidade específica, mas respeitar a realidade dele e suas diversas formas de expressão. Por isso há espaço para todo tipo de espectador, e não somente para aquele que pode pagar caro. Parece utopia, né, ministro?

Aqui, por outro lado, não só acatamos o conceito de torcedor-vaca, pagando o quanto quiserem nos cobrar, como fazemos questão de evidenciar essa condição apelando às nossas raízes e tradições escravocratas. Nas circunjacências do Maracanã, por exemplo, são contumazes as cenas em que policiais-cavalariças, munidos de cassetetes, distribuem bordoadas em incautos pais de família, a título de organizar a fila... Quer coisa mais bovina do que essa? Falando em gado, manda um abraço pro Renan, seu conterrâneo querido!

Por fim, recente pesquisa capitaneada pelo Prof.Dr.Phd.etc&tal, Holger Preuss, da prestigiada Universidade Johannes Gutemberg, afirma que, após grandes eventos, os estádios devem, necessariamente, ser readaptados às realidades locais, levando-se em conta o fato de um torcedor comum ser diferente do torcedor de Copa ou de Olimpíada – este, muito mais abastado. A solução proposta: - “O Brasil adiante não deve copiar o padrão FIFA, mas desenvolver os estádios de futebol para a socialização dos torcedores brasileiros e do comportamento local.”

Confesso que, após sua atuação como parlamentar na proposta de  mutilação do Código Florestal Brasileiro, perdi completamente a confiança no senhor, mas não tendo muito a quem recorrer, e apelando à sua qualidade de Ministro de Estado, pergunto: o senhor entendeu a fórmula mágica alemã ou quer que eu desenhe?

No aguardo por vossas considerações acerca do meu futuro e do futuro do torcedor brasileiro, despeço-me enviando as melhores recomendações à família,


  João Sassi – D.T. do Borogodó Futebol Clube


foto: joão sassi

sábado, 29 de março de 2014

A FIFA, o Samba e o futebol de antigamente

Quem não gosta de Samba, bom sujeito não é...
    Fingindo que está tudo bem e que uma Copa do Mundo seja somente motivo de júbilo e alegria, venho assistindo aos filmes oficiais de edições passadas pra já ir “entrando no clima de festa”. Os arquivos de imagens anteriores à dolorosa edição do IV Campeonato Mundial de Futebol (Brasil-50) não são generosos. A partir de então, no entanto, dada a crescente qualidade de técnicas e equipamentos de filmagem, pode-se fazer uma curiosa viagem pelo futebol de antigamente, e também pelos meandros que circundaram os mundiais seguintes, suscitando saudosas ilações.

    Em meio a muitas partidas inexpressivas entre seleções igualmente incipientes, ficamos no aguardo de alguma peleja envolvendo o Brasil, ocasião em que se espera uma espécie de reverência imediata a quaisquer dos nossos craques. Em pouco tempo, porém, damo-nos conta de que esse reconhecimento não irá ocorrer e que a ignorância a nosso respeito é total. Quando muito, um elogio minguado, mas nunca uma descrição fiel àquela que permeia o imaginário brasileiro.

    Didi, por exemplo, é um dos poucos que mereceu alguma reverência no filme sobre o Mundial de 58, na Suécia, cabendo a Pelé receber a alcunha de menino-prodígio – algo bem gay, diga-se. Os demais campeões são quase que completamente ignorados, (Nilton Santos e Garrincha, inclusos). Como menção honrosa sobre o desconhecimento acerca do Brasil, registre-se que a bandeira hasteada no mastro do hotel que primeiro recebeu a delegação brasileira em terras nórdicas era a de Portugal; pode isso, Joaquim!

   Sobre Mané, aliás, percebe-se que ele é um mero desconhecido para a autoridade máxima da burocracia da bola, sendo descrito como “aquele que só sabe quem é o adversário quando entra em campo” para, por fim, ser comparado ao ex-craque driblador bretão Stanley Mathews. O etnocentrismo é tal que, mesmo com duas Taças de Campeão do Mundo no currículo, a referência continua sendo o gringo, e não Garrincha! Isso tudo, em pleno Mundial do Chile-62, quando, sem a companhia de Pelé, o mais famoso ponta-direita da história fez não somente o sol carioca brilhar sobre os Andes, mantendo a Jules Rimet em casa, como até gol de cabeça e de canhota! Para a FIFA, no entanto, o nome de Garrincha parece ser tão irrelevante como o de qualquer um seus Joões deixados estatelados pelos campos, mundo afora...

    Detalhe curioso é notar que as participações dos scratches brasileiro nos filmes sejam veiculadas com um onipresente e latiníssimo Mambo ao fundo! Quando não, Salsa. Há também cenas dos jogadores brasileiros na concentração com a inserção de um acompanhamento mais regional: música andina! Alguém tem noção do por quê? Será possível que Zé Carioca y sus amigos participaram da escolha da trilha sonora? A FIFA não gosta de Samba? Vai saber...

    A partir da Inglaterra-66, as imagens ganham ainda mais qualidade, e os uniformes, cores com texturas exuberantes! Com o registro de imagem e a captação de áudio feitos à beira do gramado, pode-se escutar o som ambiente em sua totalidade, composto pelos gritos dos jogadores, chutes na bola, apitos e, principalmente, pelo alarido da comportada torcida inglesa, com suas aristocráticas palmas a cada lance, além dos indefectíveis “ahhhhs” e “ohhhhs”, já presentes nos estádios desde os tempos de antanho.

    Um chute a gol, uma defesa, um drible, tudo deve ser aprovado ou não pelo espectador por meio das palmas. Nesse modelo, o torcedor se comporta majoritariamente de maneira passiva, reagindo àquilo que vê em campo, pouco contribuindo para ser também um ator ativo do espetáculo em curso – não por acaso, exatamente o modelo aristocrático que “muita gente” quer ver implementado nos estádios brasileiros, durante e após a Copa do Mundo "do Brasil". Deve ser porque gente comportada sempre tem mais dinheiro para gastar. Como bônus, é suprimida qualquer forma de expressão popular mais espontânea. A FIFA nos quer como consumidores desse produto, não como parte dele (we shall not forget the Matrix, fellows).

    Nesse sentido – e a despeito das belas imagens da Copa de 66 -, chama a atenção a narração empolada, bem como a peculiar percepção européia do evento, que interpreta o estádio como um grande teatro, embora com escasso enfoque ao aspecto emocional de seus atores, e muito mais a aspectos comportamentais e factuais aplicados às regras do jogo – algo totalmente diferente àquilo a que estamos acostumados. Não há referências à subjetividade subjacente à atitude dos jogadores numa disputa de bola, senão uma descrição ipsis literis do que se passa em campo. Definitivamente, não há fantasia na visão FIFA do futebol. A julgar pela última edição do manual da entidade, nota-se que esses senhores não entendem patavina de antropofagia, ou não se ofenderia tanto a cultura local com suas imposições tanto descabidas quanto desrespeitosas. Após a Copa, o brasileiro terá de reinventar o futebol, tal como o fez no passado, a ver se recupera sua alegria.

    Mas voltando à vaca fria, o último filme que vi foi sobre a Copa do México-70. Nele, Pelé já é, enfim, tratado como “Rei do Futebol”, enquanto os demais jogadores tem pouco ou nenhum destaque. Exceção feita ao arqueiro Félix, vítima de chacota e gozações sem fim por parte da locução oficial; motivos para os quais, convenhamos, não faltaram.
  
    Tenho para mim, que a Copa de 70 marcou o fim da Era Lúdica do futebol, simbolizada pela fantástica harmonia resultante da interação entre o amarelo-solar dos brasileiros e o azul-real dos italianos, tendo como partícipe a pulsante e multicolorida torcida mexicana. Nunca se viu goleada como aquela numa final, tampouco invasão de campo tão devotada, motivada tão somente pelo entendimento comum de que ali se realizara algo grandioso. Nunca se viu e jamais se verá novamente algo igual ou remotamente semelhante, pois o tempo daquele futebol já não existe. Já não permite.

    Fica, portanto, a marca de um tempo em que malícia e picardia eram palavras inocentes, de quando se esperava que o adversário, de fato, respeitasse as regras propostas. De um tempo em que o juiz sequer interferia nos protocolos da cobrança de uma falta, dado que os interessados soubessem exatamente o que fazer, sem necessidade de sprays ou de coações constantes por parte do homem de preto. De um tempo em que não se utilizava a simulação como estratagema de jogo; quando condutas anti-desportivas eram a exceção. De um tempo em que se jogava e se deixava jogar. De um tempo, enfim, em que, menos que jogadores ou homens, eram crianças confraternizando a arte do encontro, entre gols, saltinhos, beijinhos e abraços de carinho. Assim era o futebol de antigamente. 


foto: ricardo azoury


domingo, 28 de abril de 2013

Maracanã: chucrute com banana


O índio e a influência européia: intercâmbio cultural?


O alemão Uli Stielike, campeão da Euro1980, declarou o seguinte em relação ao processo de modernização pelo qual atravessa a Deutsche Fußball Liga: - Nos inspiramos em outros modelos, mas sempre preservando a nossa identidade.

Leio com atenção suas palavras, pois atenção é coisa que não se dispensa quando se trata do povo alemão. Já escutei em algum lugar o João Ubaldo Ribeiro dizer que “o alemão é um povo doidão, mas uma doideira alemã”. Ao que me constava, eram organizados, eficientes e perfeccionistas, ao passo que agora descobrimos nós, os desavisados, que estão um passo adiante. Nas palavras de Jürgen Klopp, técnico do Borussia Dortmund, “os alemães não sabiam que poderiam ser tão despreocupados, felizes e alegres”.

Há relativamente pouco tempo, coisa de uma década atrás, era quase inimaginável ver um jogador preto trajando o branco imponente da outrora seleção ariana. Hoje, no entanto, as novas gerações assistem a isso como se sempre houvesse sido assim. Trata-se, porém, de um desfecho emblemático aos pretensos ideais de “pureza étnica” que tanta vergonha causou ao povo alemão e à humanidade, coisa de meio-século atrás. Se verdadeira a afirmação de Darcy Ribeiro que a miscigenação brasileira nos preconiza como ‘o país do futuro’, então os alemães, sempre eficientes, já se tocaram disso e começaram a misturar sua gente. Já o brasileiro, velhaco que é, copia o alemão, à sua maneira, claro. Importamos a estética, importamos os custos e o “modelo”, mas deixamos nossa cultura de lado. Talvez porque esse papo de cultura seja coisa de país subdesenvolvido, nativo preguiçoso e vagabundo. Chique mesmo é copiar o colonizador.

Enquanto o alemão importa nossa morenice e desendurece sua cintura a cada geração, importamos conceitos comportamentais, econômicos e arquitetônicos, sempre à nossa moda. Enquanto eles enchem os estádios de ambiente familiar a preços módicos e futebol total, nós destruímos nossa memória erguendo inconseqüentemente templos de consumo destinados a uma nova e seleta categoria de torcedores.

Durante os últimos anos, os menos importantes dos torcedores – aqueles que se tornaram anacrônicos às pretensões empresariais de seus clubes – reclamaram e protestaram contra a forma como os estádios se modernizavam: marquises, dimensões históricas, anéis superiores, túneis, nomes (!), arquibancadas, e até traves e redes, em suma, toda a tradição, a história e a identidade dos estádios brasileiros foram impiedosamente postas abaixo, de modo que até mesmo a simples denominação foi alterada, pois de estádios passamos a ter de aceitar a onipresença do aburguesado conceito de “arenas multiuso”; centros de compras tão grandes que comportam, inclusive, um campo de futebol. Em meio ao jogo de bola e à paixão do torcedor interpôs-se o lucro como primazia, e a relação entre o campo e as arquibancadas, antes direta e informal, será doravante mediada por rituais de consumo automatizados.

Não faz muito (2005) e nos despedíamos da Geral, mero conceito de um espaço que, por si só, revelava a natureza e a universalidade da alma brasileira. Para, contudo, mostrar ao mundo o valor dessa nossa gente bronzeada, acabaram com o espaço por ela majoritária e historicamente ocupado. Foi-se a democracia étnica e social, acabou-se a mistura e a loucura geral... Agora o senhorio europeu podia até vir aqui, ver como sabemos nos comportar bem.

Mas ainda assim, restava muita gente, muito povo – essa gente insistente – ocupando os espaços públicos, atravancando o progresso da nação. Tinha até índio na parada! Melhor destruir a pôrra toda, pois não foi assim que espanhóis e portugueses conquistaram a América Latina, mais de 500 anos atrás? Deve ser um bom plano: - “Porrada nos índios e põe o resto abaixo!”, anunciou Cabral, que não o Pedro.

Sinhozinho Dotô Ricardo já tinha revelado, em tom diabólico, lá pelos idos dos anos 90, que se o Brasil quisesse um dia sediar novamente a Copa, só pondo abaixo o Maracanã... –, o que soou tão despropositado e bizarro aos ouvidos dos jurássicos torcedores de então que muito não se fez contra o impropério, senão desejar uma lenta e dolorosa morte ao seu autor, preferencialmente por empalamento. Teixeirowski apenas sorriu, esfregando sadicamente as mãos; sua vingança seria malígrina...

Então, assim, entre uma reforma e uma mentira, uma fila e um cambista, uma caceteada e um gás de pimenta nos olhos (que, sendo os alheios, é refresco para a nata carioca) os estádios foram todos postos abaixo. Uma canetada aqui e um aperto de mão ali e pronto, o Brasil está no mesmo patamar que o mundo desenvolvido! A custos astrolábicos, obtivemos nosso passaporte para adentrar a civilização com bola e tudo, metendo cafuzas e fulecos por sob as caxirolas alheias. As mulatas sambando e os contumazes shows artificiais de breguice latina vêm a reboque, como se quem os organizasse não fosse um profissional brasileiro, e sim o dono do bordel freqüentado por Mr. Teixeiraaaaaaa, na Flórida.

Que a Copa não era ‘do’ Brasil, e sim da FIFA, já sabíamos, mas que a Copa fosse ‘no’, Brasil, quanto a isso não tínhamos dúvidas, o que ao menos nos servia como alento e consolo. Mas quem se aventurar (e conseguir) assistir a um jogo da Copa, poderá pensar que se está em um lugar qualquer (Guaporé?), que não o Brasil. O primeiro desafio será descobrir o estádio, já que, por dentro, todos parecem exatamente iguais. À primeira vista, não consegui distinguir o Castelão da Fonte Nova ou o Mineirão do Maracanã. São todos insípidos, inodoros e incolores, e seguem o mesmo e monótono padrão.

Olhando à sua volta, o infeliz logo cedo irá atinar para a frieza do local e para o esquema de segurança de primeiro mundo, com homens uniformizados e roboticamente disciplinados, e ficará impressionado com o sistema de luzes e de som, com a qualidade dos telões e do gramado (será mesmo?), bem como com a limpeza das áreas de acesso e com o asseio dos banheiros, e também com a pequena distância do seu assento em relação ao campo.

Por outro lado, não haverá mais tanta gente queimada de sol ao seu lado, nem acima ou abaixo. Não haverá tantos desdentados sorrindo e cuspindo perdigotos sobre sua cabeça. Nem suor, vibração, saco de mijo ou excesso de emoção. Nada próximo de folclore ou tradição. Não vai encontrar acarajé ou feijão-tropeiro, mas certamente poderá saborear um Bic Mac. Notará decerto que o comportamento do torcedor não é mais espontâneo, mas padronizado, observado e monitorado. É todo mundo comportado.

Isso talvez o deixe satisfeito e orgulhoso de ser brasileiro e “civilizado”, ainda que, nesse caso, o gentílico já não carregue a mesma essência e significado dos tempos de Garrincha, Pelé ou Zico, e não expresse mais nossa identidade – aquilo que nos diferenciava e fazia de nós um povo original, invejado e admirado pelos demais. Mas isso é coisa de gente nostálgica, dos tais saudosistas; daquela gente ultrapassada que não se esquece do tempo em que éramos apenas despreocupados, felizes e alegres...


foto: joão sassi
sobre grafite de rua SP
autor desconhecido

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A Bola nos Tempos de Outrora


O Mané Garrincha fugirá às suas tradições para receber "torcedor de elite".




Todo menino é um rei. Eu também já fui rei, e como tal, achava que tudo aquilo que havia acontecido antes do meu nascimento fosse algo muito distante de mim. Na infância, o tempo é abstrato.

Naquela época meu pai costumava falar muito da seleção brasileira, então tricampeã mundial. Aos dez anos de idade, eu já tinha alguma intimidade com os scratches de 58, de 62 e de 70. Sabia quem eram, por exemplo, o Príncipe Etíope, a Enciclopédia, o Peito-de-Aço, o Possesso, bem como o Canhotinha-de-Ouro, o Capita, a Patada Atômica e, claro, o Furacão da Copa. Sabia até mesmo que Brito, o beque-central, era o melhor preparo físico daquele time tricampeão.

A consagração no México havia ocorrido há pouco mais de uma década, ainda que no meu raciocínio infantil a magistral campanha do tri fosse coisa de muito tempo atrás. Minha única ligação com aquele espaço-tempo era, pasmem, o Rei Pelé, pelo simples fato de havê-lo visto jogar pelo Flamengo, num amistoso contra o Galo; o que nem de longe me credenciava a pensar na seleção de 70 como uma coisa próxima ao meu tempo. A TV era P&B, a antena não funcionava e eu contava somente quatro anos, mas Pelé é Pelé, e disso ninguém esquece.

Foram, entretanto, tantos e tão ricos os detalhes e informações que me foram sendo carinhosamente legados e transmitidos ao longo da infância, que sou capaz de sentir a nostalgia que meu pai um dia sentiu. É o que acaba de ocorrer, há pouco, quando assisti, pela enésima vez, ao documentário “Isto é Pelé”.

A locução grave, com caráter de história oficial, o som ambiente dos estádios ou mesmo a ausência total de ruídos em alguns gols exibidos conduzem o telespectador àquele tempo que já passou. Tempo este em que os jogadores se abraçavam desprovidos de vaidade ou malícia marqueteira, quando ainda não havia telões ou câmeras para se buscar na hora do gol (à época, um gozo coletivo). Nesse tempo, as camisas eram de algodão e as traves de madeira, quadradas. Foi um tempo em que se chorava após uma grande conquista ou grande feito alcançado – a alegria surgia antes dos dividendos, pois a seleção era formada por pessoas comuns, à feição dos que por ela torciam. Nem a ditadura conseguiu fazê-la menos brasileira.

Foi um tempo em que as emoções afloravam espontaneamente, e que teve seu ápice na participação massiva da torcida no desfecho daquela Copa, que abraçou (literalmente) o time canarinho na grande final, naquilo que se configurou numa das mais espetaculares demonstrações de afeto a uma equipe de futebol – e nem brasileiros eles eram! As bandeiras, os rojões, a chuva de papel picado e o público eufórico invadindo o campo fizeram daquela celebração uma das mais tocantes já vistas no esporte mundial, tornando o Estádio Azteca um lugar sagrado para nosso futebol. As cenas são de arrepiar os cabelos do careca.

Nos dias de hoje, mais de quatro décadas após a consagração da seleção nos gramados mexicanos, tenho para mim que esse tempo não está tão distante assim. Na verdade, ele está bem mais próximo agora do que no meu tempo de criança. Talvez porque a contemporaneidade seja palco de uma humanidade obcecada pela futilidade da vida e pelo profissionalismo dos negócios. Talvez porque, por conta disso, os jogadores tenham desaprendido a brincar de bola sem que tenham, de fato, aprendido a jogar futebol.

Trata-se de um universo diferente, formatado cotidianamente pela mídia, e não mais ancorado na tradição oral, passada de pai para filho (quando pais e filhos ainda conversavam). Nesse mundo novo, os estádios de futebol e toda a cultura local ali existente foram desintegrados, dando lugar a shoppings que, sabe-se lá por que razão, são chamados de “arenas”. Os torcedores que ali festejavam, por sua vez, foram banidos e substituídos por consumidores.

No mundo de hoje, enfim, o povo não recebe convite para a festa que ele mesmo criou. Deu lugar a torcedores europeizados que seriam mais civilizados por torcerem sentados e não se mexerem muito nas arquibancadas, além, é claro, de comprarem produtos oficiais da sua “empresa do coração”. Nesse mundo tão comportado e organizado, o tradicional modo de torcer tornou-se obsoleto. Nele, a paixão do torcedor é quantificada pelo poder de consumo daquele que a proclama.

Esses sentimentos contraditórios e melancólicos me fizeram recordar que há tempos não converso sobre a seleção com meu pai. Fico triste, principalmente por ser seu aniversário, dia de comemoração.

Sinto, porém, que nosso tempo já tenha realmente passado, e que hoje não sejamos mais do que dinossauros à espera da extinção. Lá se foi o tempo da bola, levando consigo os belos tempos de outrora. Mesmo assim, feliz aniversário, pai.


foto: joão sassi


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O Patriota Idiota e o Time da CBF

Participantes da última geração a conquistar uma  Copa para a CBF.

                                                           

O sentimento é a coisa mais importante que um homem tem para dividir entre seus semelhantes. Somente o compartilhamento das emoções e sua fruição coletiva nos dão aquilo que muitos chamam “felicidade”.

Felicidade é aquilo que o bêbado sente quando pensa que todos estão juntos em sua embriagada e desinibida realidade. É aquilo que nos faz perder a vergonha que temos de dançar, rebolar ou gritar de prazer. É fruto da sensação de aceitação e pertencimento social.

Os motivos podem ser múltiplos, infinitos, mas a condição sine qua non para legitimá-los é a experiência comum: afinal, é impossível ser feliz sozinho...

Nós brasileiros, nos sentimos muito à vontade para compartilhar emoções. Somos um povo amoroso que toca, afaga e dá carinho. Este é o nosso padrão: criamos relações afetivas com nossa existência e nos apegamos a quem mal conhecemos.

Quis a história que este povo fosse guiado por uma paixão – o futebol – e coube a ele extrair desta paixão sua maior forma de expressão, a seleção: síntese cultural maior da nossa identidade nacional, cujas principais marcas são a espontaneidade e o improviso, além daquela velha mania de ter fé na vida - em última instância, a fé que temos no próprio ser humano.

Traços culturais estes que para muitos, revelavam nossa alegria, mas que para outros, evidenciavam o atraso de nosso povo. Nos anos 90, deu-se uma transição, e uma nova ordem econômica se instaurou na mente dessa gente descontente, segundo a qual era preciso tornar esse ritual festivo em que se transformara o futebol numa empresa eficiente, e esse povo descansado e relapso em pessoas sérias e produtivas; civilizadas... Enfim, era preciso lucrar!

No intento de se modernizar, a Confederação Brasileira de Futebol se aproveitou do passado glorioso e do prestígio conquistados pela seleção canarinho para se estabelecer como uma marca global. Em consequência inexorável dessa transição, conseguiu decuplicar suas receitas, embora tenha se tornado, aos olhos do torcedor, um anti-símbolo cultural ; algo que ninguém identifica como seu, e pelo qual não faz qualquer questão de demonstrar emoção ou afeição.

Que a dita cuja seja uma instituição privada, isso já era sabido desde que o brasileiro pôde assistir, durante mais de duas décadas, ao desinibido enriquecimento de Ricardo Teixeira à frente do comando da bagaça; somente então, passou a desconfiar que a seleção não era tão assim, do Brasil, mas da CBF. E aí a coisa começou a miar, e o casamento a degringolar...

É como se, subitamente, descobríssemos que aquele casamento realizado sob os enlaces do amor tornara-se uma relação de escusos interesses...

Não é que o torcedor nativo tenha deixado de gostar de futebol – um grande amor não se acaba assim -, mas passou a ficar cada vez mais difícil convencê-lo de que os sentimentos  da CBF representam o Brasil que aprendemos a amar; principalmente quando se percebe  que o futebol praticado pelo time da CBF não faça graça ou nos dê qualquer alegria. Pior, faz a alegria dos vizinhos!

Chamam de moderno um sistema no qual uma empresa “empresta” os símbolos pátrios (hino, bandeira etc) colando-os num produto, composto por profissionais pagos por outrem, chamado “Brasil”; não é fabuloso? Ou não é o que faz a CBF, ao se promover às custas de nossa paixão e nacionalismo? Ou ao utilizar atletas que são pagos pelos clubes, mas coagidos a representar o “país” ostentando logomarcas de patrocinadores multinacionais mundo afora?

Após a partida contra a Argentina, Neymar reclamou do comportamento da torcida goiana que, a exemplo da torcida paulista, uma semana antes, passara a vaiar o time.  Pois devo dizer que ele vai continuar reclamando, porque as vaias não cessarão.

O espírito que envolvia os jogos – mesmos os meros amistosos – era arrebatador; envolvia a todos e mobilizava a Nação. A expectativa, a ansiedade e o frisson eram efetivamente coletivos. Havia clubismo; havia bairrismo; mas também havia orgulho pelo futebol jogado e, principalmente, identificação com a equipe canarinho.  O Brasil entrava em campo e calçava chuteiras.

Atualmente, o torcedor mal se lembra que tem jogo; que dirá uma convocação. Acabou o mel, Foi-se o doce. O encanto virou espanto.  

Ou a CBF revê seus planos de expansão comercial, redirecionando suas ações para o povo brasileiro e recolocando a verdadeira Seleção Brasileira em campo, ou só lhe restará marcar mais amistosos com a China para fazer caixa e satisfazer o ego de suas estrelas mimadas , sob aplausos constrangedores.

O torcedor está revoltado com essa mise-en-scène mercantilista. Queremos um time que desperte nosso amor; que ao menos saiba cantar o hino nacional; um time que nos cative e que nos una em torno de um bem comum. O que está claro é que esse aí já não tem legitimidade: a seleção não nos representa mais. Chega de bancar o patriota idiota!

fotos de joão sassi
palácio do planalto/2002