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sexta-feira, 14 de abril de 2017

Maracanã - do Pó Viemos, ao Pó Voltaremos

Comunhão entre Céu, Terra e Povo - algo que não se constrói com dinheiro 

    Se acaso perguntado, o nostálgico leitor, por estrangeiros e etês, sobre a existência de um templo sagrado em solo brasileiro, o que lhos responderia?

    Penso que católicos olhariam para a cidade de Aparecida e sua nada franciscana Basílica de Nossa Senhora, no que muitos dos evangélicos apontariam para o universalmente cafona Templo de $alomão, enquanto que meus parcos leitores (todos ateus ou macumbeiros, espero) não pestanejariam em cravar o Maraca, vulgo Mário Filho – um templo que já não existe mais. Quanto aos incautos, inocentes e bobos ilustrados, citariam orgulhosamente o New Maracana Arena Odebrecht Cabral, etc. e tal.

    São seres que nasceram numa caverna chamada século XXI, ou nela se enfiaram, por mediocridade, e que carecem de referência sobre o ethos constitutivo do futebol brasileiro e de suas características culturais mais simbólicas. Babam pela influência gringa – em especial pela norte-americana, símbolo de ‘eficiência e espetáculo’ – e reverenciam o Super Bowl, como se toda lógica humana se resumisse cifrões, pirotecnia e ritmo pop. Por total falta de parâmetros, jamais saberão o quão extasiante era sair do túnel do antigo Maracanã para efetivamente sentir-se no interior de um templo sagrado, em dia de Fla-Flu. Não havia qualquer necessidade de selfies para dizer ao mundo, “olhem, estou aqui, estou aqui”, pelo simples ato de estar e ostentar, mas comunhão e rivalidade saudável entre os presentes, em total sinergia com o evento, e não com o telão.

   Aqueles que destruíram esse templo – mentes colonizadas, macaquinhos da modernidade – falam em negócios, lucros e outras merdas que o capitalismo impõe como metas sociais, em detrimento da tradição, do respeito e da empatia. O que importa é o que dá para tirar desse business; mesmo que em forma de propina; mesmo que ignorando pareceres enfáticos de autoridades patrimoniais; mesmo desonrando e enxovalhando o nome da própria família; mesmo colocando o Brasil de quatro para a FIFA enrabar – vale tudo.

    Foi, pois, nesse clima de suruba de valores imorais e materiais, além de muita sodomia forçada, que nasceu o New Maracana. Os arquitetos dessa bizarra maiêutica gozaram à larga e cruzaram oceanos para limpar a porra toda com serviette de table française, enquanto botavam pra éfe em cima do povo. Não há, aliás, regra mais universal e atemporal: o povo sempre se fode. Sem ele, o estádio perdeu sua alma, e com sua arquitetura interna em desacordo com história do templo destruído, perdeu a aura; virou arena. Perdeu a mítica. Passou a calar vozes, a censurar ideologias, a reprimir a alegria, as bandeiras e as percussões, rojões, emoções. Proibiu o carnaval que identificava nossas arquibancadas, e também o gramado, impedindo e penalizando o jogador que “ouse” comemorar um gol junto ao seu torcedor: - Se você for (pra galera), vai tomar amarelo! – alertou Réver a Guerrero, após El Depredador fazer vendaval na defesa para estufar as redes do Furacão, no embate da última quarta-feira.

    Do sofá, sou reportado sobre o jogo. De quando em nunca, a transmissão (que prima por efeitos especiais em detrimento do espetáculo real) permite ao telespectador uns poucos segundos de vislumbre da atmosfera da torcida rubro-negra. Encalacrados como bovinos em suas baias, pouco podem fazer, a não ser coreografia com as mãozinhas ou simpáticos mosaicos, sem o improviso e a espontaneidade que marcaram toda a trajetória do antigo colosso brasileiro. Na tela, a magnética aparece como um borrão digital, cheia de movimentos repetitivos e sem qualquer livre-arbítrio.


    Nosso templo se transformou numa igreja chata e ultrapassada, cujos valores, crenças e dogmas caminham em direção, sentido e sentimentos diametralmente opostos àquilo que querem seus fiéis seguidores. Do pó viemos, ao pó voltaremos.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

É bom de malhar, é bom de cuspir - Zúñiga Geni!

Sem Neymar, venceremos alemães e argentinos
Podem apostar comigo; o colombiano Zúñiga ainda será lembrado como um cara legal. E talvez, mais cedo do que se imagine, haveremos de agradecê-lo pelos serviços prestados.

Primeiro porque a covardia contra Neymar, sob o aspecto físico, não deixará qualquer seqüela no astro – o que, por si só, se revela o maior dos alívios, tanto ao coração dos brasileiros como ao bolso dos banqueiros. Só quem sente dores crônicas na coluna vertebral sabe o que é sentir dores crônicas na coluna vertebral... Mas disso nosso craque não padecerá.

Segundo porque, involuntariamente, deu ao time brasileiro a oportunidade de se fortalecer como equipe à medida que as expectativas não mais recaem sobre um salvador, e sim sobre todo o grupo. Zúñiga deu chance a 22 jogadores de poderem brilhar coletivamente. De sobra, ainda livrou Neymar de substituir Barbosa como potencial carregador do fardo de mais uma eventual “vergonha” nacional. É um efeito colateral atraente numa tragédia que se configurava sem ser anunciada, sub-repticiamente.

Vida de jogador é dura, embora seja inegável que nossos craques recebam, hoje, muito mais mimos e panos quentes que nos tempos de outrora. Talvez isso forje personalidades menos preparadas para a pressão. Pelé só chorou após ganhar seu primeiro Mundial; Ronaldo agüentou, mas surtou às vésperas de sua primeira grande decisão; já Neymar, marejou antes mesmo da bola rolar no Itaquerão, na estréia da Seleção. Sinais de que o menino doirado não seguraria o rojão? Se sim ou se não, é certo que a tensão sobre seus ombros seria desumana; algo que nem Garrincha, Pelé, Zico, Romário ou Ronaldo sofreram, uma vez que nunca disputaram uma Copa do Mundo em casa.

Pessoalmente, acho que o Moicano não daria conta, sozinho, da Alemanha, da Argentina ou da Holanda, que estão num melhor momento. Não porque lhe falte talento, mas, sobretudo, por conta da omissão dos demais. Na hora do vâmovê, todos se livrariam da bola, deixando a estrela solitária perdida numa galáxia de marcadores. E, cá entre nós, alemães não são croatas, holandeses não são chilenos e argentinos não são camaroneses; ao contrário, esses caras têm camisa, tradição e futebol. A torcida canarinho parecia depositar suas esperanças menos na qualidade da Seleção que num eventual “jeitinho” ou lance genial, o que se confirmou quando do empate com o México e também com o Chile, nosso tradicional saco de pancadas em Copas.

Assim, aos trancos e barrancos, jogando mal e tal, esperávamos passar pelos alegres Novos Baianos de Berlim. Com alguma sorte, reza e macumba forte, o plantel alemão sentiria os efeitos de quatro semanas regadas a azeite de dendê, deixando a vaga sonhada à nossa mercê. Na final, contudo, os deuses do futebol não titubeariam e nos reservariam a Argentina de Messi. Estava, pois, configurado um novo Maracanazo, pronto, feito e acabado, posto que os argentinos não dessem chances ao tutu mineiro, tendo trazido de outras plagas seu próprio cozinheiro. Que brasileiro conseguiria sobreviver a um vexame tanguêro?

E, de repente, derrepentemente, vem de lá Seu Almeida, vulgo Sobrenatural, e nos presenteia com um joelhaço na espinha dorsal que, tal como o choque da tomada dado no dedo da criança desavisada, produzirá um efeito colossal. Fred deixará de pecar e orar para fazer gols decisivos nos dois jogos, Fernandinho brilhará como nunca, Luiz Gustavo não deixará ninguém se criar e Bernard irá botar pra quebrar. Sem falar em Dante, nosso Kant soteropolitano, quem irá traduzir aos companheiros toda a lógica filosofal do jogo alemão, deixando nossos adversários sem resposta ante a argumentação da defesa brasileira. Com a ausência de Neymar, todo mundo terá de se ligar. E a massa finalmente, pelos estádios, recomeçará a cantar: ”Meu amigo argentino/ diz aí, como é que é/ ter somente duas Copas/ uma a menos que Pelé!...”.



PS: Um #salve pro Neymar, um pro Zúñiga e outro pro Amarildo (os dois)!

foto: joão sassi

domingo, 29 de junho de 2014

É tempo de Copa!

Hermanos colombianos na mira do Brasil.

A Copa do Mundo começou!

Cá entre nós, gente do metiê, essa tal “fase de grupos” só serve aos anseios políticos da FIFOTA, para fazer de conta que todo mundo participa da festa e angariar votos. Findadas as preliminares, porém, chegamos aos finalmentes, a fase mais gostosa, que dá aquele friozinho na barriga e um comichão na bexiga, fazendo a machaiada segurar o piu-piu e a mulherada apertar o xibiu.

É quando o cidadão não consegue ir à geladeira buscar uma gelada ou sequer ir ao banheiro dar aquela aliviada. É quando aparece a mãe, a tia, o cunhado, a irmã, o primo e mais uma porrada de gente que nunca se reuniu para ver um jogo, e que agora, juntos, torcem como loucos pela Seleção. É o gol que arrebata, é o empate que maltrata, é a bola no travessão que quase mata, enfarta.

A família volta a ser a célula-mater da Pátria e, como num estádio, quem não tem afeição ou intimidade já se abraça, vibra, pula, fibra! É o abraço suado, embriagado, o calor de quem a gente gosta, ou nunca gostou. Mas é por uma boa causa; é pela alegria. Não com “muito orgulho e muito amor”, mas por amor verdadeiro, por inteiro. Vontade de olhar nos olhos, de gritar, chorar e sorrir juntos. Quase sexual. Vontade nacional.

É tempo de Copa! É tempo de corpo. De pegação de línguas; de línguas úmidas, molhadas, enroladas. É tempo de união entre os povos. Tempo de celebração, confraternização, emoção. É tempo de Copa, pôrra!  

Não dá para perder o bonde e deixar a vida passar porque a banda não toca do jeito que você quer. Se solte! Se deixe! Largue de dureza, hômi! É mês de festa, de São João, quadrilha, Lampião! Se avexe, caba, porque é mês de Copa e ela está ali, piscando pra você, como cavalo encilhado, como uma moça, um afago, um gol escancarado.

Se o Diabo mora ao lado e patrocina o rebolado, se benza e tome banho de ervas para tirar o mau-olhado, mas não se vingue do que nos é tão adorado. Não guarde mágoas do amigo alienado, baba-ovo do Galvão e tiete do Felipão. Releve. Esqueça. Esmoreça e aqueça o coração. É tempo de Copa, meu irmão!

É tempo de uma energia que não rola toda hora. Não faz sentido ser tão rígido, intransigente, brigalhão. É tempo de Copa, cara! Do sofrimento desnecessário, angustiante, redentor. É tempo de vitória suada, nos pênaltis, nos acréscimos, inesperada.  Tempo de vitória sofrida. Tempo de vida.



 foto: joão sassi



quinta-feira, 26 de junho de 2014

Mordidinha no ombro

Hincha charrúa pronto para pegar o Blatter dicunforça.
“For the good of the game!” - é assim que a FIFA alardeia ao mundo suas intenções em relação ao futebol. Portanto, para o bem do jogo, é bom que todos joguem limpo.

Não ria, cético leitor; a FIFA preza pelo fair-play. Prova disso é a exemplar punição sentenciada ao guerreiro charrúa e atacante uruguaio, Luizito “El Conejo” Suárez, por conta de uma mordiscada num cannelloni italiano, seu colega de profissão. Com a cajadada, a toda-poderosa pretende matar dois coelhos: auto proclamar-se a guardiã da bola, além de advertir aos maus elementos que ali as regras existem para ser cumpridas. A entidade parece resoluta em extirpar do esporte qualquer sintoma exacerbadamente humano, projetando no horizonte uma peleja robótica, protagonizada por tão infalíveis e obedientes jogadores.

“O vídeo-tape é burro”, disse Nelson Rodrigues, quiçá o homem que mais compreendeu a alma da gorduchinha. Mas de que adianta emperolar o porco se a dona do jogo, que já não dá ouvidos às tradições da bola, escuta muito menos aos poetas e filósofos dessa Escola? Ela não somente confere as imagens da partida, como dá vida a transgressões não computadas pelo juiz, penalizando o infrator por meio de um hipócrito tribunal post mortem.

Suárez virou bode expiatório por ser reincidente. Na final da Copa da Alemanha, Zidane, que com seu cabezazo na caixa dos peitos poderia ter simplesmente matado o Materazzi, recebeu apenas três partidas de suspensão – algo muito coerente e justo, creio -, e isso porque já havia anunciado a aposentadoria.  

Mas seguindo a lógica bizarra ora em voga, o símbolo “Pelé” seria, por exemplo, hoje, menor do que é. Pela cotovelada na fuça de um uruguaio, na semifinal de 70, o crioulo teria pegado ao menos dez partidas de gancho, tamanha a violência do golpe. Tudo, no entanto, ficou em celestes nuvens; ele jogou a Final, imortalizou-se e fez da camisa 10 canarinho um ícone mundial. Nada disso teria rolado se os cartolas tivessem metido a nariga onde não são chamados.

Isso para não falar dos milhares de pênaltis não marcados, dos gols mal assinalados ou sequer validados e dos corações infartados por equívocos da arbitragem. Será que o bandeirinha suíço que deu o famoso não gol inglês, em Wembley66, vai ter sua honra e seu nome depreciados pela FIFA em praça pública, agora que se instituiu as câmeras na linha do gol? Seu erro causou uma derrota em final de Copa, enquanto que o de Suárez, somente uma escoriação. Qual equívoco selou mais vidas ou mudou mais destinos? Por que, então, a FIFA age como uma divindade envolta em castidade para selar o porvir dos verdadeiros protagonistas do espetáculo, sem nenhuma responsabilidade?

E mais: o que ela quer dizer com nove partidas de suspensão e quatro meses longe de qualquer atividade relacionada ao futebol, proibindo o indivíduo, inclusive, de freqüentar estádios – sem mencionar as 100 mil libras de multa? Aviltamento público? Não sou defensor das bordoadas, mas qual a diferença entre uma mordida e uma cotovelada na cara? Ou de uma cusparada no olho? Quantas pancadas nebulosas não são dadas, diuturnamente, pelos campos de futebol, mundo afora? O padrão-FIFA quer criar jogadores insensíveis, sem emoção?

Zizou justificou que o italiano havia ofendido sua irmã e sua honra, e todos o perdoaram. Isso torna sua cabeçada menos violenta que a dentada de Luizito? Ou menos letal? Menos perigosa? Que jurisprudência ou moral tem a FIFA para acusar este ou aquele por jogo sujo? Logo ela, que merece o epíteto mais do que qualquer outra entidade capitalista no planeta. Logo ela, que inventa uma Copa no meio do deserto e mandou o bom senso se Qatar!

Obviamente que não se trata de perseguição, como alegam os uruguaios; do contrário o mediano Diego Forlán nunca teria sido eleito o melhor da Copa passada. Mas o viés totalitário e injustificável da punição contribui para desconfianças, além de um natural arrefecimento da nossa paixão em relação à Copa. A FIFA não entende de futebol e age com recalque. Toda solidariedade ao Povo Cisplatino. E mordidinha no ombro pro Blatter.


foto: joão sassi






terça-feira, 3 de junho de 2014

O Craque Cinema Novo - Torcer ou não pela Seleção?

David Luiz - um craque com uma câmera na mão e boas idéias na cabeça.
A dez dias da Copa do Mundo do Brasil, manifestar entusiasmo pela Seleção Brasileira pode colocar o elemento sob maus lençóis, estando, o incauto, sujeito a ataques ideológicos de todas as frentes. É como se a torcida pelo time canarinho revelasse, em última instância, uma indiferença aristocrática em relação aos problemas sociais da nação, e quando não, pura alienação. Tenho a sensação de déjà vu, mas admito que talvez haja razões para se torcer contra...

Na Copa de 70, no auge da carnificina ditatorial tupiniquim, Médici colou a imagem do Governo à da Seleção; abraçar a equipe nacional significaria dar lastro às torturas e ao estado de exceção. Passei boa parte da minha vida num conflito interno, indagando à minha consciência o que faria se fosse nascido à época de tal patifaria. Engajar-me na luta armada, sim, mas deixar de torcer pela Seleção... Haveria sentido em tamanha traição?

É possível (e até compreensível) que muito guerrilheiro “subversivo” tenha comemorado o gol da Tchecoslováquia que abriu o placar contra nosotros, na estréia. Era um gol nos córnos do general, afinal!... Entretanto, após espetacular virada (4x1), as emoções produzidas revelaram um sentimento de leveza e êxtase que nada tinha a ver com o regime de terror imposto pelos torturadores - e quem antes torcia o nariz, passou a torcer a favor. Os militares não tomariam o que é nosso.

Enquanto o Estado era beligerante e genocida, gerador de tensão mórbida constante entre os cidadãos, Pelé e companhia eram êxtase e fantasia, motivo de orgulho puro e alegria! A conexão havia se dado pelo sentimento daqueles que se viam representados num terreno fértil de arte e inventividade, simbolizado pela técnica exuberante e envolvente do time brasileiro. A cada vitória, a lembrança de que ainda havia vida e esperança, apesar das mortes nos porões.

Nas três copas subseqüentes, esse incômodo enlace entre a então CBD (Confederação Brasileira de Desportos, que logo se tornaria CBF) e a ditadura militar sempre incomodou o torcedor; algo tirava a plenitude do prazer e do apoio incondicional. Com o fim dos anos de chumbo, a Copa de 86 traria consigo o restabelecimento de um sentimento genuíno entre a Seleção e o povo brasileiro; um amor sem amarras, livre e desimpedido. O país tirava do forno uma Constituição Cidadã e todo mundo naquele pensamento positivo de que o amanhã seria melhor, todos batalhando ‘pro dia nascer feliz’! Mas aí, o Tancredo morreu, o Sarney apareceu e o time do Telê sifudeu! Doravante, o affair entre o scratch brasileiro e o torcedor voltou a degringolar; desta feita, não só por razões ideológicas, mas, sobretudo, econômicas.

Não bastasse a ziquizira que se abateu sobre a Nova República, ainda tivemos de aturar o Collor batendo pênalti, o Lazaroni comandando a seleça e o Ricardo Teixeira vendendo a alma do futebol brasileiro ao Diabo. A principal medida adotada pelo tão arguto como moderno cartola foi conceituar e valorizar a marca “Seleção Brasileira”. Como resultado, a grana saiu pelo ladrão durante sua extensa e lucrativa gestão. O amor, no entanto, foi miando no coração da população.

Não que nos faltassem motivos; ao longo das duas últimas décadas, Romário, Robolão, Rivaldo, Ronaldinho e Kaká, com inúmeras conquistas, mundiais e demais, mantiveram as ações da CBF em alta e a Seleção Brasileira nos píncaros do estrelato. Mas enquanto a marca se sobrelevava, a alma padecia. Na Era das comunicações instantâneas, o link entre a realeza do futebol mundial e seus mais abnegados súditos se deteriorava a cada amistoso disputado em campos londrinos, texanos ou médio-orientais. Vendida a sheiks, nikes, claros, sadias, itaús e gilletes da vida, a equipe atual parece uma vitrine de garotos-propaganda.

Para piorar, as televisões, insuportavelmente onipresentes, transmitem todo o cotidiano da Granja Comary em clima de oba-oba e celebritismo, transformando tudo numa Disneylândia verde-amarela e o telespectador num retardado mental ufanista. Forjam a toda hora o papel de porta-voz oficial da Seleção, paparicam o Felipão e impõem aos despreparados atletas uma amizade forçada e constrangedora. Domingo à noite, por exemplo, o FANTÁSTICO prometia “Neymar, na intimidade, como você nunca viu!”. O rapaz não podia nem olhar paras as coxas da Bruna, e lá estava uma câmera bigbrodiana a noticiar a malícia do craque evangélico.  

Uma coisa é ver a rapaziada do CQC fazendo perguntas indiscretas ou arrotando intimidade junto aos famosos; outra é ver um jornalismo pretensamente sério tutelar jogador, como faz Luiz Roberto, ao chamar seguidamente de “Waltinho” o atacante Walter, do Fluminense, evocando, coloquialmente, uma pretensa empatia entre ele e o matuto centro-avante - ou àquilo que ele representa (pureza, ingenuidade, etc). Galvão, então, é o mestre dos cumprimentos juvenis e descolados, bem como daquela mãozinha paternal sobre o ombro de seus entrevistados. Ele espera que todos o tratem como uma sumidade e, dado seu ego monumental, é incapaz de reconhecer no seu interlocutor alguém de maior envergadura que ele mesmo.

O Esporte Espetacular exibiu uma entrevista de Thiago Asmar com os brasileiros que atuam no Chelsea, cheia de provocações infantis, sobre “quem é o mais falador” ou “quem tem o cabelo mais bonito”, em que se via o repórter instigando os jogadores a se comportarem como se estivessem falando à “Caras”. Houve até espaço para arrogância quando ele indagou: -“Willian, então você é o caladinho da turma?”. Deveria haver mais sensibilidade num jornalista que se vira para um ser humano tímido e manda um “caladinho”, em frente aos companheiros de profissão e às câmeras de TV, num misto de compreensão e chacota. Ele se coloca nitidamente num patamar superior ao dos jogadores que, porventura, representam a nação.

Tantos motivos, artificialismos e distorções nos levam, emocionalmente, cada vez mais para longe da Seleção, pois não nos identificamos, em geral, com a apropriação tão mercenária e padronizada de algo que nos é tão caro e seminal, como a cultura do futebol brasileiro. Tampouco queremos ver nossa paixão atrelada a imagem de uma emissora de TV "oficial". Eu não quero ser amigão do Galvão! Toleramos até mesmo que nossos clubes sejam usurpados por aves de rapina do mercado mundial, com promessas de craques, título e coisa e tal, mas quando o mesmo se dá com o selecionado nacional, aquilo que há de mais genuíno no nosso sentimento acaba morrendo, mesmo que aos poucos. Dá vontade de recolher as bandeiras...

Nisso, em nada contribui o Governo Brasileiro, em meio a tantas promessas não cumpridas, apregoar, fanaticamente, o tal #CopaDasCopas rede afora. Moro numa cidade-sede e estou envergonhado com o Governo local (do mesmo partido da Presidenta) por conta do despreparo e das “suspeitas” de superfaturamentos, desvios e corrupção, mas vejo peças publicitárias informando-me que moro no Paraíso. Em documentário exibido à semana passada pela TV Câmara (Mané de Brasília), Agnulo (apelido carinhoso do nosso mandatário) se jacta de estar construindo o “estádio mais barato da Copa de 2014”... Na boa, não tem como não se revoltar com os 1.6 BI gastos até agora, a despeito do entorno do Estádio Mané Garrincha continuar uma joça.

E então, que se dane a merda da Seleção?... Ou não?

Em meio ao desânimo e à desesperança, eis que o zagueiro David Luiz dá mostras de que nem só de bobos vive o esporte quando é indagado como seria sua “copa das copas”. A resposta, cheia de personalidade (dada a frivolidade com que a Globo costura sociologia e futebol) ecoou pela televisão de cada residência como ar fresco entrando pela janela da madrugada: - “Quero que o Brasil também seja campeão fora de campo: que nosso país consiga enxergar que também é importante que nosso povo tenha mais ajuda em inúmeros aspectos. De que adianta ser campeão dentro de campo se nossa gente não está bem?”.

À época do Tri, Tostão, por exemplo, não disse nada, apesar de se sentir envergonhado em ter de apertar a mão de Médici, no Palácio do Planalto. No contexto atual, porém, está claro que alguém que aproveita os holofotes para chamar atenção às necessidades do seu país não pode ser tratado como um alienado ou mau exemplo de cidadão. É um ídolo que fala às novas gerações sobre a necessidade de mudança da realidade social brasileira – é o “Craque-Cinema Novo”!

Não se pode, portanto, confundir a CBF e suas patrocinadoras, tampouco a mancomunação do Governo Brasileiro e da FIFA, com cada um dos indivíduos convocados para representar a população brasileira numa Copa do Mundo – a maior demonstração de congregação mundial entre os povos.

Por isso eu digo foda-se à CBF, à FIFA, aos patrocinadores, à situação e à oposição política nacional, e a todo aquele que se aproveitou para roubar a nação, e também à Joana e ao Teixeirão, mas à Copa e à Seleção, não! Não é por culpa dos jogadores e muito menos do cidadão (ainda mal instruído, mal-educado e maltratado) que o Brasil ainda seja tão desigual, atrasado e corrupto. Que sejamos hexacampeões, e que, a exemplo de David, a vitória da Seleção, em nossos domínios, expresse o desejo popular e simbolize um país menos vira-lata; um país que joga não somente para inglês aplaudir, senão para o povo brasileiro evoluir.



foto&arte: joão sassi