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terça-feira, 3 de junho de 2014

O Craque Cinema Novo - Torcer ou não pela Seleção?

David Luiz - um craque com uma câmera na mão e boas idéias na cabeça.
A dez dias da Copa do Mundo do Brasil, manifestar entusiasmo pela Seleção Brasileira pode colocar o elemento sob maus lençóis, estando, o incauto, sujeito a ataques ideológicos de todas as frentes. É como se a torcida pelo time canarinho revelasse, em última instância, uma indiferença aristocrática em relação aos problemas sociais da nação, e quando não, pura alienação. Tenho a sensação de déjà vu, mas admito que talvez haja razões para se torcer contra...

Na Copa de 70, no auge da carnificina ditatorial tupiniquim, Médici colou a imagem do Governo à da Seleção; abraçar a equipe nacional significaria dar lastro às torturas e ao estado de exceção. Passei boa parte da minha vida num conflito interno, indagando à minha consciência o que faria se fosse nascido à época de tal patifaria. Engajar-me na luta armada, sim, mas deixar de torcer pela Seleção... Haveria sentido em tamanha traição?

É possível (e até compreensível) que muito guerrilheiro “subversivo” tenha comemorado o gol da Tchecoslováquia que abriu o placar contra nosotros, na estréia. Era um gol nos córnos do general, afinal!... Entretanto, após espetacular virada (4x1), as emoções produzidas revelaram um sentimento de leveza e êxtase que nada tinha a ver com o regime de terror imposto pelos torturadores - e quem antes torcia o nariz, passou a torcer a favor. Os militares não tomariam o que é nosso.

Enquanto o Estado era beligerante e genocida, gerador de tensão mórbida constante entre os cidadãos, Pelé e companhia eram êxtase e fantasia, motivo de orgulho puro e alegria! A conexão havia se dado pelo sentimento daqueles que se viam representados num terreno fértil de arte e inventividade, simbolizado pela técnica exuberante e envolvente do time brasileiro. A cada vitória, a lembrança de que ainda havia vida e esperança, apesar das mortes nos porões.

Nas três copas subseqüentes, esse incômodo enlace entre a então CBD (Confederação Brasileira de Desportos, que logo se tornaria CBF) e a ditadura militar sempre incomodou o torcedor; algo tirava a plenitude do prazer e do apoio incondicional. Com o fim dos anos de chumbo, a Copa de 86 traria consigo o restabelecimento de um sentimento genuíno entre a Seleção e o povo brasileiro; um amor sem amarras, livre e desimpedido. O país tirava do forno uma Constituição Cidadã e todo mundo naquele pensamento positivo de que o amanhã seria melhor, todos batalhando ‘pro dia nascer feliz’! Mas aí, o Tancredo morreu, o Sarney apareceu e o time do Telê sifudeu! Doravante, o affair entre o scratch brasileiro e o torcedor voltou a degringolar; desta feita, não só por razões ideológicas, mas, sobretudo, econômicas.

Não bastasse a ziquizira que se abateu sobre a Nova República, ainda tivemos de aturar o Collor batendo pênalti, o Lazaroni comandando a seleça e o Ricardo Teixeira vendendo a alma do futebol brasileiro ao Diabo. A principal medida adotada pelo tão arguto como moderno cartola foi conceituar e valorizar a marca “Seleção Brasileira”. Como resultado, a grana saiu pelo ladrão durante sua extensa e lucrativa gestão. O amor, no entanto, foi miando no coração da população.

Não que nos faltassem motivos; ao longo das duas últimas décadas, Romário, Robolão, Rivaldo, Ronaldinho e Kaká, com inúmeras conquistas, mundiais e demais, mantiveram as ações da CBF em alta e a Seleção Brasileira nos píncaros do estrelato. Mas enquanto a marca se sobrelevava, a alma padecia. Na Era das comunicações instantâneas, o link entre a realeza do futebol mundial e seus mais abnegados súditos se deteriorava a cada amistoso disputado em campos londrinos, texanos ou médio-orientais. Vendida a sheiks, nikes, claros, sadias, itaús e gilletes da vida, a equipe atual parece uma vitrine de garotos-propaganda.

Para piorar, as televisões, insuportavelmente onipresentes, transmitem todo o cotidiano da Granja Comary em clima de oba-oba e celebritismo, transformando tudo numa Disneylândia verde-amarela e o telespectador num retardado mental ufanista. Forjam a toda hora o papel de porta-voz oficial da Seleção, paparicam o Felipão e impõem aos despreparados atletas uma amizade forçada e constrangedora. Domingo à noite, por exemplo, o FANTÁSTICO prometia “Neymar, na intimidade, como você nunca viu!”. O rapaz não podia nem olhar paras as coxas da Bruna, e lá estava uma câmera bigbrodiana a noticiar a malícia do craque evangélico.  

Uma coisa é ver a rapaziada do CQC fazendo perguntas indiscretas ou arrotando intimidade junto aos famosos; outra é ver um jornalismo pretensamente sério tutelar jogador, como faz Luiz Roberto, ao chamar seguidamente de “Waltinho” o atacante Walter, do Fluminense, evocando, coloquialmente, uma pretensa empatia entre ele e o matuto centro-avante - ou àquilo que ele representa (pureza, ingenuidade, etc). Galvão, então, é o mestre dos cumprimentos juvenis e descolados, bem como daquela mãozinha paternal sobre o ombro de seus entrevistados. Ele espera que todos o tratem como uma sumidade e, dado seu ego monumental, é incapaz de reconhecer no seu interlocutor alguém de maior envergadura que ele mesmo.

O Esporte Espetacular exibiu uma entrevista de Thiago Asmar com os brasileiros que atuam no Chelsea, cheia de provocações infantis, sobre “quem é o mais falador” ou “quem tem o cabelo mais bonito”, em que se via o repórter instigando os jogadores a se comportarem como se estivessem falando à “Caras”. Houve até espaço para arrogância quando ele indagou: -“Willian, então você é o caladinho da turma?”. Deveria haver mais sensibilidade num jornalista que se vira para um ser humano tímido e manda um “caladinho”, em frente aos companheiros de profissão e às câmeras de TV, num misto de compreensão e chacota. Ele se coloca nitidamente num patamar superior ao dos jogadores que, porventura, representam a nação.

Tantos motivos, artificialismos e distorções nos levam, emocionalmente, cada vez mais para longe da Seleção, pois não nos identificamos, em geral, com a apropriação tão mercenária e padronizada de algo que nos é tão caro e seminal, como a cultura do futebol brasileiro. Tampouco queremos ver nossa paixão atrelada a imagem de uma emissora de TV "oficial". Eu não quero ser amigão do Galvão! Toleramos até mesmo que nossos clubes sejam usurpados por aves de rapina do mercado mundial, com promessas de craques, título e coisa e tal, mas quando o mesmo se dá com o selecionado nacional, aquilo que há de mais genuíno no nosso sentimento acaba morrendo, mesmo que aos poucos. Dá vontade de recolher as bandeiras...

Nisso, em nada contribui o Governo Brasileiro, em meio a tantas promessas não cumpridas, apregoar, fanaticamente, o tal #CopaDasCopas rede afora. Moro numa cidade-sede e estou envergonhado com o Governo local (do mesmo partido da Presidenta) por conta do despreparo e das “suspeitas” de superfaturamentos, desvios e corrupção, mas vejo peças publicitárias informando-me que moro no Paraíso. Em documentário exibido à semana passada pela TV Câmara (Mané de Brasília), Agnulo (apelido carinhoso do nosso mandatário) se jacta de estar construindo o “estádio mais barato da Copa de 2014”... Na boa, não tem como não se revoltar com os 1.6 BI gastos até agora, a despeito do entorno do Estádio Mané Garrincha continuar uma joça.

E então, que se dane a merda da Seleção?... Ou não?

Em meio ao desânimo e à desesperança, eis que o zagueiro David Luiz dá mostras de que nem só de bobos vive o esporte quando é indagado como seria sua “copa das copas”. A resposta, cheia de personalidade (dada a frivolidade com que a Globo costura sociologia e futebol) ecoou pela televisão de cada residência como ar fresco entrando pela janela da madrugada: - “Quero que o Brasil também seja campeão fora de campo: que nosso país consiga enxergar que também é importante que nosso povo tenha mais ajuda em inúmeros aspectos. De que adianta ser campeão dentro de campo se nossa gente não está bem?”.

À época do Tri, Tostão, por exemplo, não disse nada, apesar de se sentir envergonhado em ter de apertar a mão de Médici, no Palácio do Planalto. No contexto atual, porém, está claro que alguém que aproveita os holofotes para chamar atenção às necessidades do seu país não pode ser tratado como um alienado ou mau exemplo de cidadão. É um ídolo que fala às novas gerações sobre a necessidade de mudança da realidade social brasileira – é o “Craque-Cinema Novo”!

Não se pode, portanto, confundir a CBF e suas patrocinadoras, tampouco a mancomunação do Governo Brasileiro e da FIFA, com cada um dos indivíduos convocados para representar a população brasileira numa Copa do Mundo – a maior demonstração de congregação mundial entre os povos.

Por isso eu digo foda-se à CBF, à FIFA, aos patrocinadores, à situação e à oposição política nacional, e a todo aquele que se aproveitou para roubar a nação, e também à Joana e ao Teixeirão, mas à Copa e à Seleção, não! Não é por culpa dos jogadores e muito menos do cidadão (ainda mal instruído, mal-educado e maltratado) que o Brasil ainda seja tão desigual, atrasado e corrupto. Que sejamos hexacampeões, e que, a exemplo de David, a vitória da Seleção, em nossos domínios, expresse o desejo popular e simbolize um país menos vira-lata; um país que joga não somente para inglês aplaudir, senão para o povo brasileiro evoluir.



foto&arte: joão sassi

sábado, 29 de março de 2014

A FIFA, o Samba e o futebol de antigamente

Quem não gosta de Samba, bom sujeito não é...
    Fingindo que está tudo bem e que uma Copa do Mundo seja somente motivo de júbilo e alegria, venho assistindo aos filmes oficiais de edições passadas pra já ir “entrando no clima de festa”. Os arquivos de imagens anteriores à dolorosa edição do IV Campeonato Mundial de Futebol (Brasil-50) não são generosos. A partir de então, no entanto, dada a crescente qualidade de técnicas e equipamentos de filmagem, pode-se fazer uma curiosa viagem pelo futebol de antigamente, e também pelos meandros que circundaram os mundiais seguintes, suscitando saudosas ilações.

    Em meio a muitas partidas inexpressivas entre seleções igualmente incipientes, ficamos no aguardo de alguma peleja envolvendo o Brasil, ocasião em que se espera uma espécie de reverência imediata a quaisquer dos nossos craques. Em pouco tempo, porém, damo-nos conta de que esse reconhecimento não irá ocorrer e que a ignorância a nosso respeito é total. Quando muito, um elogio minguado, mas nunca uma descrição fiel àquela que permeia o imaginário brasileiro.

    Didi, por exemplo, é um dos poucos que mereceu alguma reverência no filme sobre o Mundial de 58, na Suécia, cabendo a Pelé receber a alcunha de menino-prodígio – algo bem gay, diga-se. Os demais campeões são quase que completamente ignorados, (Nilton Santos e Garrincha, inclusos). Como menção honrosa sobre o desconhecimento acerca do Brasil, registre-se que a bandeira hasteada no mastro do hotel que primeiro recebeu a delegação brasileira em terras nórdicas era a de Portugal; pode isso, Joaquim!

   Sobre Mané, aliás, percebe-se que ele é um mero desconhecido para a autoridade máxima da burocracia da bola, sendo descrito como “aquele que só sabe quem é o adversário quando entra em campo” para, por fim, ser comparado ao ex-craque driblador bretão Stanley Mathews. O etnocentrismo é tal que, mesmo com duas Taças de Campeão do Mundo no currículo, a referência continua sendo o gringo, e não Garrincha! Isso tudo, em pleno Mundial do Chile-62, quando, sem a companhia de Pelé, o mais famoso ponta-direita da história fez não somente o sol carioca brilhar sobre os Andes, mantendo a Jules Rimet em casa, como até gol de cabeça e de canhota! Para a FIFA, no entanto, o nome de Garrincha parece ser tão irrelevante como o de qualquer um seus Joões deixados estatelados pelos campos, mundo afora...

    Detalhe curioso é notar que as participações dos scratches brasileiro nos filmes sejam veiculadas com um onipresente e latiníssimo Mambo ao fundo! Quando não, Salsa. Há também cenas dos jogadores brasileiros na concentração com a inserção de um acompanhamento mais regional: música andina! Alguém tem noção do por quê? Será possível que Zé Carioca y sus amigos participaram da escolha da trilha sonora? A FIFA não gosta de Samba? Vai saber...

    A partir da Inglaterra-66, as imagens ganham ainda mais qualidade, e os uniformes, cores com texturas exuberantes! Com o registro de imagem e a captação de áudio feitos à beira do gramado, pode-se escutar o som ambiente em sua totalidade, composto pelos gritos dos jogadores, chutes na bola, apitos e, principalmente, pelo alarido da comportada torcida inglesa, com suas aristocráticas palmas a cada lance, além dos indefectíveis “ahhhhs” e “ohhhhs”, já presentes nos estádios desde os tempos de antanho.

    Um chute a gol, uma defesa, um drible, tudo deve ser aprovado ou não pelo espectador por meio das palmas. Nesse modelo, o torcedor se comporta majoritariamente de maneira passiva, reagindo àquilo que vê em campo, pouco contribuindo para ser também um ator ativo do espetáculo em curso – não por acaso, exatamente o modelo aristocrático que “muita gente” quer ver implementado nos estádios brasileiros, durante e após a Copa do Mundo "do Brasil". Deve ser porque gente comportada sempre tem mais dinheiro para gastar. Como bônus, é suprimida qualquer forma de expressão popular mais espontânea. A FIFA nos quer como consumidores desse produto, não como parte dele (we shall not forget the Matrix, fellows).

    Nesse sentido – e a despeito das belas imagens da Copa de 66 -, chama a atenção a narração empolada, bem como a peculiar percepção européia do evento, que interpreta o estádio como um grande teatro, embora com escasso enfoque ao aspecto emocional de seus atores, e muito mais a aspectos comportamentais e factuais aplicados às regras do jogo – algo totalmente diferente àquilo a que estamos acostumados. Não há referências à subjetividade subjacente à atitude dos jogadores numa disputa de bola, senão uma descrição ipsis literis do que se passa em campo. Definitivamente, não há fantasia na visão FIFA do futebol. A julgar pela última edição do manual da entidade, nota-se que esses senhores não entendem patavina de antropofagia, ou não se ofenderia tanto a cultura local com suas imposições tanto descabidas quanto desrespeitosas. Após a Copa, o brasileiro terá de reinventar o futebol, tal como o fez no passado, a ver se recupera sua alegria.

    Mas voltando à vaca fria, o último filme que vi foi sobre a Copa do México-70. Nele, Pelé já é, enfim, tratado como “Rei do Futebol”, enquanto os demais jogadores tem pouco ou nenhum destaque. Exceção feita ao arqueiro Félix, vítima de chacota e gozações sem fim por parte da locução oficial; motivos para os quais, convenhamos, não faltaram.
  
    Tenho para mim, que a Copa de 70 marcou o fim da Era Lúdica do futebol, simbolizada pela fantástica harmonia resultante da interação entre o amarelo-solar dos brasileiros e o azul-real dos italianos, tendo como partícipe a pulsante e multicolorida torcida mexicana. Nunca se viu goleada como aquela numa final, tampouco invasão de campo tão devotada, motivada tão somente pelo entendimento comum de que ali se realizara algo grandioso. Nunca se viu e jamais se verá novamente algo igual ou remotamente semelhante, pois o tempo daquele futebol já não existe. Já não permite.

    Fica, portanto, a marca de um tempo em que malícia e picardia eram palavras inocentes, de quando se esperava que o adversário, de fato, respeitasse as regras propostas. De um tempo em que o juiz sequer interferia nos protocolos da cobrança de uma falta, dado que os interessados soubessem exatamente o que fazer, sem necessidade de sprays ou de coações constantes por parte do homem de preto. De um tempo em que não se utilizava a simulação como estratagema de jogo; quando condutas anti-desportivas eram a exceção. De um tempo em que se jogava e se deixava jogar. De um tempo, enfim, em que, menos que jogadores ou homens, eram crianças confraternizando a arte do encontro, entre gols, saltinhos, beijinhos e abraços de carinho. Assim era o futebol de antigamente. 


foto: ricardo azoury


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Diego Costa e a Lei de Gérson


Oxalá, Diego siga sendo apenas um
rosto desconhecido aos nossos olhos...
Dinheiro.

Nenhuma outra circunstância se mostrou tão relevante como o “faz-me rir” no momento em que Diego Costa via seus ovos frigirem. É a deixa perfeita para emo(na)cionalismos aflorarem e o Brasil eleger um novo vendilhão. Podem apostar; nenhum político, até o final do próximo pleito eleitoral, terá recebido críticas tão severas como as que serão imputadas ao novo delantero de La Roja por conta de seu tão recente quanto surpreendente amor declarado à Espanha.

Todos os sonhos nascem puros, e Diego certamente sonhou em ser o novo Ronaldo quando, então com 14 anos, viu o Gordo barbarizar em gramados nipo-coreanos, trazendo o Caneco pra cá. Diego não tinha uma estratégia malévola para enriquecer, que não mostrando ao mundo que Lagarto, em Sergipe, havia produzido um artilheiro de primeira grandeza.

A vida teimava em dizer que não, fazendo-o perambular por aqui e por acolá. Saiu cedo de casa, da cidade, do país e até do continente. Ralou e quase foi esquecido, mas deu um nó na peia do destino e, aos 25 anos, apareceu como estrela do time-sensação do atual campeonato de bola, na terra da castanhola. Até ontem o cara não era ninguém por aqui. Contudo, devido à atual conjuntura (Fred baleado, Pato afogado, Jô escolado, Damião apagado), é ele quem nos convém, embora haja, nessa história, um enorme porém...

Enquanto age por conta de seus próprios interesses, é a CBF quem aparece na foto; é ela, por meio de inqualificáveis elementos como Mr. Teixeeeeeeeeeira e José “Medalha” Marin, que assina contratos e vende a alma da cultura nacional a xeiques árabes e multinacionais norte-americanas. Mas na hora do apuro, quando se faz notar que o caldo entornou e que a principal ameaça ao hexa-campeonato descolou um centro-avante de responsa, apela, ridícula e humilhantemente, ao patriotismo dos atletas em nome da “Seleção Brasileira” e de milhões de torcedores... Como escreveu o jornalista e blogueiro Menon, custava ligar pro cara antes (da merda feder)? Por que passar pelo vexame de tomar um toco em cadeia internacional? Quem faz papel de idiota? O Diego ou a Seleção?

É por essa e por outras que o Complexo de Vira-latas em Pindorama não pode ser considerado suplantado. Aliás, duvido que se tenha feito tanto auê quando o Mazzola virou a casaca, indo defender a Azurra em 62, logo após haver se sagrado campeão do mundo em 58, jogando com a Amarelinha. O cara quer ir, deixa ele ir! Laissez faire, laissez aller, laissez passer...

Pelo Brasil, Diego teria de passar pelo mesmo calvário que Hulk - também nordestino e desconhecido (um duplo pecado para nossa mentalidade colonialóide!) – para poder ao menos lutar por uma vaga no ataque. E mesmo com gols, seria execrado à primeira falha, visto que não tem história ou empatia com nenhum time ou torcedor em paragens tupiniquins. Seria faca nos dentes até conseguir atingir o imaginário popular, uma tarefa hercúlea para quem já caiu nas graças do povo de lá. Se ele jogasse mal até a Copa, ainda assim seria convocado pelo Bigodón deles. E aqui, o que seria se ele não marcasse nenhum gol nos próximos quatro amistosos? Castravam esse fidumaégua! Ademais, teria dito uma voz melosa ao seu ouvido, “melhor garantir a participação em uma Copa do que não jogar nenhuma”...

É natural que a massa se revolte contra aquele que, tendo nascido em solo pátrio, renega a possibilidade de defender suas cores. Mas convém enxergar além para se entender o porquê dessa postura aparentemente déclassé. É o caso de se voltar ao tema e refletir; quem entra em campo: a CBF ou o Brasil? Conforme escrevi neste espaço borogodense, pouco mais de um ano atrás (O Patriota Idiota e o Time da CBF), está cada vez mais difícil convencer o torcedor (e o próprio jogador) de que A representa os interesses de B.

Ou seja, se antes não se contestava Nelson Rodrigues, ora se tem a impressão de que a Confederação roubou as chuteiras da Seleção, deixando a Pátria descalça e sem representação.

Diego Costa não poderia ser mais brasileiro do que é, e é aí que reside nosso inconformismo. Mesmo na carta em que revela sua opção profissional, ele não esconde sua nacionalidade ao expressar-se parcamente em sua própria língua mater – e olha que ele deve ter recebido cola da assessoria!

Não há, portanto, preocupação quanto ao carinho que ele carrega pela suas origens. Há, é notório, que se entender de uma vez por todas que nossa seleção foi usurpada da população, dando lugar a uma corporação que em nada faz lembrar a cultura da nação, senão por querer sempre se dar bem, mesmo estando habitualmente envolvida em suspeitas de corrupção.

Diego, portanto, não disse “não” ao Brasil, mas à CBF. Zé Medalha e Filipón já deveriam ter aprendido com o Teixeirówski: seja no mundo dos negócios, seja na vida pessoal, não importa; o brasileiro gosta de levar vantagem em tudo, certo?


PS: Aproveito e mando um salve pro Canhotinha, que leva o nome de uma lei descarada, mas é boa-praça!!


imagem: joão sassi


domingo, 17 de fevereiro de 2013

A Bola nos Tempos de Outrora


O Mané Garrincha fugirá às suas tradições para receber "torcedor de elite".




Todo menino é um rei. Eu também já fui rei, e como tal, achava que tudo aquilo que havia acontecido antes do meu nascimento fosse algo muito distante de mim. Na infância, o tempo é abstrato.

Naquela época meu pai costumava falar muito da seleção brasileira, então tricampeã mundial. Aos dez anos de idade, eu já tinha alguma intimidade com os scratches de 58, de 62 e de 70. Sabia quem eram, por exemplo, o Príncipe Etíope, a Enciclopédia, o Peito-de-Aço, o Possesso, bem como o Canhotinha-de-Ouro, o Capita, a Patada Atômica e, claro, o Furacão da Copa. Sabia até mesmo que Brito, o beque-central, era o melhor preparo físico daquele time tricampeão.

A consagração no México havia ocorrido há pouco mais de uma década, ainda que no meu raciocínio infantil a magistral campanha do tri fosse coisa de muito tempo atrás. Minha única ligação com aquele espaço-tempo era, pasmem, o Rei Pelé, pelo simples fato de havê-lo visto jogar pelo Flamengo, num amistoso contra o Galo; o que nem de longe me credenciava a pensar na seleção de 70 como uma coisa próxima ao meu tempo. A TV era P&B, a antena não funcionava e eu contava somente quatro anos, mas Pelé é Pelé, e disso ninguém esquece.

Foram, entretanto, tantos e tão ricos os detalhes e informações que me foram sendo carinhosamente legados e transmitidos ao longo da infância, que sou capaz de sentir a nostalgia que meu pai um dia sentiu. É o que acaba de ocorrer, há pouco, quando assisti, pela enésima vez, ao documentário “Isto é Pelé”.

A locução grave, com caráter de história oficial, o som ambiente dos estádios ou mesmo a ausência total de ruídos em alguns gols exibidos conduzem o telespectador àquele tempo que já passou. Tempo este em que os jogadores se abraçavam desprovidos de vaidade ou malícia marqueteira, quando ainda não havia telões ou câmeras para se buscar na hora do gol (à época, um gozo coletivo). Nesse tempo, as camisas eram de algodão e as traves de madeira, quadradas. Foi um tempo em que se chorava após uma grande conquista ou grande feito alcançado – a alegria surgia antes dos dividendos, pois a seleção era formada por pessoas comuns, à feição dos que por ela torciam. Nem a ditadura conseguiu fazê-la menos brasileira.

Foi um tempo em que as emoções afloravam espontaneamente, e que teve seu ápice na participação massiva da torcida no desfecho daquela Copa, que abraçou (literalmente) o time canarinho na grande final, naquilo que se configurou numa das mais espetaculares demonstrações de afeto a uma equipe de futebol – e nem brasileiros eles eram! As bandeiras, os rojões, a chuva de papel picado e o público eufórico invadindo o campo fizeram daquela celebração uma das mais tocantes já vistas no esporte mundial, tornando o Estádio Azteca um lugar sagrado para nosso futebol. As cenas são de arrepiar os cabelos do careca.

Nos dias de hoje, mais de quatro décadas após a consagração da seleção nos gramados mexicanos, tenho para mim que esse tempo não está tão distante assim. Na verdade, ele está bem mais próximo agora do que no meu tempo de criança. Talvez porque a contemporaneidade seja palco de uma humanidade obcecada pela futilidade da vida e pelo profissionalismo dos negócios. Talvez porque, por conta disso, os jogadores tenham desaprendido a brincar de bola sem que tenham, de fato, aprendido a jogar futebol.

Trata-se de um universo diferente, formatado cotidianamente pela mídia, e não mais ancorado na tradição oral, passada de pai para filho (quando pais e filhos ainda conversavam). Nesse mundo novo, os estádios de futebol e toda a cultura local ali existente foram desintegrados, dando lugar a shoppings que, sabe-se lá por que razão, são chamados de “arenas”. Os torcedores que ali festejavam, por sua vez, foram banidos e substituídos por consumidores.

No mundo de hoje, enfim, o povo não recebe convite para a festa que ele mesmo criou. Deu lugar a torcedores europeizados que seriam mais civilizados por torcerem sentados e não se mexerem muito nas arquibancadas, além, é claro, de comprarem produtos oficiais da sua “empresa do coração”. Nesse mundo tão comportado e organizado, o tradicional modo de torcer tornou-se obsoleto. Nele, a paixão do torcedor é quantificada pelo poder de consumo daquele que a proclama.

Esses sentimentos contraditórios e melancólicos me fizeram recordar que há tempos não converso sobre a seleção com meu pai. Fico triste, principalmente por ser seu aniversário, dia de comemoração.

Sinto, porém, que nosso tempo já tenha realmente passado, e que hoje não sejamos mais do que dinossauros à espera da extinção. Lá se foi o tempo da bola, levando consigo os belos tempos de outrora. Mesmo assim, feliz aniversário, pai.


foto: joão sassi


domingo, 20 de janeiro de 2013

Seis da Manhã - 30 anos sem alegria

Garrincha em pleno êxtase 

Lá fora estava ainda escuro, mas a luz não tardaria a aparecer. Deitado em meu colchonete, escutei a empregada trabalhando na cozinha.

Eram barulhinhos de talheres, xícaras de porcelana e de gordura chiando na frigideira. O dia estava quase nascido e um cheiro de manhã logo se instalaria pela casa. Cuscuz e inhame na manteiga, mingau de tapioca, café com leite e pão na chapa com ovos mexidos.

Eu adorava acordar cedo, principalmente porque estava de férias da escola, veraneando em Salvador com minha família. Tinha passado de ano com certa facilidade. Fazer contas de multiplicação era mais fácil que de divisão, mas o que eu adorava mesmo era fazer “composição”. Agora, porém, na 3ª Série, imaginava que as coisas ficassem mais complicadas.

Em silêncio, alcancei a porta do quarto e, já na sala, olhei para um relojão-cuco barulhento no exato momento em que o passarinho saiu para dar a notícia; seis da manhã. Pelos cantos, em leitos improvisados, espalhados por ali e pelo resto da casa, havia uma pessoa deitada. A morada estava cheia de gente, mas ninguém despertou. Foram seis cucos no vazio.

Entrei na cozinha e vi Hilda, a responsável pelo trabalho pesado da casa. Nascida no interior, ela costumava acordar antes das galinhas. Por mais dura que fosse a labuta, tinha sempre uma expressão de genuína cumplicidade para ofertar. Poucas palavras; sorriso simples. Criada ao pé do fogão, comida era o que ela sabia fazer de melhor na vida: cozinhava como já não se cozinha mais. Seu contato com a realidade era furtivo e dava-se, mormente, à hora em que se recolhia, ao pé do rádio, por onde recebia as notícias da vida. Era uma Macabéia sem par, donzela no mundo até seu último dia.

   _ “Já acordado, minino? Molhou o colchão?”, disse, mostrando os dentes separados, enquanto espremia a laranja fresca, à mão. Não tinha espremedor melhor que aquela mão. Dela, além de suco, saía carinho.

Abri a porta de casa a tempo de ver o sol surgir, dourando as dunas da Lagoa do Abaeté. E logo estava atravessando a rua que ficava a poucos passos da areia. Mingote de criança branca, me aproximei daquela água escura e me sentei. A areia estava fresquinha e era fina como açúcar de confeiteiro. Morria de vontade de pular n’água, mas meu pai dizia que dava doença. Então, eu só molhava os pés.

Procurei com os olhos pelas lavadeiras, sempre conversadeiras ao longo do dia e das margens da lagoa, mas não as encontrei. Nem elas, nem aquele bando de crianças que sempre as acompanhavam. Também não vi nenhum negão de cócoras admirando a imensidão. Meu pai dizia que eles faziam isso – ficar ali, de prontidão – porque tinham sempre um bagulhinho à mão. Eu não sabia o que era, mas devia ser bom, já que dia e noite, tinha sempre um deles vislumbrando a superfície plácida como se estivesse em profunda reflexão.

Não se escutava nada, nenhum ruído, além do cantar de alguns passarinhos escondidos pela vegetação. O sol já começava a subir, mas as águas do Abaeté permaneciam intocadas, como se o dia não houvesse ainda começado. Nem sinal de gente ou coisa alguma. Tudo estava parado, em suspenso, e o único movimento perceptível era do meu indicador, desafiando a areia molhada que fica no ínterim entre o branco das dunas e o coca-cola das águas.

Desenhei no chão um gol, e em seguida uma bola entrando no ângulo. Não tive tempo de desenhar quem a chutou. Nesse instante, alguém tocou meu ombro: -“Hilda disse que você saiu sem tomar café... Vamos lá?”- disse ele, meu pai, erguendo-me pelos sovacos e me colocando sobre seu cangote.

Seguimos em silêncio pela areia, à beira da lagoa, até alcançarmos o cume de uma ladeira que dava na rua de nossa casa. Passando por uma barraquinha de palha que vendia coco aos turistas, ouvia-se pelo radinho de pilha um locutor que alardeava, emocionado, a notícia do dia: - “Acaba de falecer, no Rio de Janeiro, Manuel Francisco dos Santos - mais conhecido como Mané Garrincha –, craque do Botafogo e da Seleção Brasileira! Chora o Brasil inteiro a morte de seu maior ponteiro!”.

Senti que meu pai tomou um baque. Com os olhos marejados, abriu a boca, mas não tinha o que me dizer. Eu sabia que alguma coisa grave havia acontecido. Ele então me olhou e disse: -“Garrincha partiu...”.

Atravessamos a rua em silêncio. De fato, Salvador ainda não acordara. Nem os coqueiros de Itapoã se mexiam. Entrei em casa e percebi que todos ainda dormiam. Na cozinha, Hilda ainda espremia laranjas. E o cuco ainda estava lá, inerte, parado no ar, sem vontade de voltar; marcava as mesmas seis horas da manhã.

Só os passarinhos puderam ser escutados naquele dia. Era 20 de janeiro de 1983 e, desde então, nunca mais se ouviu tantas gargalhadas e risadas pelos estádios. O Brasil perdeu seu ídolo mais brasileiro, e o futebol, sua maior alegria.

Em homenagem à memória de Garrincha e Hilda Carolina