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domingo, 27 de outubro de 2019

Torcedor do Flamengo: A Felicidade Existe?

Galera reunida após longo e tenebroso inverso; futebol é união.

    Foi como o amor: não se sabe muito bem como se deu ao certo, embora se bem saiba agora que muito certo se deu. As mais belas projeções não seriam capazes de predizer o que sente um adepto rubro-negro no atual estágio da temporada; tão ou mais feliz que um adolescente defronte o espelho se arrumando para ir passar uns dias enfurnado na casa da namorada cujos pais pegaram o último avião para o Nepal – sentiram a intensidade da emoção?

    Se o Mourinho fosse o portuga escolhido, haveria festa e a magnética se daria por satisfeita em ganhar o Brasileirão do Parmêra, na rodada derradeira, por um ponto, e chegar à final da Liberta, ainda que sem favoritismo, tendo ganhado muitas partidas por 1x0, sem encantar. Caso fosse El Cholo Simeone, idem. Com o Guardiola ou o Klopp (meu sonho de consumo), as expectativas cresceriam quanto aos placares e quanto ao ‘jogo bonito’, embora sem a projeção de um time tão aniquilador e encantador (afinal, o Fla não é o Barça ou o Liverpool). Mas quando se anunciou Jorgito Jesus Christ no comando, no que teriam pensado os torcedores do Flamengo? Eu mesmo pensei pitufas, senão um ‘Glória a Deux; melhor que o Abelão ele deve ser!’, pois não tinha a menor idéia de quem era ou do que ele poderia fazer pelo Mengão. Cheguei mesmo a suspeitar que pudesse ser uma barca furada, como foram as naus portuguesas que por estas paragens abarcaram em tempos recentes.

    Mas Jesus veio e, em parcos quatro meses (o que são quatro meses, galera?), transformou a rala e salobra água rubro-negra em denso e inebriante vinho do Porto, doutrinando jogadores, multiplicando gols, recordes e vitórias, convertendo jornalistas e santificando antigos pecadores aos olhos de devotos torcedores. Sabíamos que tínhamos potencial para produzir algo de qualidade, muito embora fosse imperioso admitir que nem mesmo a hiperbólica percepção de um Nelson Rodrigues colocaria o Flamengo nos píncaros do ludopédio continental em que ora se encontra.

    Há quanto tempo você, torcedor de qualquer clube, não tem a escalação de seu time na ponta da língua? Vou além; qual a escalação de seu time quando do último título conquistado? Qual foi a última vez que seu time ‘fez história’ ou ‘marcou época’? Admitamos: a maioria nem sabe o que é isso, pois conta-se nos dedos de uma mão as esquadras que atingiram esse patamar nos últimos 150 anos de futebol jogado em solo tupiniquim. Só Santos e o São Paulo chegaram lá, além de nós.

    Entenda-se ‘chegar lá’ por dominar a cidade, o país, o continente e o mundo, colocando na roda os campeões da Champions, na final do Interclubes (atual Mundial de Clubes), como fizeram Pelé com o Benfica e Telê Santana com o Barça e o Milan. O Flamengo de Zico completa essa tríade; fomos os fodões do Bairro do Peixoto... 38 anos atrás! De lá para cá, sequer uma final continental voltamos a disputar, ao contrário dos dois paulistas, que voltaram e conquistaram novamente a Liberta, mesmo sem esquadrões foras-de-série como os de outrora. Isso nos coloca como um clube mediano no imaginário do torcedor, mundo afora. Quando não, totalmente insignificante – apesar do Zico!

   "Somos um Argentinos Juniors da vida; ninguém bota fé, fora os próprios torcedores, os iludidos assumidos."


    ‘Descobri’ isso num taller de periodismo entre jornalistas latino-americanos, em Cuba, em 2001 - portanto duas décadas após o baile em Tóquio. Ostentando o Manto Sagrado pelo salão, percebi que não causava qualquer sensação. Um equatoriano até sabia quem tinha sido o ‘Grande Zico’, mas não o Flamengo. Foi quando caiu a ficha de que meu Mengão fuderosão tricampeão (o Pet havia marcado o gol de falta naquela semana) não tinha qualquer representatividade ou reconhecimento no continente americano. Ou você, querido flamenguista, reconheceria o Argentinos Juniors como potência futebolística? Por que não? Os caras também foram campeões da Liberta na primeira participação deles (1985) e produziram um gênio da raça (Maradona), enquanto nós fizemos o mesmo em 1981 e revelamos o Zico. Sacaram? Somos um Argentinos Juniors da vida; ninguém bota fé, fora os próprios torcedores, os iludidos assumidos. Tudo bem que ganhamos umas copinhas do Brasil lá e cá, e outros tantos brasileirões aqui e acolá, mas e daí? Quem liga? Pior: chegando a algumas decisões como azarão (1992 e 2009)! São conquistas gostosas, mas pontuais; aliás, foras da curva (e nossa curva tende à mediocridade).

    Jorge Jesus está mudando isso. Hoje o nome do Flamengo corre pelos sete mares do Planeta. Ganhando a Libertadores e, sim, o Mundial, na negra do Liverpool, teremos assegurada nossa volta ao Olimpo, o que não estaria garantido somente pelas conquistas, senão pela forma encantadora como joga nosso time.

    O flamenguista, sem perceber, está finalmente se divorciando do paradigma de 81, ano do futebol-total, como quem deixa finalmente de pensar num antigo romance, seja por obra do tempo, seja pela aparição de um novo amor. Hoje, o flamenguista é aquele sujeito feliz e apaixonado, tal qual o adolescente do início do texto, mas não somente por estar próximo à consagração total, ou por ter sua paixão plenamente correspondida, senão por saber que ela, a paixão, pulsa em mais de quarenta milhões de corações, além de outros milhares, recém-convertidos, que têm se deixado encantar pela apoteose do Mais Querido. Como nos ensinou o jovem libertário estadunidense Cristopher McCandless - inspiração para o célebre livro ‘Na Natureza Selvagem’, de Jon Krakauer -: “a felicidade só existe quando é compartilhada”.

    Oh, meu Mengão, eu gosto de você; quero cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro-negro...

domingo, 16 de dezembro de 2012

Glória ao Todo-Poderoso Timão - The favela is here!

Torcedores corintianos celebram: time de primeira grandeza.


Ontem à noite a ansiedade era total e aqueles que, como eu, queriam secar o Corinthians na final do Mundial, teriam ainda de esperar algumas horas para tal. Era tentadora a ideia de se varar a noite enchendo a cara para assistir à partida na maior loucura. Por outro lado, não é nem meu time, pô... E vai que o Corinthians ganhe; ficar bêbado de graça não dá.

Ganhar a Liberta em cima do Boca já é mais do que suficiente para acabar com o complexo de time doméstico da gambazada, mas ainda levar o Interclubes em cima de time inglês já é demais. Bons tempos aqueles em que só o Mengo se gabava de haver vencido os inventores do jogo; agora, até os bambis já se deram bem em cima dos súditos da rainha.

Por mais que pareça, caro leitor, o problema não era somente de recalque de torcedor, mas sim o que esse atual Corinthians representa para o futebol brasileiro – problema sociológico, portanto. Direção truculenta, ainda que “profissional” – leia-se, bem-sucedida em termos de marketing. Torcida eufórica, algo beligerante demais para a manutenção dos bons costumes e do respeito mútuo entre os adversários. Assumir o discurso do confronto a qualquer custo, a qualquer hora, tira um pouco do brilho e da energia contagiante que vem das arquibancadas alvinegras. Além de muita sujeira de bastidores envolvendo dinheiro público.

Claro que estou me ocupando de justificar meu olho gordo, pois estava torcendo contra. Só de saber que o Andrés Sanchez ficaria feliz, eu ficava triste. Só de lembrar dos últimos contratos/concessões/benesses recebidos pelo Timão, ficava puto. E torcia contra, ainda mais. Apesar do Sócrates.

Em campo, o time de Parque São Jorge mostrava sua grandeza, peleando de igual para igual contra o milhardário scratch londrino. Além disso, a Fiel dava espetáculo nas arquibancadas, e isso deve ser reconhecido por todo amante do futebol. Se os europeus curtissem mesmo esse título e marcassem presença, “dividindo o estádio”, seria ainda mais lindo. O futebol precisa disso. O espetáculo está dentro de campo, mas nas arquibancadas o que deve imperar é o Carnaval. Não se está assistindo a uma opereta, como preza a FIFA.

Salvo as defesas de Cássio – O Intransponível, o que me convenceu de que o Corinthians poderia merecer a taça – apesar do título brasileiro roubado de 2005 - foi a letra mágica de Paulinho, esse fantástico menino que parece ser também um fantástico jogador. Momento de craque, reencarnação do Doutor; instante sublime. No que matou de letra, matou a marcação. Tabelou, armou e deixou Danilo chutar para ver Guerrero concluir triunfalmente a jogada. Quando vi o toque sutil de Paulinho, antevi o gol: - “Merece!” – afirmei. E assim o Timão foi campeão.

Se não o fosse, a festa seria dos torcedores que queriam ver os gambás passarem vexame. Ao invés disso, teremos de aceitar a alegria desses fanáticos que estão por aí, dizendo ao mundo o que é isso aqui: é um pouquinho mais que Brasil-iá-iá que canta e é feliz; isso aqui é Corinthians. The favela is here.

Então, em vez de curtir a dor-de-cotovelo e alimentar a inveja, valorizemos a vitória desses milhões de corintianos que, apesar de cada vez mais chatos e insuportáveis, trabalham, lutam e sofrem como o diabo. São loucos, coitados. E merecem nosso perdão: glória, pois, ao Todo-Poderoso Timão.

foto: joão sassi