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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Sonolentão 2015 (não bastassem os 7x1...)

Vilipendiado, aviltado e desrespeitado, o torcedor brasileiro sente sono.
Thank’s God, it’s over! Mais um campeonato brasileiro para ser esquecido! - marca registrada da “Era” dos pontos corridos...

- “Uma das vantagens em ser campeão com antecedência é poder comemorar por mais tempo!...”, inovou o apresentador do Globo Esporte desta 2ª feira, ao exibir imagens da torcida cruzeirense, no Mineirão, celebrando um bicampeonato conquistado há tanto tempo que os celestinos nem se lembram mais.

Já no ótimo Redação SPORTV, o jornalista Carlos Cereto mencionou que o gol mais festejado pela torcida palmeirense, neste ano - ano do centenário! –, foi o do Santos, no triunfo sobre o rebaixado Vitória, na derradeira rodada do campeonato, que livrou de vez o Verdão da humilhante degola. Pois não foi outra que não esta a maior atração da última rodada: a agonia dos únicos três clubes que ainda poderiam cair, pois nem disputa pelo “G4” havia mais. O que poderia ser uma data inesquecível, que mobilizasse todo o Brasil, transformou-se, portanto, num dia qualquer; num domingo desperdiçado, desses que se passa assistindo ao Faustão e comendo miojo.

As expectativas para a “rodada decisiva” eram tão nulas que o principal diário de notícias da capital do País do Futebol (o Correio Braziliense) não trazia uma única linha especializada que lembrasse ao leitor este mais que melancólico fim do Brasileirão2014. Nenhum colunista se prestou a fazer qualquer análise, tão desinteressante se mostrou o produto servido ao torcedor brasileiro. E pensar que “profissionalismo” é a palavra da moda!...

Não bastasse a FIFA nos currar durante a Copa (e depois a Alemanha nos violentar); não bastasse o governo brasileiro construir estádios superfaturados (e inacabados) com dinheiro público e doá-los a empresários; não bastasse o ingresso a preços escorchantes cobrados por estes mesmos empresários; não bastassem as proibições sem fim dentro das novas “arenas”; não bastasse a elitização e a desfiguração total do perfil do torcedor brasileiro; não bastasse a destruição do Maracanã; não bastasse a ausência de um camisa 10 de qualidade atuando por aqui; não bastasse uma camisa oficial custar, em média, 200 reais; não bastasse o excesso insano de propagandas nas camisas oficiais; não bastasse o marketing selvagem, colorido e nada tradicional nas camisas oficiais; não bastassem os clássicos de torcida única; não bastasse a volta do Eurico Miranda ao Vasco; não bastasse o time de maior torcida no país estar a mais de 140 rodadas longe do “G4” e, por fim; não bastasse o Pelé fazer as vezes de garoto-propaganda (das Olimpíadas no Rio) até quando está na unidade de terapia semi-intensiva (!), ainda temos de testemunhar passivamente como o campeonato de maior tradição e representatividade no Brasil vai se tornando o mais desinteressante e entediante dos espetáculos? Por que tanto penar, ó, Deus? Não basta termos um Dunga à frente da Seleça? Um Marin de cabelo acaju? Um Ricardo Teixeira rindo em Miami? E ainda isso?

Por outro lado, sorte a minha ter, nesse pensar, a companhia de gente da estirpe de um Xico Sá ou de um Peninha que, ontem, no excelente Extraordinários – de longe, o melhor programa esportivo da TV brasileira (aberta e fechada) – opinaram contra a escabrosidade dos pontos corridos. Como afirmou o historiador gremista, “a Final é uma entidade!”, uma data esportiva que a diferencia não somente das demais datas esportivas, senão também de todos os dias do ano. As finais marcam nossa vida. Criam registros indeléveis e produzem emoções que se refletem na imaterialidade de um não-lugar, porque em toda a cidade (todo o País!), resultando numa sinergia irreplicável em condições normais de temperatura e pressão – e os caras querem tirar isso da gente, como se nos fizessem um favor por imitar o futebol europeu com sua justiça e hábitos inexoráveis, é mole?

Pergunte, portanto, o dadivoso leitor a qualquer torcedor medianamente conectado ao mundo da bola, qual foi o grande dia do futebol tupiniquim, no corrente ano, e terás como resposta inescapável a primeira partida da Final mineira da Copa do Brasil, entre o Galo e a Raposa. Nenhuma outra peleja despertou tamanho interesse e expectativa. Nenhuma partida foi tão aguardada, acompanhada ou celebrada por tantos torcedores, de tantas agremiações diferentes, pais afora – algo deveras sintomático.

É inegável que o sistema de pontos corridos gere, além de tédio, tal gama de deturpações, que não seria precipitado pensarmos na implementação imediata de um novo modelo que atenda às demandas culturais do torcedor brasileiro, principalmente no tocante aos quesitos “emoção e imprevisibilidade”. Que os mentecaptos da CBF deixem a bola rolar solta, sem o cabresto de fórmulas tão claras quanto chatas. E que tenham os velhacos da cartolagem clarividência e criatividade, pois, do contrário, haja ânimo para suportar o Sonolentão 2015...


foto: joão sassi

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Disputa entre Galo e Raposa dá Bode

CANUTTO: E você, Bode, que que achou? // BODE: Cachorro?! Que cachorro, o quê? Eu não sou cachorro, não!


Tenho uma amiga sofredora que, certa feita, me ligou do Maracanã, onde assistia o seu Botafogo perder, só para me dizer que ela estava de frente para a torcida do Flamengo – e que era a coisa mais linda que ela já tinha visto.

Decerto, a presença da torcida adversária - devidamente achincalhada pela torcida vitoriosa, sob silvos, urros, vaias e chacotas intermináveis (sempre dentro dos limites cavalheirescos perpetrados pelo jogo, claro) – abrilhanta qualquer partida, além de fortalecer a ideia de que o esporte seja apenas uma forma recreativa que simula o conflito, não devendo prevalecer o interesse em eliminar ou acabar com o adversário, fisicamente.  – “Ser espectador de um esporte é um mecanismo que desenvolve a consciência de união das pessoas. Paradoxalmente, o esporte contribui para a união ao enfatizar o conflito entre as partes” - proferiu a socióloga norte-americana Janet Lever, em seu livro A Loucura do Futebol (Record)

Aos exasperados da bola (profissionais, amadores ou espectadores), a vida não teria completude e sentido se, em seu transcurso, não houvesse já programada uma grande final de campeonato ganha sobre o arqui-rival, nos estertores de uma batalha dada por perdida. O gol do campeonato! O delírio em campo! Os torcedores explodindo em loucura, lá das arquibancadas (ou da Geral!), em fraternal comunhão com milhares de anônimos!...  - Quem não sonhou com um momento assim, tendo a torcida adversária por testemunha, num estádio lotado?

Indiferente aos sonhos da maioria, porém, a diretoria do Atlético Mineiro preferiu disputar a primeira partida da Final da Copa do Brasil deste ano em campo diminuto (Independência), indigno para um clássico de tamanha envergadura, história e importância contextual. Ato contínuo, um entrevero entre os rivais, suscitado por recomendações da Polícia Militar e proibições judiciais, fez com que o Cruzeiro abrisse mão de sua já ínfima cota de ingressos, decretando que apenas as cores do Galo estariam presentes às arquibancadas do estádio. Ô, tristeza sem fim para nosso futebol...

Mais ainda para monstros sagrados como Tostão, que diz não entender o motivo do clássico se realizar a meia-bomba: - “Isso é um atestado de falência da sociedade e dos governos, incapazes de combater a violência urbana, no futebol e fora dele”, disse o mestre, inconformado com a bestialidade em curso.

Para o bem do esporte, o mesmo nobre princípio que equilibra e dá ordem à relação conflituosa entre adversários no campo de jogo deveria se aplicar a todos os que compõem o espetáculo; especialmente aos torcedores, que bancam todo o circo, em escala global. E não somente quanto à proteção destes, mas, inclusive, no sentido de garantir totais condições para que o embate esportivo se dê também entre eles, possibilitando a presença de torcidas antagônicas e proporcionando uma rivalidade tão saudável como pedagógica em todos os jogos, sobretudo nos clássicos, quando a paixão atinge o ápice. Deveria ser uma questão de Estado, pois diz respeito ao esporte mais praticado no planeta Terra, cuja seleção de maior expressão e respeito é a brasileira (ou costumava ser).

O combate à ignorância e à selvageria não deveria se dar nas ruas (e muito menos nos estádios!), mas nas salas de aula, em campos e quadras espalhados pelo país, oferecendo aos jovens, praticantes ou não, a exata noção do zelo que devemos ter por valores vitais à sociedade, como a tolerância, a aceitação e o respeito à diversidade.

É vergonhoso que, governo após governo, o esporte nacional, inestimável instrumento de coesão social e promovedor de alianças e aproximações culturais as mais diversas, em nível mundial, venha sendo deixado de lado e tratado como coisa pequena no que diz respeito a sua função social, embora cada vez mais como grande negócio, quando os interessados são poderosas multinacionais exploradoras do trabalho infantil, xeiques trilhardários ou meros ditadores – a eles, o tapete vermelho, o Brasão e as cores nacionais – e o Hino, de lambuja!

A presença de interesses inconciliáveis (somente uma agremiação sairá vencedora), representados pelas torcidas rivais num estádio de futebol, deveria ser obrigatória por conta da própria natureza do esporte, segundo a qual um rival forte é mais apreciado que um fraco; rivalidade esta que se dá, tanto e mais, se houver espaço para embates simbólicos que extrapolem as quatro linhas, enfatizando as diferenças clubísticas e enaltecendo o sentimento de cada torcida em relação ao seu time. 

O extermínio daquilo que nos é distinto representa a morte da nossa maior fonte cultural de estímulo e paixão, e também uma sociedade mais violenta e desequilibrada. Em seu quadro clínico-político vegetativo, no entanto, o Estado brasileiro segue desprovido de qualquer ideia ou ação que favoreça o bem-estar comum.

Por ora, enquanto perdurar o pensamento unidirecional das massas de que é impossível conviver com "o diferente", e até quando não se sabe, o futebol brasileiro será apenas um sonho que se sonha só, desprovido de essência, cada vez mais alienado e alienante, distante como nunca de suas raízes multiétnicas de mistura e paz, união e celebração. Povo sem cultura é povo escravizado.

PS: Penso em Manoel de Barros e só consigo sorrir, mesmo com sua escapulida da vida. Viva o poeta. 

foto: joão sassi                                                 
@BorogodoFC

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Carta Aberta ao Ministro Aldo Rebelo - Pela socialização do torcedor brasileiro!

Emissoras de rádio e TV retransmitem a carta do Borogodó.
Caro Ministro Aldo Rebelo,

Desculpe incomodá-lo, pois sei que Vossa Excelência deve estar ocupado sobremaneira com as quadrilhas responsáveis pela organização das festas juninas vindouras. Quisera eu estar falando do São João, mas é sobre Copa do Mundo, mesmo. Sabedor do seu contagiante nacionalismo, venho tratar de um assunto o qual preciso de sua avaliação, na esperança de, quem sabe, ser convencido por vossa sapiência a reconsiderar minha decisão, mas o fato é que estou pensando seriamente em migrar para a Alemanha.

Perdoe a falta de ufanismo, senhor ministro, mas de tão desiludido com os cartolas daqui, e de tão empolgado com a evolução do futebol alemão, cheguei a escrever uma carta, propondo uma contratação (a minha), ao ex-craque e atual embaixador do Bayern, Paul Breitner. Acho, no entanto, que ele ainda não teve tempo de ler a correspondência sul-americana... (Alô, Paul, responde aí, meu!). De todo modo, espero que o senhor encontre um tempinho para ler esta cartinha, já que sequer lhe peço emprego.

E se tomei essa drástica decisão, Dr. Aldo, é porque estou cansado de ser achincalhado por notícias vindas d’além mar, dando conta do respeito que as autoridades alemãs têm pelo futebol do país. Sem falar do respeito que os cartolas de lá têm pelos clubes que gerenciam, e também pelos seus torcedores! Estou farto da eficiência dos projetos por eles arquitetados, e olha; estou “por aqui” com a maior média nacional de público, no mundo, presente aos estádios de futebol. Só a zorra do Borussia Dortmund põe 80 mil negos nas arquibancadas, por jogo, com direito a salsicha e cerveja alemãs nos bares – além das próprias alemãs, seu ministro!

Dia desses, em texto aqui publicado (Maracanã: chucrute com banana), eu já havia enchido a bola dos germânicos, ao tomá-los como referência na arte da antropofagia ludopédica, conquanto soubessem assimilar características importadas, mantendo a originalidade cultural local. Exemplo disso ocorreu quando se acatou certas imposições da FIFA durante os jogos da Copa-2006, revogando-as, posteriormente, por não serem de interesse do torcedor alemão. Êta, povo evoluído!

A FIFA obriga o torcedor a ficar sentado; o dirigente alemão, não. Em muitos estádios, uma quantidade específica de cadeiras foi retirada após o Mundial, respeitando os desígnios e as tradições das torcidas mais populares que desejassem torcer “à moda antiga”. E mesmo durante o Mundial daquele ano, as autoridades locais impuseram cerveja nacional nos estádios, contrariando os interesses da empresa americana que patrocina a FIFA. Se os teutões podem fazer valer a vontade deles, por que a gente não pode comer comida brasileira nos estádios? Uma farofinha, um queijo de coalho, uma macaxeira na manteiga... Um tutuzinho, um acarajezinho... Nada? Ninguém merece um cachorro-quente seco e sem gosto por 10 reais, né, ministro!

Enquanto isso, nas mesas-redondas das TVs brasileiras, o que mais se escuta é apresentador e comentarista coxinhas se regozijando em dizer que “o torcedor brasileiro vai ter de reaprender a torcer(!?) e se reeducar por conta das novas arenas...”. Nossa, o pobre Darcy Ribeiro deve se revirar no túmulo com tanta subserviência cultural! Esses jornalistas deveriam conhecer o povo das Alagoas, gente tipo o senhor, a fim de desenvolver alguma auto-estima, não é verdade? Tem muito vira-latas complexado na mídia brasileira! Sinto saudades do Nelson, ministro... E do João, do Armando e de gente que dizia as verdades, sem redemoinhos e cantilenas... Néééé, ministro?!

Na Bundesliga, a média de torcedores numa partida de futebol supera os 45 mil. Já por aqui, o narrador global Luiz Roberto se derreteu ao constatar o total de pagantes presentes à decisão do Carioqueta-2014: “Agora, sim, um púbico digno de final!”, desabafou, satisfeito com os 42 mil aficionados que assistiram ao “Clássico dos Milhões”. E olha que Flamengo e Vasco jogaram num Maracanã padrão FIFA, ministro!  Tava assim de cadeiras vazias, ministro!!! Não seria o caso do senhor acionar a ABIN, para eles apurarem o que está acontecendo? Isso só pode ser sabotagem internacional! Esses gringos são foda, ministro!

O abnegado da Fiel que nesse Domingo quis curtir Curíntia e Figueira, pela 5ª rodada do Brasileirão-2014, conseguindo escapar dos cambistas, desembolsou ao menos 50 mangos pra ver o Timão se afogar no recém-inaugurado Itaquerão inacabado. E não adianta vir com chorumelas e com aquele “papo de noiva” porque a gente não é bobo, ministro; o bagulho tá em obras e ponto! Nesse evento, o ingresso mais caro custou 400 pilas. Já na terra do chucrute, da panqueca de batata e da salsicha branca, o ingresso mais barato sai a 45 reais para as partidas do Bayern, ou a 453, caso o felizardo queira assistir aos 17 jogos que o time fará como mandante, na multicolorida e moderníssima arena construída para a Copa-2006. Como eles conseguem isso, senhor ministro?

O presidente do Bayern de Munique nos dá uma dica preciosa ao revelar que essa acessibilidade sócio-econômica ocorre porque os dirigentes alemães não enxergam os torcedores como vacas a serem ordenhadas; - “O futebol tem de ser para todos!” – alardeia, deixando claro que não se deve impor ao torcedor uma realidade específica, mas respeitar a realidade dele e suas diversas formas de expressão. Por isso há espaço para todo tipo de espectador, e não somente para aquele que pode pagar caro. Parece utopia, né, ministro?

Aqui, por outro lado, não só acatamos o conceito de torcedor-vaca, pagando o quanto quiserem nos cobrar, como fazemos questão de evidenciar essa condição apelando às nossas raízes e tradições escravocratas. Nas circunjacências do Maracanã, por exemplo, são contumazes as cenas em que policiais-cavalariças, munidos de cassetetes, distribuem bordoadas em incautos pais de família, a título de organizar a fila... Quer coisa mais bovina do que essa? Falando em gado, manda um abraço pro Renan, seu conterrâneo querido!

Por fim, recente pesquisa capitaneada pelo Prof.Dr.Phd.etc&tal, Holger Preuss, da prestigiada Universidade Johannes Gutemberg, afirma que, após grandes eventos, os estádios devem, necessariamente, ser readaptados às realidades locais, levando-se em conta o fato de um torcedor comum ser diferente do torcedor de Copa ou de Olimpíada – este, muito mais abastado. A solução proposta: - “O Brasil adiante não deve copiar o padrão FIFA, mas desenvolver os estádios de futebol para a socialização dos torcedores brasileiros e do comportamento local.”

Confesso que, após sua atuação como parlamentar na proposta de  mutilação do Código Florestal Brasileiro, perdi completamente a confiança no senhor, mas não tendo muito a quem recorrer, e apelando à sua qualidade de Ministro de Estado, pergunto: o senhor entendeu a fórmula mágica alemã ou quer que eu desenhe?

No aguardo por vossas considerações acerca do meu futuro e do futuro do torcedor brasileiro, despeço-me enviando as melhores recomendações à família,


  João Sassi – D.T. do Borogodó Futebol Clube


foto: joão sassi

terça-feira, 15 de abril de 2014

Roberto Dinamite e a Síndrome de Superman

Roubado é mais gostoso?
A pretensa decisão da diretoria do Vasco da Gama de solicitar a anulação da partida final contra o Flamengo é de um ridículo atroz que só não é maior por falta de espaço em São Januário.  Seus dirigentes entendem que o gol rubro-negro foi fruto de roubo, sendo, portanto, ilegítimo. Clamam por justiça! Querem a cabeça do juiz, do goleiro e de quem mais estiver em conluio com tais meliantes!

É inacreditável! Esse pessoal não teve infância? Não sabe levar na boa-fé um fato mais que inerente ao esporte? O erro está implícito à disputa desportiva, uma vez que os embates estão submetidos ao julgamento potencialmente falho do ser humano. Ele não está previsto em qualquer regra, mas como um tempero que cai acidentalmente na panela, criando uma combinação espetacular, faz parte da cosmologia do esporte, permeando todo seu processo evolutivo e demais desdobramentos.

Cansados de tomar na tarraqueta, os diretores  vascaínos insistem na exposição e na humilhação públicas do próprio time, incumbência antes exercida pelos botafoguenses. Por querer voltar o tempo e refazer os acontecimentos da vida, Mr. Bob Dinamite, quem muito admirei quando em atividade, deveria ganhar o troféu "Síndrome de Superman", concedido ao cartola mais original do metiê. Como diabos ninguém teve antes tão reluzente ideia? Será que dá pra todo mundo entrar nessa fita aí, doido? É só ir lá com o adevogado, pá-pum e pronto, desembaçou? Tudo zerado? Convoca-se uma nova Final, distribui-se novos ingressos aos cambistas e tá tudo firmeza?... Mas, diz aí; tem jurisprudença, mano?

   - Poxa, Roberto, não tem! Passa outra hora, com outra roupa, meu filho, porque quem sabe não sobra alguma numa próxima oportunidade, quando vocês poderão fazer como o Flu e virar a mesa sempre que for conveniente?

O “delito flamengo-arbitral-global” teria sido admitido e confessado pelo arqueiro rubro-negro Felipe, baiano descarado, da mesma laia de Edílson e Vampeta, quando ele fez troça sobre os eternos vice-campeões com o provocativo chavão “roubado é mais gostoso”. Foi o suficiente para que o Gigante da Colina se retasse, apelando às tais providências jurídicas cabíveis mais descabidas à disposição.

Na mesma toada, nas redes sociais pululam acusações ao caráter do goleiro flamenguista. Percebo tempos tão hipócritas que uma clara provocação se torna uma prova da essência supostamente desvirtuada do povo brasileiro. Ou não se percebe que, em sua provocação explícita, ele enaltece o rival ao admitir, implicitamente, que ganhar do Vasco é tão importante que faria qualquer coisa para isso?  Ah, mas tenho certeza de que o probo leitor não coaduna com gente dessa estirpe, pois sim? Senão, vejamos...

 O brasileiro tem orgulho do sucesso internacional da seleção brasileira. É das poucas coisas que suplanta nosso atávico complexo de vira-latas.  Ao contrário da realidade social, no quesito futebol a nossa auto-imagem adquiriu autoridade moral sambando com a bola nos pés, assobiando e chupando cana ao mesmo tempo. Conquistamos cinco Copas do Mundo legítima e inquestionavelmente, com direito a Copa nas Américas, nas Oropa e até no Oriente!

Se porventura, porém, uma das estrelas bordadas na camisa canarinho, houvesse sido obtida, digamos, sob o tacão de uma ditadura militar, com favorecimentos mil, além de uma tanto sub-reptícia como elástica vitória sobre (des)determinado oponente, é certo que nos sentiríamos um pouco desconfortáveis por conta do olhar de soslaio que o mundo inteiro dispensaria a tal conquista (mais ou menos como a torcida do Sport se sente em relação ao “título” de campeão brasileiro de 87). Pode até constar nos anais, mas na cabeça da geral o papo é outro.

Apesar desta verve honesta e de sermos todos tementes a Deus, o brasileiro também faz macumba e adora jogar no bicho. São ações constitutivas da nossa cultura, como também o é a malandragem, tão bem corroborada por Túlio Maravilha – o ex-imortal – com sua providencial ajeitada no braço e conseguinte golaço sobre os hermanos, pelas semis da Copa América-95. Não vi um único brasileiro, por mais Caxias e ilibado que fosse, lamentar pelos jogadores argentinos estarem à beira de um ataque cardíaco, gesticulando, desesperados, para que o juiz anulasse o gol. Naquele momento, nosso jeitinho foi elogiado de Norte a Sul do país.

Será a prova cabal de nosso macunaismo? Não creio. É certo que se fosse contra a Venezuela, nos sentiríamos envergonhados por passar à final “na mão grande”. Sendo, porém, contra a Argentina, ter sido como foi se revelou um motivo a mais de regozijo! E não adianta falar que não foi porque foi!

Justiça, merecimento, mérito... São palavras tão bonitas, não obstante tão deslocadas do mundo da bola... Em 2007, por exemplo, estive presente ao Maracanã quando o Botafogo foi garfado e o Flamengo foi campeão. À ocasião, Dodô foi expulso por concluir a gol um ataque mal anulado pela arbitragem, impedindo a vitória alvinegra nos derradeiros minutos. Saí do estádio eufórico, mas aquela “injustiça” me incomodou muito porque, de fato, o Botafogo era muito mais time e não merecia perder. Deu até pena vê-los chorando na TV.


Agora, me pergunta se eu sinto o mesmo em relação ao jogo de Domingo? Como disse o zagueiro Wallace, só lamento pelo gol não ter saído aos 48!... Hahaha! Chupa, Vasco!

sábado, 29 de março de 2014

A FIFA, o Samba e o futebol de antigamente

Quem não gosta de Samba, bom sujeito não é...
    Fingindo que está tudo bem e que uma Copa do Mundo seja somente motivo de júbilo e alegria, venho assistindo aos filmes oficiais de edições passadas pra já ir “entrando no clima de festa”. Os arquivos de imagens anteriores à dolorosa edição do IV Campeonato Mundial de Futebol (Brasil-50) não são generosos. A partir de então, no entanto, dada a crescente qualidade de técnicas e equipamentos de filmagem, pode-se fazer uma curiosa viagem pelo futebol de antigamente, e também pelos meandros que circundaram os mundiais seguintes, suscitando saudosas ilações.

    Em meio a muitas partidas inexpressivas entre seleções igualmente incipientes, ficamos no aguardo de alguma peleja envolvendo o Brasil, ocasião em que se espera uma espécie de reverência imediata a quaisquer dos nossos craques. Em pouco tempo, porém, damo-nos conta de que esse reconhecimento não irá ocorrer e que a ignorância a nosso respeito é total. Quando muito, um elogio minguado, mas nunca uma descrição fiel àquela que permeia o imaginário brasileiro.

    Didi, por exemplo, é um dos poucos que mereceu alguma reverência no filme sobre o Mundial de 58, na Suécia, cabendo a Pelé receber a alcunha de menino-prodígio – algo bem gay, diga-se. Os demais campeões são quase que completamente ignorados, (Nilton Santos e Garrincha, inclusos). Como menção honrosa sobre o desconhecimento acerca do Brasil, registre-se que a bandeira hasteada no mastro do hotel que primeiro recebeu a delegação brasileira em terras nórdicas era a de Portugal; pode isso, Joaquim!

   Sobre Mané, aliás, percebe-se que ele é um mero desconhecido para a autoridade máxima da burocracia da bola, sendo descrito como “aquele que só sabe quem é o adversário quando entra em campo” para, por fim, ser comparado ao ex-craque driblador bretão Stanley Mathews. O etnocentrismo é tal que, mesmo com duas Taças de Campeão do Mundo no currículo, a referência continua sendo o gringo, e não Garrincha! Isso tudo, em pleno Mundial do Chile-62, quando, sem a companhia de Pelé, o mais famoso ponta-direita da história fez não somente o sol carioca brilhar sobre os Andes, mantendo a Jules Rimet em casa, como até gol de cabeça e de canhota! Para a FIFA, no entanto, o nome de Garrincha parece ser tão irrelevante como o de qualquer um seus Joões deixados estatelados pelos campos, mundo afora...

    Detalhe curioso é notar que as participações dos scratches brasileiro nos filmes sejam veiculadas com um onipresente e latiníssimo Mambo ao fundo! Quando não, Salsa. Há também cenas dos jogadores brasileiros na concentração com a inserção de um acompanhamento mais regional: música andina! Alguém tem noção do por quê? Será possível que Zé Carioca y sus amigos participaram da escolha da trilha sonora? A FIFA não gosta de Samba? Vai saber...

    A partir da Inglaterra-66, as imagens ganham ainda mais qualidade, e os uniformes, cores com texturas exuberantes! Com o registro de imagem e a captação de áudio feitos à beira do gramado, pode-se escutar o som ambiente em sua totalidade, composto pelos gritos dos jogadores, chutes na bola, apitos e, principalmente, pelo alarido da comportada torcida inglesa, com suas aristocráticas palmas a cada lance, além dos indefectíveis “ahhhhs” e “ohhhhs”, já presentes nos estádios desde os tempos de antanho.

    Um chute a gol, uma defesa, um drible, tudo deve ser aprovado ou não pelo espectador por meio das palmas. Nesse modelo, o torcedor se comporta majoritariamente de maneira passiva, reagindo àquilo que vê em campo, pouco contribuindo para ser também um ator ativo do espetáculo em curso – não por acaso, exatamente o modelo aristocrático que “muita gente” quer ver implementado nos estádios brasileiros, durante e após a Copa do Mundo "do Brasil". Deve ser porque gente comportada sempre tem mais dinheiro para gastar. Como bônus, é suprimida qualquer forma de expressão popular mais espontânea. A FIFA nos quer como consumidores desse produto, não como parte dele (we shall not forget the Matrix, fellows).

    Nesse sentido – e a despeito das belas imagens da Copa de 66 -, chama a atenção a narração empolada, bem como a peculiar percepção européia do evento, que interpreta o estádio como um grande teatro, embora com escasso enfoque ao aspecto emocional de seus atores, e muito mais a aspectos comportamentais e factuais aplicados às regras do jogo – algo totalmente diferente àquilo a que estamos acostumados. Não há referências à subjetividade subjacente à atitude dos jogadores numa disputa de bola, senão uma descrição ipsis literis do que se passa em campo. Definitivamente, não há fantasia na visão FIFA do futebol. A julgar pela última edição do manual da entidade, nota-se que esses senhores não entendem patavina de antropofagia, ou não se ofenderia tanto a cultura local com suas imposições tanto descabidas quanto desrespeitosas. Após a Copa, o brasileiro terá de reinventar o futebol, tal como o fez no passado, a ver se recupera sua alegria.

    Mas voltando à vaca fria, o último filme que vi foi sobre a Copa do México-70. Nele, Pelé já é, enfim, tratado como “Rei do Futebol”, enquanto os demais jogadores tem pouco ou nenhum destaque. Exceção feita ao arqueiro Félix, vítima de chacota e gozações sem fim por parte da locução oficial; motivos para os quais, convenhamos, não faltaram.
  
    Tenho para mim, que a Copa de 70 marcou o fim da Era Lúdica do futebol, simbolizada pela fantástica harmonia resultante da interação entre o amarelo-solar dos brasileiros e o azul-real dos italianos, tendo como partícipe a pulsante e multicolorida torcida mexicana. Nunca se viu goleada como aquela numa final, tampouco invasão de campo tão devotada, motivada tão somente pelo entendimento comum de que ali se realizara algo grandioso. Nunca se viu e jamais se verá novamente algo igual ou remotamente semelhante, pois o tempo daquele futebol já não existe. Já não permite.

    Fica, portanto, a marca de um tempo em que malícia e picardia eram palavras inocentes, de quando se esperava que o adversário, de fato, respeitasse as regras propostas. De um tempo em que o juiz sequer interferia nos protocolos da cobrança de uma falta, dado que os interessados soubessem exatamente o que fazer, sem necessidade de sprays ou de coações constantes por parte do homem de preto. De um tempo em que não se utilizava a simulação como estratagema de jogo; quando condutas anti-desportivas eram a exceção. De um tempo em que se jogava e se deixava jogar. De um tempo, enfim, em que, menos que jogadores ou homens, eram crianças confraternizando a arte do encontro, entre gols, saltinhos, beijinhos e abraços de carinho. Assim era o futebol de antigamente. 


foto: ricardo azoury


sábado, 3 de agosto de 2013

Seu Boneco e a Liturgia Antropofágica do GOAL!

Já não era sem tempo; a FIFA precisava mesmo dar um jeito nesse pandemônio.
    
              
"O erro do intelectual consiste em acreditar que (...) possa ser um intelectual mesmo quando distinto do povo-nação, sem sentir as paixões elementares do povo (...)." - GRAMSCI

Após a patética e constrangedora publicação de um manual pelo qual a FIFA buscava civilizar a população nativa durante a Copa das Manifestações, orientando-a como “torcer” e “vibrar” adequadamente, o chorume de idéias geniais derramadas sobre os campos brasileiros se propõe agora a educar e a conter os ânimos dos atletas. Anseiam o controle absoluto sobre o comportamento de jogadores e torcedores dentro de um estádio; espaço paradoxalmente concebido para a prática de atividades que afloram as emoções dos presentes ao máximo.

É como se pudéssemos ler o caput do seguinte artigo: Sobre a feitura e conseqüente comemoração do “goal” em shoppings brasileiros. Artigo Único: Faça o goal e finja que não o fez; engula sua alegria a seco e retorne, de imediato, ao seu campo para que o árbitro dê seguimento ao jogo...

Seria esta a regra grafada no inconsciente coletivo de nossos capachos dirigentes? Do contrário, como justificar a cena grotesca de ver, nas últimas rodadas do Campeonato Brasileiro, o pessoal que faz a segurança das novas “arenas” retirando jogadores do Flamengo e do Botafogo, à força (!), dos braços de sua própria torcida? Como tolerar a interferência doentia de uma lei, regra ou norma, estúpidas e frias, no âmago de uma comemoração de gol – a mais sagrada liturgia do povo brasileiro? Seria o caso perguntar se os nobres dignitários do esporte comem cocô? Talvez.

É líquido e certo que a nata da intelligentsia ludopédica tupiniquim - baba-ovo do estrangeiro que é - jamais ouviu falar do Manifesto Antropofágico, não ambicionando, portanto, a produção cultural ou a promoção de algo verdadeiramente original.  

Se essa “elite da bola” tivesse se instruído adequadamente e aprendido a depurar um pouco seu irrefreável pendor ao vira-latismo, curvando-se somente àquilo que de fato merecesse reverência (como o respeito ao torcedor, por exemplo), toda a bazófia escutada nos últimos tempos sobre a europeização dos estádios brasileiros poderia até começar a fazer algum sentido. Mas não faz. Para essa putada que rege as leis do esporte, não basta copiar; tem que piorar! Mesmos gastando bilhões do erário erguendo arenas para inglês ver, essa corja logrou fazer filas monstruosas para um público de parcos 13 mil pagantes, como ocorreu no jogo do Fluminense, no Maracanã. Isso com nêgo pagando 100, 200, 300 mangos ou mais!

Maracanã que, registre-se, cumpriu com louvor a missão de fortalecer a identidade nacional em plena concordância com os moldes antropofágicos: como bom brasileiro, morreu antes do tempo, coitado, mas fez em vida o que lhe foi possível para honrar o espírito da miscigenação tupiniquim, reunindo ao redor daquele campo sagrado um rico, denso, democrático e representativo caldo de cultura brasileira.

Tomamos o que era dos gringos e fizemos um produto legítimo, com requintes de beleza, autenticidade e criatividade jamais vistas ou sequer imaginadas por outras nações – pelo POVO, e não pelo MARKETING, transformamos um esporte em arte, e as arquibancadas em Carnaval. Se o futebol carrega hoje o nome do Brasil nas costas, parte desse legado se deve à torcida brasileira, essência da identidade nacional. E vem então, de lá, a pilantrada do Rolex e da champagnota dizer que vai punir quem desse povo se aproximar? Que vai punir os jogadores e botar “armários de terno” para apartar? É isso mesmo, Lombardi? O que esses caras comem de manhã, afinal, cabe novamente perguntar.

Pois eu quero é que proíbam, mesmo! Que punam, mesmo! Que arranquem os cabelos esses canalhas de gravata, seus patrocinadores de merda e demais parasitas da paixão popular, pois assim é que os caras vão fazer “errado”, mesmo! Vão tirar a camisa e chorar, como o doce menino Bernard, mesmo! Que o expulsem de campo! Que se perca a invencibilidade no Horto! Foda-se, pois além de já haver levado a taça da Liberta, o que ficará para a história é a imagem de um moleque feliz e em Paz com sua massa. Infelizes são o juiz e sua comissão arbitral, com sua inflexibilidade moral.

E vão continuar a escalar o alambrado, como o Gordo Ronaldo. E vão subir a escadinha e se jogar no mar de gente, como já fizeram Fred, Elias ou Neymar. Que se foda o cartão dado pelo senhor de preto que, podendo ser revolucionário simplesmente por ter bom-senso, prefere a covardia da autoridade intransigente.

Na verdade, estamos loucos pra essa tal “COPA FIFA” (que no meu tempo se chamava Copa do Mundo) chegar aqui no Brasil. Que venham todos para curtir o valor dessa gente bronzeada e participar das manifestações. Mas que não se espantem com nossos grosseiros modos antropofágicos ou com nossas idiossincrasias quanto às orientações e demais exigências do Império. Afinal, se a FIFA vive se jactando de não haver imposto Mundial ao Brasil, é certo que ninguém por aqui pediu quaisquer das imposições que vieram a reboque.  Que não nos julguem ou se espantem, portanto, se um Dante encarnar Macunaíma em plena final de Copa, arriar o calção, dar as costas à  tribuna de honra e, como Seu Boneco, ir pra galera! Afinal, isso aqui-iô-iô é um pouquinho de Brasil iá-iá...

“Contra a realidade social, vestida e opressora, a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciária do matriarcado de Pindorama” – OSWALD DE ANDRADE



foto: joão sassi





Post Scriptum:

Parágrafo Primeiro: não será permitido ao scorer tacar longe o uniforme e correr alucinadamente com mensagens de amor escritas ao torcedor;

Inciso Um; a referida traquinagem será punida com cartão amarelo e deboche do narrador (mesmo que seja gol de título feito aos 49’ do segundo-tempo da final da Libertadores, na Bombonera).

Alínea única: Caso seja a partida de despedida do anotador, recomenda-se a expulsão do meliante e a execração pública.

Parágrafo Segundo: será terminantemente vetado ao scorer escalar o alambrado para saudar a massa insana.

Inciso Um: tal ato de vandalismo incorrerá em multa e espancamento sumário dos atletas envolvidos pelos agentes-FIFA presentes, estejam estes fardados ou infiltrados, à paisana.

Parágrafo Terceiro: proibir-se-á o acesso do scorer e de seus asseclas às escadinhas dispostas nas laterais do campo ou atrás das metas, com vistas a pular nos braços da galera, em júbilo e glória.

Inciso Primeiro: tornado crime hediondo, tal infâmia será passível de capação e venda imediata do referido atleta e de seus comparsas ao futebol chinês. Sorrir pode, mas, necessariamente, à inglesa.

Alínea Última: Após o tento, recomenda-se fazer o sinal da cruz e apontar os dedos para Deus-Todo-Poderoso ou para a marca do patrocinador exposta no uniforme, bem como em outdoors espalhados ao redor do campo. Fazer coraçãozinho com as mãos também pode, à exceção do Richarlyson.

domingo, 28 de abril de 2013

Maracanã: chucrute com banana


O índio e a influência européia: intercâmbio cultural?


O alemão Uli Stielike, campeão da Euro1980, declarou o seguinte em relação ao processo de modernização pelo qual atravessa a Deutsche Fußball Liga: - Nos inspiramos em outros modelos, mas sempre preservando a nossa identidade.

Leio com atenção suas palavras, pois atenção é coisa que não se dispensa quando se trata do povo alemão. Já escutei em algum lugar o João Ubaldo Ribeiro dizer que “o alemão é um povo doidão, mas uma doideira alemã”. Ao que me constava, eram organizados, eficientes e perfeccionistas, ao passo que agora descobrimos nós, os desavisados, que estão um passo adiante. Nas palavras de Jürgen Klopp, técnico do Borussia Dortmund, “os alemães não sabiam que poderiam ser tão despreocupados, felizes e alegres”.

Há relativamente pouco tempo, coisa de uma década atrás, era quase inimaginável ver um jogador preto trajando o branco imponente da outrora seleção ariana. Hoje, no entanto, as novas gerações assistem a isso como se sempre houvesse sido assim. Trata-se, porém, de um desfecho emblemático aos pretensos ideais de “pureza étnica” que tanta vergonha causou ao povo alemão e à humanidade, coisa de meio-século atrás. Se verdadeira a afirmação de Darcy Ribeiro que a miscigenação brasileira nos preconiza como ‘o país do futuro’, então os alemães, sempre eficientes, já se tocaram disso e começaram a misturar sua gente. Já o brasileiro, velhaco que é, copia o alemão, à sua maneira, claro. Importamos a estética, importamos os custos e o “modelo”, mas deixamos nossa cultura de lado. Talvez porque esse papo de cultura seja coisa de país subdesenvolvido, nativo preguiçoso e vagabundo. Chique mesmo é copiar o colonizador.

Enquanto o alemão importa nossa morenice e desendurece sua cintura a cada geração, importamos conceitos comportamentais, econômicos e arquitetônicos, sempre à nossa moda. Enquanto eles enchem os estádios de ambiente familiar a preços módicos e futebol total, nós destruímos nossa memória erguendo inconseqüentemente templos de consumo destinados a uma nova e seleta categoria de torcedores.

Durante os últimos anos, os menos importantes dos torcedores – aqueles que se tornaram anacrônicos às pretensões empresariais de seus clubes – reclamaram e protestaram contra a forma como os estádios se modernizavam: marquises, dimensões históricas, anéis superiores, túneis, nomes (!), arquibancadas, e até traves e redes, em suma, toda a tradição, a história e a identidade dos estádios brasileiros foram impiedosamente postas abaixo, de modo que até mesmo a simples denominação foi alterada, pois de estádios passamos a ter de aceitar a onipresença do aburguesado conceito de “arenas multiuso”; centros de compras tão grandes que comportam, inclusive, um campo de futebol. Em meio ao jogo de bola e à paixão do torcedor interpôs-se o lucro como primazia, e a relação entre o campo e as arquibancadas, antes direta e informal, será doravante mediada por rituais de consumo automatizados.

Não faz muito (2005) e nos despedíamos da Geral, mero conceito de um espaço que, por si só, revelava a natureza e a universalidade da alma brasileira. Para, contudo, mostrar ao mundo o valor dessa nossa gente bronzeada, acabaram com o espaço por ela majoritária e historicamente ocupado. Foi-se a democracia étnica e social, acabou-se a mistura e a loucura geral... Agora o senhorio europeu podia até vir aqui, ver como sabemos nos comportar bem.

Mas ainda assim, restava muita gente, muito povo – essa gente insistente – ocupando os espaços públicos, atravancando o progresso da nação. Tinha até índio na parada! Melhor destruir a pôrra toda, pois não foi assim que espanhóis e portugueses conquistaram a América Latina, mais de 500 anos atrás? Deve ser um bom plano: - “Porrada nos índios e põe o resto abaixo!”, anunciou Cabral, que não o Pedro.

Sinhozinho Dotô Ricardo já tinha revelado, em tom diabólico, lá pelos idos dos anos 90, que se o Brasil quisesse um dia sediar novamente a Copa, só pondo abaixo o Maracanã... –, o que soou tão despropositado e bizarro aos ouvidos dos jurássicos torcedores de então que muito não se fez contra o impropério, senão desejar uma lenta e dolorosa morte ao seu autor, preferencialmente por empalamento. Teixeirowski apenas sorriu, esfregando sadicamente as mãos; sua vingança seria malígrina...

Então, assim, entre uma reforma e uma mentira, uma fila e um cambista, uma caceteada e um gás de pimenta nos olhos (que, sendo os alheios, é refresco para a nata carioca) os estádios foram todos postos abaixo. Uma canetada aqui e um aperto de mão ali e pronto, o Brasil está no mesmo patamar que o mundo desenvolvido! A custos astrolábicos, obtivemos nosso passaporte para adentrar a civilização com bola e tudo, metendo cafuzas e fulecos por sob as caxirolas alheias. As mulatas sambando e os contumazes shows artificiais de breguice latina vêm a reboque, como se quem os organizasse não fosse um profissional brasileiro, e sim o dono do bordel freqüentado por Mr. Teixeiraaaaaaa, na Flórida.

Que a Copa não era ‘do’ Brasil, e sim da FIFA, já sabíamos, mas que a Copa fosse ‘no’, Brasil, quanto a isso não tínhamos dúvidas, o que ao menos nos servia como alento e consolo. Mas quem se aventurar (e conseguir) assistir a um jogo da Copa, poderá pensar que se está em um lugar qualquer (Guaporé?), que não o Brasil. O primeiro desafio será descobrir o estádio, já que, por dentro, todos parecem exatamente iguais. À primeira vista, não consegui distinguir o Castelão da Fonte Nova ou o Mineirão do Maracanã. São todos insípidos, inodoros e incolores, e seguem o mesmo e monótono padrão.

Olhando à sua volta, o infeliz logo cedo irá atinar para a frieza do local e para o esquema de segurança de primeiro mundo, com homens uniformizados e roboticamente disciplinados, e ficará impressionado com o sistema de luzes e de som, com a qualidade dos telões e do gramado (será mesmo?), bem como com a limpeza das áreas de acesso e com o asseio dos banheiros, e também com a pequena distância do seu assento em relação ao campo.

Por outro lado, não haverá mais tanta gente queimada de sol ao seu lado, nem acima ou abaixo. Não haverá tantos desdentados sorrindo e cuspindo perdigotos sobre sua cabeça. Nem suor, vibração, saco de mijo ou excesso de emoção. Nada próximo de folclore ou tradição. Não vai encontrar acarajé ou feijão-tropeiro, mas certamente poderá saborear um Bic Mac. Notará decerto que o comportamento do torcedor não é mais espontâneo, mas padronizado, observado e monitorado. É todo mundo comportado.

Isso talvez o deixe satisfeito e orgulhoso de ser brasileiro e “civilizado”, ainda que, nesse caso, o gentílico já não carregue a mesma essência e significado dos tempos de Garrincha, Pelé ou Zico, e não expresse mais nossa identidade – aquilo que nos diferenciava e fazia de nós um povo original, invejado e admirado pelos demais. Mas isso é coisa de gente nostálgica, dos tais saudosistas; daquela gente ultrapassada que não se esquece do tempo em que éramos apenas despreocupados, felizes e alegres...


foto: joão sassi
sobre grafite de rua SP
autor desconhecido

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A Bola nos Tempos de Outrora


O Mané Garrincha fugirá às suas tradições para receber "torcedor de elite".




Todo menino é um rei. Eu também já fui rei, e como tal, achava que tudo aquilo que havia acontecido antes do meu nascimento fosse algo muito distante de mim. Na infância, o tempo é abstrato.

Naquela época meu pai costumava falar muito da seleção brasileira, então tricampeã mundial. Aos dez anos de idade, eu já tinha alguma intimidade com os scratches de 58, de 62 e de 70. Sabia quem eram, por exemplo, o Príncipe Etíope, a Enciclopédia, o Peito-de-Aço, o Possesso, bem como o Canhotinha-de-Ouro, o Capita, a Patada Atômica e, claro, o Furacão da Copa. Sabia até mesmo que Brito, o beque-central, era o melhor preparo físico daquele time tricampeão.

A consagração no México havia ocorrido há pouco mais de uma década, ainda que no meu raciocínio infantil a magistral campanha do tri fosse coisa de muito tempo atrás. Minha única ligação com aquele espaço-tempo era, pasmem, o Rei Pelé, pelo simples fato de havê-lo visto jogar pelo Flamengo, num amistoso contra o Galo; o que nem de longe me credenciava a pensar na seleção de 70 como uma coisa próxima ao meu tempo. A TV era P&B, a antena não funcionava e eu contava somente quatro anos, mas Pelé é Pelé, e disso ninguém esquece.

Foram, entretanto, tantos e tão ricos os detalhes e informações que me foram sendo carinhosamente legados e transmitidos ao longo da infância, que sou capaz de sentir a nostalgia que meu pai um dia sentiu. É o que acaba de ocorrer, há pouco, quando assisti, pela enésima vez, ao documentário “Isto é Pelé”.

A locução grave, com caráter de história oficial, o som ambiente dos estádios ou mesmo a ausência total de ruídos em alguns gols exibidos conduzem o telespectador àquele tempo que já passou. Tempo este em que os jogadores se abraçavam desprovidos de vaidade ou malícia marqueteira, quando ainda não havia telões ou câmeras para se buscar na hora do gol (à época, um gozo coletivo). Nesse tempo, as camisas eram de algodão e as traves de madeira, quadradas. Foi um tempo em que se chorava após uma grande conquista ou grande feito alcançado – a alegria surgia antes dos dividendos, pois a seleção era formada por pessoas comuns, à feição dos que por ela torciam. Nem a ditadura conseguiu fazê-la menos brasileira.

Foi um tempo em que as emoções afloravam espontaneamente, e que teve seu ápice na participação massiva da torcida no desfecho daquela Copa, que abraçou (literalmente) o time canarinho na grande final, naquilo que se configurou numa das mais espetaculares demonstrações de afeto a uma equipe de futebol – e nem brasileiros eles eram! As bandeiras, os rojões, a chuva de papel picado e o público eufórico invadindo o campo fizeram daquela celebração uma das mais tocantes já vistas no esporte mundial, tornando o Estádio Azteca um lugar sagrado para nosso futebol. As cenas são de arrepiar os cabelos do careca.

Nos dias de hoje, mais de quatro décadas após a consagração da seleção nos gramados mexicanos, tenho para mim que esse tempo não está tão distante assim. Na verdade, ele está bem mais próximo agora do que no meu tempo de criança. Talvez porque a contemporaneidade seja palco de uma humanidade obcecada pela futilidade da vida e pelo profissionalismo dos negócios. Talvez porque, por conta disso, os jogadores tenham desaprendido a brincar de bola sem que tenham, de fato, aprendido a jogar futebol.

Trata-se de um universo diferente, formatado cotidianamente pela mídia, e não mais ancorado na tradição oral, passada de pai para filho (quando pais e filhos ainda conversavam). Nesse mundo novo, os estádios de futebol e toda a cultura local ali existente foram desintegrados, dando lugar a shoppings que, sabe-se lá por que razão, são chamados de “arenas”. Os torcedores que ali festejavam, por sua vez, foram banidos e substituídos por consumidores.

No mundo de hoje, enfim, o povo não recebe convite para a festa que ele mesmo criou. Deu lugar a torcedores europeizados que seriam mais civilizados por torcerem sentados e não se mexerem muito nas arquibancadas, além, é claro, de comprarem produtos oficiais da sua “empresa do coração”. Nesse mundo tão comportado e organizado, o tradicional modo de torcer tornou-se obsoleto. Nele, a paixão do torcedor é quantificada pelo poder de consumo daquele que a proclama.

Esses sentimentos contraditórios e melancólicos me fizeram recordar que há tempos não converso sobre a seleção com meu pai. Fico triste, principalmente por ser seu aniversário, dia de comemoração.

Sinto, porém, que nosso tempo já tenha realmente passado, e que hoje não sejamos mais do que dinossauros à espera da extinção. Lá se foi o tempo da bola, levando consigo os belos tempos de outrora. Mesmo assim, feliz aniversário, pai.


foto: joão sassi


terça-feira, 27 de novembro de 2012

Pontos Escorridos

Receber a taça na festa da CBF, com direito a torcida fake; pode isso, Arnaldo?

Ouço dizer por aí que o atual sistema de disputa do campeonato brasileiro é o mesmo sistema em voga na Europa, que recompensa o time mais equilibrado, consistente e regular – não o eventualmente brilhante ou aquele por vezes espetacular, mas o mais regular. E escuto, acima de tudo, que é o sistema mais justo, os tais pontos corridos.  Reflitamos sobre o que se segue.


Já se imaginou, entusiasmado torcedor, curtindo um filminho em casa com sua mina, naquela agradável tarde de outono, no maior dengo, e receber um telefonema do seu amigo Kabessão, informando que seu time é campeão nacional, sendo que ele nem estava jogando?


Ou então você, eufórico jogador, minutos após o fim do jogo, depois de marcar dois gols e vencer a partida, ter de perguntar a um jornalista na beira do gramado se seu time já é campeão? Patético, não?


Pois de acordo com a moda vigente, essas e outras excrescências são apenas parte das novas regras do jogo. Um jogo indissociavelmente atrelado à cultura brasileira, mas que se distancia paulatinamente de suas próprias raízes.


No ano passado, após a vitória do Corinthians na penúltima rodada, o locutor Cléber Machado saiu-se com esta: “...E aqui, uma cena curiosa: jogadores e torcedores (corintianos) permanecem no campo e no estádio, aguardando o final do jogo do Vasco, no Rio, para ver se são campeões ainda hoje...”. Ainda hoje?! Não sei, não, amigos, mas essa coisa de um acontecimento aqui determinar os acontecimentos dacolá não me parecem bem resolvidas, ainda que pretensamente “justas”.


Diga aí o fidalgo torcedor que quando pequenino foi levado pelas mãos do pai a um estádio de futebol pela primeira vez na vida; prometeu-lhe então o velho, justiça ou emoção?


E nós, brasileiros, apaixonados pelo esporte, tido como adoradores e uma espécie de re-criadores futebol, o que queremos ao torcer pelo nosso time? Deitar serenamente a cabeça sobre o travesseiro, conformando-se com o resultado do prelo (“foi justo”) ou ir para o bar encher a cara e xingar o juiz de safado, ladrão e desgraçado porque não deu mais do que três minutos de acréscimo (“filadaputa!”)? Ganhar uma final ou ser campeão com quatro rodadas de antecedência? O que tem mais a ver com a essência daquilo que efetivamente nos constitui como brasileiros?


Não, amigo leitor, não se trata de mera divagação. Estou falando de cultura e me referindo àquilo que fazemos com o que foi feito da gente; que nos constitui e é, por nós, reciprocamente constituído. Estou falando do que está onde deveria estar no cosmos interior de cada um de nós. Algo que, em cada povo, em cada sociedade, adquire um sentido todo próprio; um simbolismo que nos identifica e representa aos olhos do outro, e aos nossos também.


A defesa da honra, por exemplo, é uma característica nobre do povo japonês e que o identifica mundo afora. Conosco, inversamente, é o jeitinho brasileiro que nos dá cara por aí. São, enfim, características simbólicas de dois povos distintos, frutos do meio em que habitam, da história que escreveram e da contemporaneidade.


Certa vez, fiquei pasmo ao ver um turista japonês comendo uma alga marinha colhida num deque, em Veneza. O cidadão fez que ia e eu pensei “ele não vai fazer isso”; ele fez: desceu umas escadinhas, ajeitou a câmera fotográfica de lado, agachou-se à beira d’água, encheu a mão com uma coisa verde e “gloc”, virou garganta adentro. Como devia estar banhada a óleo diesel, o japa fez uma cara horrível. Tirante a poluição do mar na área do cais, não haveria para ele qualquer razão para estranhamento. É tudo uma questão de diferença cultural.


Essas historinhas me vêm à mente à medida que tento compreender o porquê de se insistir tanto em aplicar este conceito – o de justiça - que, conquanto seja bem-vindo, não é o propósito da nossa investida. Há total coerência nos argumentos daqueles que dele se utilizam para defender o sistema de pontos corridos, isso não nego, mas como levá-los em conta se a ótica sob a qual discuto o futebol é completamente outra?


A disputa, nesse caso, não é buscar pelo que é mais justo, mas pelo que é mais adequado aos nossos anseios enquanto torcedor. Eu não consigo travar um diálogo abordando o assunto como se fôssemos parte de um júri, e não de uma torcida – a diferença é grande. Não o fosse, não haveria prêmio da crítica e prêmio do público, posto que este seja produto da emoção, enquanto que aquele adquire autoridade por advir da razão.


Um exemplo do mencionado distanciamento entre o futebol de hoje e nossas raízes culturais pode ser visto na padronização daquilo que a FIFA chama “fan” (torcedor). Não dá para uma empresa impor seu modo de assistir e torcer nos estádios simplesmente porque uma classe de babacas acha que só há civilidade no Velho Mundo. Desconhecem a riqueza das culturas periféricas que já se foram e se vão, ainda hoje, ao sabor do mercado global, compreendidas agora como parte da engrenagem de um sistema que só os reconhece na condição de consumidores. Somos a pilha da Matrix.


Quem, em sã consciência futebolística, poderia, por exemplo, imaginar a Copa de 78, na Argentina, sem aquelas verdadeiras tempestades de papel picado nas arquibancadas? Ou o Maracanã lotado, mas sem bandeiras, tambores, foguetes, fumaça e os papeis higiênicos em cascata, quando em seus tempos áureos? Ou sem a geral? O que querem os gringos, afinal? Que passemos a aplaudir as jogadas, sentadinhos, ao estilo dos europeus? E que façamos, uh, oh, ahhh, como se compuséssemos a platéia de um anfiteatro grego? Não é o caso. Não é esse o nosso papel.


Somos aquela gente mestiça, misturada e mal-vestida que habita os trópicos. Fazemos parte de uma Nação que se constituiu tropegamente, ao ritmo das investidas imperialistas e da falta de amor pátrio de nossos governantes, mas que mesmo assim enxerga a vida como um delírio a ser usufruído continuamente em forma de cores, músicas e contato físico. Precisamos das festas populares e de nossas tradições para ratificar tal condição. Por isso o Carnaval e o futebol nos são tão caros e representativos.


Os exemplos para reflexão contidos no início do texto são reais. O primeiro se deu em 2009, quando o torcedor do Barcelona, que só jogaria dali a dois dias, viu seu time se tornar campeão sem entrar em campo, por conta da derrota do Real Madrid, no sábado (leia a matéria). O outro caso se deu este ano, com o atacante Fred, do Fluminense, logo após a vitória sobre o Parmêra; o artilheiro come-quieto só gritou “é campeão!” após alguém da imprensa autorizá-lo: “Nenhum dos jogadores sabia que era campeão até os jornalistas confirmarem, Galvão!” – informou o eficiente repórter da Rede Globo, como se o fato fosse mais engraçado que ridículo. Isso para não falar do Corinthians, campeão em 2005 jogando fora de casa e perdendo pro Goiás – nada mais anticlímax. Levou a taça por conta da derrota do Inter, segundo colocado.


Enfim, acredito na beleza de uma decisão de campeonato com todos os perigos e percalços inerentes a ela, com toda a expectativa que se cria em torno a uma grande final. Mesmo com inferioridade de um dos oponentes, em piores condições na tabela ou no campo que o adversário, o que, em caso de vitória, contribui para expurgar o complexo de vira-latas que habita cada coração brasileiro. Eu acredito na presença de duas torcidas eufóricas, provocando e aguçando a rivalidade sadia que faz de todos nós irmãos de fé, fiéis de uma mesma religião chamada futebol.


Gosto da disputa que dá frio na barriga, do olhar nervoso para o relógio, do alívio pela bicuda do zagueiro, do grito contido pela cabeçada perigosa do artilheiro ou da redenção pela espetacular defesa do arqueiro. Gosto da tristeza momentânea que, entre cantos e cânticos, torna-se pranto. Que vira apreensão, gol, estrondo, vibração.


Quero ver meu time campeão dentro de campo, dando a volta olímpica, recebendo a taça e celebrando no estádio, com a torcida presente, em festa, carnavalescamente, conforme manda meu imaginário e em estrita concordância com aquilo que reza e preza a cultura do meu país. E sair dali em direção ao infinito, sabendo que o campeonato acabou, e que temos novos heróis e novos vilões, sem essa de “ainda há muita coisa em jogo”; acabou, acabou!


Nosso improviso e espontaneidade não comportam a frieza dos protocolos ou a empáfia dos justos. A cada ano, a cada final sem final, a cada ritual abortado, a cultura brasileira é, sem dúvida, a grande derrotada.