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sexta-feira, 24 de julho de 2020

Deus no Céu e Jesus na Terra




Quando se anunciou que Jorge Jesus seria o técnico do Mengão, foi o mesmo que nada; jamais ouvira falar. Porém, mesmo desconhecido, nada parecia pior que o time do Abelão, o que levou descrentes e ateus como eu a aceitar Jesus no coração.

O gajo, com ares soturnos de verdugo pinçado das masmorras de um conto medieval, chegou contestando a docilidade com que o adepto rubro-negro se deixava entorpecer pelos ‘deuses de 81’, entregando-se passivamente aos júbilos da Era Zico, ao passo que os caminhos rumo ao Olimpo se esfacelavam no esquecimento. Com um agravante: o Flamengo se contentava com uma única Liberta e um único Mundial, com a magnética passando pano e cantando que há quarenta anos botara o Liverpool na roda! Quarenta anos, galera!

Se estacionados em andaimes rebaixados desde o baile no time dos Beatles, subestimávamos clubes tal qual o paraguaio Olímpia (campeão mundial e tri da Liberta), é forçoso admitir que os tubarões do pedaço esfregassem as mãos nos confrontos de mata-mata; “Uêba! El Mengón és papa-frita!”, deleitavam-se, bem como as piabas continentais como o América (MEX) ou o Defensor (URU). Éramos do nível de um Argentino Jrs., de uma LDU, um Colo-colo, um Vasco da Gama(!!!) em termos de conquistas extraterritoriais, ó, pá.

Isso até a chegada do portuga, com sua cara de manga chupada e olhar de conquistador ultramarino. “Tá mal, Arão!”, já no primeiro treino. “Esse é dos nossos”, pensou geral. Não era. Os “nossos” ficaram todos pelo caminho, à exceção de um ou dois. Muito pouco. “Lutem para que nestas paredes estejam estampados vossos rostos na próxima época”, bradou o Odair José lusitano, chocando o Ninho do Urubu e questionando a devoção improdutiva ao passado, quebrando o encantamento letárgico que se abatera sobre nós desde os 3x0 no Santos, em 83, e, principalmente, extraindo o jogador do flamengo de sua eterna zona de conforto ao defenestrar o raciocínio terceiro-mundista de que “aqui é Mengão, o time do Zico” resolveria alguma coisa – quando, em verdade, o manto sagrado há muito deixara de se impor aos adversários como uma bastilha inexpugnável, senão o contrário; a mítica 10 do Galinho, símbolo máximo do apogeu rubro-negro, agonizava, vilipendiada por Mugnis, Minhocas, Carlos Eduardos e que tais.

E vieram os empolgantes 6x1 sobre o Goiás: meu irmãããããããão, há quanto tempo que tu não via o Flamengo fazer tanto gol, sem tirar o pé, e com tanta qualidade (alguém falou em 81?)? Quem viu, sabe; foi como nascer de novo! Era aquele o ‘time de índios’ que o Abelão rechaçava? Então me dá meu apito que já tô dando entrada na minha cidadania pindoramense! Após a peleja, os mais atentos haveriam de ter notado que nosso Roberto Carlos ibérico era o melhor cacique que a tribo da Gávea poderia ter. Um sonho inesperado, como um beijo do nada surgido de um fado sofrido, para em seguida nos apaixonarmos por aquele fiapo de homem algo bronco, mas terno, que até I LOVE YOU em libras sabia dizer! Olêêêêê-olê-olê-olêêê, mister, mister!!!

E vieram batalhas épicas, sendo desta feita o conquistador português um aliado, e subitamente não éramos mais nós a temer as invasões bárbaras vexatoriamente freqüentes no solo sagrado do Maracanã, mas muitas das outrora temidas etnias é que agora batiam em retirada, atordoadas, engolindo cuspes e palavras, no desespero de salvarem escalpos, filhos e vergonhas, à medida que um sentimento de confiança extrema ganhava materialidade dentro de cada indivíduo de vermelho e preto - e já não era mais o caso de ‘se’ venceríamos, mas de ‘por quanto’ venceríamos.

Nós, com menos de 60 anos, muito ouvíramos sobre um tal futebol total – será que era disso que falavam? Porque eu nunca tinha visto coisa igual. Nem tamanha simbiose entre jogadores, comissão técnica e torcida – a diretoria, embora eficiente, deixo de fora desse caldo saboroso porque é escrota (Garotos do Ninho?) e neofascista (Bozo?). E assim, taças, troféus, títulos e recordes se amontoaram durante o tempo exato em que nossa fatigada Mãe-Terra deu uma volta completa em torno ao Astro-Rei; mais canecos que derrotas. Assombroso.

Torcer pelo Flamengo, como disse o Juca Kfouri, passou a ser sinônimo de torcer pelo bom futebol. Línguas deletérias, críticas e detratoras silenciaram, sobrando uns poucos recalcados a não reconhecerem que o futebol brasileiro havia mudado, ou, como brilhantemente definiu o renomado e célebre pensador afro-americano contemporâneo Bruno Henrique, havia atingido “ôto patamá”. Rivais passaram a celebrar como um título empates arrancados ao esquadrão flamenguista. Técnicos adversários caíam como uva (essa é uma homenagem ao Queiroz) e cânones eram reduzidos a pó enquanto vacas sagradas se viam condenadas a pastar em público. A cidade, o país e o continente foram conquistados, mas o comandante ambicionava o mundo. Falhou na primeira tentativa, mas o roteiro já estava pronto para 2020: campeão da Copa do Brasil, barreira dos 100 pontos quebrada no Brasileirão, tri da Liberta no Maraca e vitória sobre os Reds no Mundial, again, com novo baile. Aí o Jesus seria contratado pelo, vá lá, Barcelona, o Gallardo o substituiria e todo mundo viveria feliz para sempre.

De repente, como no sonho pornográfico que sempre acaba quando a bola está quicando na frente do gol, o torcedor acordou. E também ele, que nunca havia sido tão feliz na vida; “estava no Paraíso e tive de decidir”. Covid, solidão, família, saudades da terrinha seriam suas justas razões, e quaisquer que tenham sido, haveriam de ser sumariamente aceitas e respeitadas. Seu choro nos braços de Rafinha e Éverton Ribeiro, na despedida, é revelador; ele sabe que jamais encontrará torcida como a do Flamengo, ou atmosfera como a do Maracanã. Aliás, ele logo descobrirá que, por lá, “mister” é protocolo, enquanto no Brasil se tornara marca registrada. Obrigado, Mister.

sábado, 23 de novembro de 2019

Os Libertadores da América


    
Os conquistadores alinhados; há que sobrepujá-los para chegar ao Olimpo.

    Copa Libertadores da América – a "glória eterna" almejada por dez em cada dez equipes sul-americanas. É a maior conquista regional que se pode alcançar. Há outras copas por aí até mais importantes, seja pela qualidade dos participantes, seja pelos cifrões envolvidos na contenda, tais como a Copa do Mundo da FIFA ou a Copa dos Campeões da Europa (atual Champions League), mas nenhuma delas possui o etos libertário que nosso torneio apresenta, como enseja a própria nomenclatura: “Libertadores da América”!

    Talvez, o caráter nebulosamente amador que imperou até meados dos anos 90, recheado de doping, violência em campo e pressão anti-desportiva extra-campo, tenha empregado uma carga extra de heroísmo às conquistas da Liberta, cuja imagem mais emblemática, para mim, é a do uruguaio Hugo de León, capitão gremista em 83, erguendo a taça, com sangue escorrendo pelo rosto, como um boxer.  A cena não deixa dúvidas quanto ao estoicismo e à superação envolvidos na árdua caminhada até a vitória. O vencedor simbolicamente extirpa o mal presente em nosso continente, reconquistando a América, tal como fizeram os homenageados pelo torneio, que um dia se sublevaram da condição de conquistados para derrotar seus opressores. 

    Hoje o Flamengo encarna a figura do cativo rebelde. Cativo porque configurado por uma imensa Nação de torcedores - em sua maioria pretos, pardos e desfavorecidos - ainda hoje exterminados pelos conquistadores em batalhas cotidianas desiguais.  Calhou do oponente, o River Plate (los millonarios), espelhar imagem oposta; elitista e alva, como o uniforme  A equipe carioca é urubu, enquanto a portenha, gallina (blanquita, por supuesto). E se o Boca é a argentina autóctone, travestida em Don Diego, o River é um principado, com Enzo Francescoli representando aquela parcela cisplatina que se julga européia, embora tenha nascido no ‘continente errado’.

    Passados alguns séculos, a América Latina encontra-se sob considerável jugo imperialista, num anacronismo indesejável para os povos daqui. A Região está em ebulição. Os conquistadores contemporâneos, também brancos, loiros e autoritários, novamente tramam contra a existência das populações que ostentem tonalidades de pele diferentes das suas, e novamente apelam a um deus cristão e às armas para fazê-lo. O genocídio é declarado em documentos oficiais que autorizam os agentes do Estado a matarem, indiscriminadamente, como no tempo das caravelas. 

    Não há, pois, como dissociar a batalha campal de Lima, logo mais, da realidade dessas pessoas que, no mesmo instante, estarão pelas ruas da Bolívia, do Chile, do Equador, da Colômbia e, logo, do Brasil, lutando e morrendo pela autonomia de suas respectivas nações. Não se pode esquecer o porquê da taça levar este nome que, em última instância, é o porquê da independência conquistada por vários países sul-americanos.

    Que o Flamengo, hoje, se livre de alguns tentáculos reacionários que por ora o adornam, e assuma sua condição de legítimo representante do povo latino-americano, libertando-o do sofrimento que já dura quase 40 anos! Que o Flamengo encarne Bolívar, Martín, Guevara, Bonifácio, como também Zapata, Sandino e Zumbi (!), e tantos outros! Este Flamengo, imenso e multicultural, que desperta o interesse do próprio ‘conquistador’ ao ser televisionado para vários países do Velho Continente que verão a final da Liberta pela primeira vez em canal aberto; este Flamengo que deve tudo o que tem às arquibancadas e às gerais do antigo Maracanã, aos desdentados; este Flamengo que alenta a tragédia diária promovendo festas nas favelas; é este o Flamengo que queremos ver em campo. Que nossos jogadores tenham a consciência da grandiosidade de sua missão, pois agora seremos nós a conquistar as Américas e, depois, o mundo. Seu povo pede de novo...
   

imagem e edição: joão sassi

domingo, 27 de outubro de 2019

Torcedor do Flamengo: A Felicidade Existe?

Galera reunida após longo e tenebroso inverso; futebol é união.

    Foi como o amor: não se sabe muito bem como se deu ao certo, embora se bem saiba agora que muito certo se deu. As mais belas projeções não seriam capazes de predizer o que sente um adepto rubro-negro no atual estágio da temporada; tão ou mais feliz que um adolescente defronte o espelho se arrumando para ir passar uns dias enfurnado na casa da namorada cujos pais pegaram o último avião para o Nepal – sentiram a intensidade da emoção?

    Se o Mourinho fosse o portuga escolhido, haveria festa e a magnética se daria por satisfeita em ganhar o Brasileirão do Parmêra, na rodada derradeira, por um ponto, e chegar à final da Liberta, ainda que sem favoritismo, tendo ganhado muitas partidas por 1x0, sem encantar. Caso fosse El Cholo Simeone, idem. Com o Guardiola ou o Klopp (meu sonho de consumo), as expectativas cresceriam quanto aos placares e quanto ao ‘jogo bonito’, embora sem a projeção de um time tão aniquilador e encantador (afinal, o Fla não é o Barça ou o Liverpool). Mas quando se anunciou Jorgito Jesus Christ no comando, no que teriam pensado os torcedores do Flamengo? Eu mesmo pensei pitufas, senão um ‘Glória a Deux; melhor que o Abelão ele deve ser!’, pois não tinha a menor idéia de quem era ou do que ele poderia fazer pelo Mengão. Cheguei mesmo a suspeitar que pudesse ser uma barca furada, como foram as naus portuguesas que por estas paragens abarcaram em tempos recentes.

    Mas Jesus veio e, em parcos quatro meses (o que são quatro meses, galera?), transformou a rala e salobra água rubro-negra em denso e inebriante vinho do Porto, doutrinando jogadores, multiplicando gols, recordes e vitórias, convertendo jornalistas e santificando antigos pecadores aos olhos de devotos torcedores. Sabíamos que tínhamos potencial para produzir algo de qualidade, muito embora fosse imperioso admitir que nem mesmo a hiperbólica percepção de um Nelson Rodrigues colocaria o Flamengo nos píncaros do ludopédio continental em que ora se encontra.

    Há quanto tempo você, torcedor de qualquer clube, não tem a escalação de seu time na ponta da língua? Vou além; qual a escalação de seu time quando do último título conquistado? Qual foi a última vez que seu time ‘fez história’ ou ‘marcou época’? Admitamos: a maioria nem sabe o que é isso, pois conta-se nos dedos de uma mão as esquadras que atingiram esse patamar nos últimos 150 anos de futebol jogado em solo tupiniquim. Só Santos e o São Paulo chegaram lá, além de nós.

    Entenda-se ‘chegar lá’ por dominar a cidade, o país, o continente e o mundo, colocando na roda os campeões da Champions, na final do Interclubes (atual Mundial de Clubes), como fizeram Pelé com o Benfica e Telê Santana com o Barça e o Milan. O Flamengo de Zico completa essa tríade; fomos os fodões do Bairro do Peixoto... 38 anos atrás! De lá para cá, sequer uma final continental voltamos a disputar, ao contrário dos dois paulistas, que voltaram e conquistaram novamente a Liberta, mesmo sem esquadrões foras-de-série como os de outrora. Isso nos coloca como um clube mediano no imaginário do torcedor, mundo afora. Quando não, totalmente insignificante – apesar do Zico!

   "Somos um Argentinos Juniors da vida; ninguém bota fé, fora os próprios torcedores, os iludidos assumidos."


    ‘Descobri’ isso num taller de periodismo entre jornalistas latino-americanos, em Cuba, em 2001 - portanto duas décadas após o baile em Tóquio. Ostentando o Manto Sagrado pelo salão, percebi que não causava qualquer sensação. Um equatoriano até sabia quem tinha sido o ‘Grande Zico’, mas não o Flamengo. Foi quando caiu a ficha de que meu Mengão fuderosão tricampeão (o Pet havia marcado o gol de falta naquela semana) não tinha qualquer representatividade ou reconhecimento no continente americano. Ou você, querido flamenguista, reconheceria o Argentinos Juniors como potência futebolística? Por que não? Os caras também foram campeões da Liberta na primeira participação deles (1985) e produziram um gênio da raça (Maradona), enquanto nós fizemos o mesmo em 1981 e revelamos o Zico. Sacaram? Somos um Argentinos Juniors da vida; ninguém bota fé, fora os próprios torcedores, os iludidos assumidos. Tudo bem que ganhamos umas copinhas do Brasil lá e cá, e outros tantos brasileirões aqui e acolá, mas e daí? Quem liga? Pior: chegando a algumas decisões como azarão (1992 e 2009)! São conquistas gostosas, mas pontuais; aliás, foras da curva (e nossa curva tende à mediocridade).

    Jorge Jesus está mudando isso. Hoje o nome do Flamengo corre pelos sete mares do Planeta. Ganhando a Libertadores e, sim, o Mundial, na negra do Liverpool, teremos assegurada nossa volta ao Olimpo, o que não estaria garantido somente pelas conquistas, senão pela forma encantadora como joga nosso time.

    O flamenguista, sem perceber, está finalmente se divorciando do paradigma de 81, ano do futebol-total, como quem deixa finalmente de pensar num antigo romance, seja por obra do tempo, seja pela aparição de um novo amor. Hoje, o flamenguista é aquele sujeito feliz e apaixonado, tal qual o adolescente do início do texto, mas não somente por estar próximo à consagração total, ou por ter sua paixão plenamente correspondida, senão por saber que ela, a paixão, pulsa em mais de quarenta milhões de corações, além de outros milhares, recém-convertidos, que têm se deixado encantar pela apoteose do Mais Querido. Como nos ensinou o jovem libertário estadunidense Cristopher McCandless - inspiração para o célebre livro ‘Na Natureza Selvagem’, de Jon Krakauer -: “a felicidade só existe quando é compartilhada”.

    Oh, meu Mengão, eu gosto de você; quero cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro-negro...

sábado, 19 de novembro de 2016

Perdoe, Dr. Roberto... (mas nosso Flamengo não será campeão)

Esse rubro-negrinho prefere bater uma bola a acompanhar os jogos do Flamengo pela TV

    Não me lembro de haver assistido a qualquer coisa tão maçante em muitas décadas de futebol. Os 40’ que desperdicei defronte a TV foram tão desagradáveis quanto o slogan que alardeia o “cheirinho de hepta”. Difícil crer que as pessoas paguem o PREMIÈRE para ver isso.

    Para início de análise, além de um corte de cabelo padronizado e de propalada fé do Senhor Jesus Cristinho, o que o time do Flamengo tem para mostrar? Pose de estátua? Ou total falta de capacidade para ser campeão? O Flamengo não merecer vencer.

    Quando liguei a televisão, o oriundi Leo Batista já estava apresentando os melhores momentos do 1º tempo que, ressalte-se, pareceram-me muito melhores ao último colocado do Brasileirão do que à equipe que almeja a consagração. Porque se o objetivo do time era entrar em campo com a faca entre os dentes e passar o rodo geral, então eu não entendi nada quando nosso técnico gritava, insistentemente, “paciência!” aos jogadores que deixavam o vestiário, rumo ao 2º tempo. Paciência?! Só se for ao torcedor, né, Zé? Pois quem perdeu dois ou três gols feitos foi o América, enquanto o nosso foi na cagada, né? Assim como foi cagada o atacante americano dar uma ombrada, já na segunda etapa, tornando possível ao nosso engomado goal-keeper praticar uma defesa decerto impossível, caso cabeçada fosse.

    Falando em segunda etapa, avanti, se é para isso que aqui estamos! Que coisa medonha... A começar pelos uniformes. O do Coelho, cuja mistura de cores agrada no original, agora foi transformado em penteadeira de puta, sendo que na penteadeira você dá uma arrumada, mas a camisa, só queimando e se esquecendo da fórmula para nunca mais repetir. Quanto ao do Mengo, é verdadeiramente astucioso como conseguiram embagulhar o clássico manto do Mundial de 81! Pô, Adidas! Pô, diretoria! Tanto o design modernoso-academia não combina com o traço rubro-negro, como um logotipo azul e laranja jamais combinará com qualquer camisa do Fla, em qualquer época – quiçá com a “Tabajara”. O patrocinador fica tão em evidência com suas letras garrafais e pesadas que toda vez que o time entra em campo eu me confundo, achando que é o time da CAIXA...

    Voltando ao suplício, e me desculpem o tom modorrento, mas que desagradável... Enquanto os mineiros atacavam com alguma dignidade e honra, dado o rebaixamento, os cariocas mandavam ver um pão de queijo e contemplavam as vaquinhas pastando nas montanhas verdejantes, como num copo de requeijão. Enquanto o inconfiável PC se esfalfava para evitar mais uma carga do esquadrão deca campeão, cá atrás, a comissão técnica a tudo assistia, tomando mais uma xícara de café passado na hora.

    Entre um naco de queijo de minas e outro, entrou o Gaborel, cabra que eu gosto muito (apesar das evidentes limitações), e que deu um balaço que parece que vai ser gol mesmo depois de ver no replay que não foi; merecia. Digo mais: se a bola entrasse, com a beleza e a personalidade com que desferiu o potente chute de canhota, quem sabe o baiano caísse nas nossas graças e finalmente desabrochasse. Foi o único fato digno de registro.

    Como se não bastasse (o Golpe, a PEC55, o reacionarismo galopante, etc), o enfadonho enredo da noite da última quarta-feira (16) ainda contava com a narração quadradinha do bom funcionário Luiz Roberto, quem não deixava o sonolento telespectador se esquecer de “toda a emoção em jogo na encarniçada disputa pelo G-3”... Uáááááááááá, que sono! Cá do sofá, para piorar, não se podia nem mesmo deixar-se contagiar pela empolgação da torcida presente ao estádio que, segundo o Luiz, “cantava e pulava sem parar, fazendo uma festa no Mineirão!”... Sério? Difícil acreditar naquilo que não se pode ver, já que a transmissão global, ao privilegiar os patrocinadores, a qualquer custo e em detrimento das manifestações populares de cunho cultural, político ou clubístico, não se ocupa mais de promover pormenores tais, como nos tempos de outrora, com seus 100 mil torcedores, chuva de papel higiênico e picado, charangas, batuques e bandeiras mil. A despeito da quantidade de câmeras altamente tecnológicas espalhadas por todo o ambiente, os telespectadores só ficam sabendo da tal “festa no Mineirão” por conta dos insistentes alertas do narrador: - Canta feliz a torcida flamenguista nas arquibancadas!... – emendava.

    Se ele, sempre educadíssimo,  não nos faz o favor de avisar, jamais saberíamos que alguém cantarolava por aquelas constantemente vazias cadeiras da Arena Mineirão, já que desde que a Globo ‘pegou pânico’ (SIC) de tudo o que é espontâneo, suas transmissões esportivas passaram a ser ambientadas numa câmara mortuária. De nada lhe servem microfones ultrassensíveis ou engenhocas de ponta, pois a emissora ranzinza e quatrocentona opta, há tempos, por suprimir da vida dos telespectadores qualquer energia contagiante ou expressões genuínas de alegria vindas daquela turba popularesca que subsiste em nossas (mau) padronizadas arenas - justamente as manifestações que historicamente (e até há pouco) resignificaram o jogo e a forma de se torcer, criando passarelas imaginárias, avenidas e carnavais em meio às gerais. Foi tudo substituído por um som abafado, almofadado. Da torcida, um leve alarido. E o Luiz Roberto que, contido, esfregando suas mãozinhas, deixa escapar um insincero sorriso folgazão e sintetiza a experiência pretensamente coletiva: - Tudo isso é um grande barato!...

    Do que será que ele está falando? Do preço dos ingressos (aproveitando o trocadilho) é que não é. Da qualidade do jogo, muito menos. Será da tal disputa pelo G-3 (ou G-4, G-7 ou G-16 – quem não cair, tá na Liberta!)? Ou das es-pe-ta-cu-la-res intromissões publicitárias que agora fazem a tela diminuir, obrigando-nos, como gados, a ver o que eles querem que vejamos? (Parabéns ao gênio que pensou nisso.) Não sei; são tantas coisas “bacanas e legais” (só para citar o Luiz) que a gente se perde nesse verdadeiro parque de diversões das emoções, né, Maestro Júnior?... – Hã?!...

    Por fim, voltando à vaca fria, i.e., ao time do Flamengo que só nos presenteia com leite azedo, é necessário finalizar dizendo que, tal como agora, já iniciamos muito mal para finalizarmos muito bem alguns brasileirões (em especial, os de 87, 92 e 09). Destoando dessa tríade vitoriosa e descontando o fato de não termos um Zico, um Júnior ou um Pet, o mal é que nessa escalada rumo ao caneco não tenha rolado uma arrancada final espetaculêndida, daquelas de fazer com que geral sinta calafrios ao topar com o Mengão-deixou-chegar-fudeu. Borrariam as calças só de sentir o cheiro da turma da Gávea, mas com um futebol fedorento desses...

    O texto era só para esculachar o futebol do Mengão, mas acabou sobrando para a Globo e para o vistoso Luiz. Foi mal, aê, Dr. Roberto, mas nesse ano nosso Flamengo não merece (nem vai) ser campeão. Fedeu!

PS: claro que se logo mais, no New Maraca, ganhar dos coxa, e os porco e os peixe perderem, torcerei como louco e acreditarei como nunca! Ó, meu Mengão, eu gosto de você...

imagem: joão sassi


terça-feira, 3 de março de 2015

Borogodó Passando a Régua

O Vasco não brilhou, ao contrário do ilustre torcedor.

Esta nova seção (até agora, a única do blog) se propõe a pontuar o que de mais interessante aconteceu na última semana.

À exceção dos jogos do Flamengo, já não faço a menor questão de assistir a qualquer partida de futebol. O passionalismo juvenil de quem faltava à aula ou mesmo ao trabalho para ver um reles amistoso da Seleção Brasileira, no Tadjiquistão, já não existe mais – bem como o futebol ou a própria seleção, dizem.

Vez ou outra, porém, esbarro num canal qualquer e dou uma espiada no que anda fazendo um Barça ou um PSG da vida, esses times de grife do businessfootball. No último Sábado, por exemplo, bastaram alguns minutos assistindo ao toque de bola culé, contra o time do Granada, para me lembrar de como o Brasileirão, além de sonolento, possui um nível técnico digno da várzea do futebol mundial.

Neymar, que não vem atuando bem há uma meia-dúzia de jogos, não me parece tão à vontade. Foi (in)devidamente enquadrado para ser, no máximo, uma estrela de segunda grandeza do atual plantel azul-grená. Ele deveria parar de baixar a cabeça para Messi e partir para cima, do contrário, poderá reeditar a (até certo ponto) frustrante trajetória de Robinho.

Por lençóis piores que os do Moicano da Vila, e ocupando um papel ainda menos relevante em sua equipa, passa o ex-são-paulino Lucas. Quando se transferiu do Morumbi para o Parc des Princes, a Globo chegou a despachar seu setorista, Abel Neto, para cobrir os primeiros passos do então futuro melhor do mundo pela Cidade-Luz, além de produzir matérias especiais para o Esporte Espetacular e o Jornal Nacional – tava cheio de moral, o moleque! Duas temporadas depois, claudicante e diminuído pelo ego colossal de Ibrahimovic, é titular de ocasião, não fez falta na Copa do Mundo e nunca mais apareceu no comercial da Wolkswagen. Neymar que abra os olhos.

Na seara nacional, gostei de saber que a Fiel tem feito do Itaquerão um pesadelo para os times visitantes, sendo parcialmente responsável pelo excepcional desempenho alcançado pelo Timão, em seus redutos. Para isso, muito contribui a acústica extasiante do estádio, o que causa torpor ao adversário. A Nação Rubro-Negra, se quiser fazer frente aos manos e do Mengão, indestrutível em seu rincão, agora vai ter de se virar para ecoar seu famoso canto gregoriano sob as lonas cafonas que tanto descaracterizaram o Maracanã.

Já no clássico dos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro, entre Flamengo e Botafogo, nem a despedida do limitado, mas esforçado Leo Moura, ou a propaganda bizarra da camisa do Fogão chamaram tanta atenção quanto a tentativa de celeuma criada pela imprensa tupiniquim, que viu na divertida declaração pré-jogo – “Vou marcar gol e Marcelo Cirino, não!” - feita pelo esforçado, mas limitado botafoguense Bill, algo a ser alardeado como provocação e desrespeito, estimulando o tal “o pau vai comer em campo”. Que imprensa puritana. Parece que nunca ouviram falar de um Romário, de um Renato Gaúcho... Ô, gente inocente!

Por fim, aquele que considerei o ponto mais louvável do fim de semana, digno de aplausos coletivos: a presença de colorados e tricolores nas arquibancadas do Gigante da Beira-Rio. Das ocasiões a que pude assistir a um clássico, as mais emocionantes foram em companhia de torcedores adversários. Quanto menos segregação há, mais espaço para a paixão do torcedor aflorar. Saravah!


foto de joão sassi


terça-feira, 6 de maio de 2014

Alecgol é Seleção!

Fé na lista; Alecgol treina em segredo, com afinco.
Respondam os atentos leitores, antes mesmo de engolir a saliva na garganta: o que têm em comum Serginho Chulapa, João Nunes Danado e Hernane Brocador? Relaxem, pois já lhos digo: são todos artilheiros, gente que sabe botar a bola pra dentro do gol. Por esta qualidade – e por tentos providenciais em títulos e finais - foram e são, até certo ponto, idolatrados pelas massas das arquibancadas (quando do tempo das massas e das arquibancadas, claro).

Ademais, compartilham o fato de serem uns perebas de marca maior, não tendo a mais insípida noção do que se pode fazer com uma bola de couro, longe da grande área. Dão de canela ou de joelho, embora saibam se posicionar. Faço aqui justiça, dando um desconto ao Nunes, quem colecionou também algumas arrancadas fulminantes e mesmo dribles desconcertantes, como o aplicado no zagueiro Silvestre, do Galo, no terceiro gol da final da Taça de Ouro de 80. Tão somente exceções, porém. De modo geral, são todos vinhos (?) da mesma safra, algo avinagrados, com falta de técnica e de estilo gritantes.

A diferença entre esses goleadores de um toque só, a despeito da aposentadoria dos dois primeiros, se dá por estes haverem tido portentosos esquadrões ao entorno, enquanto Hernane conta com esforçada, porém limitada equipa a municiar-lhe a goleadura.

Apaniguado por craques, Nunes foi simplesmente campeão regional, nacional, continental e mundial pelo melhor Flamengo de todos os tempos, enquanto Serginho levou inúmeros “paulistinhas”, o bi-nacional e, mesmo sendo bijuteria, estava juntos às jóias canarinho, como centroavante da Seleça de 82. O filme oficial da FIFOTA sobre aquela edição da Copa faz sintomática menção ao Chulapa, quando o narrador cita “um raro momento em que o desengonçado centroavante brasileiro consegue realizar um movimento articulado”...

Quanto ao Brocador, descontando o deleite de haver nascido às margens do Velho Chico, na abençoada Bom Jesus da Lapa, conquistou pouco (muito pouco, quase nada) para que suas glórias sejam comparadas às dos outros dois pernas-de-pau. Contra ele, além da falta de talento para dominar a bola, há um Flamengo indigno de suas tradições, íntimo das zonas de rebaixamento e das desclassificações vexatórias, pouco afeito a lhe dar boa vida.

O baiano chegou à Gávea sob severa desconfiança, tendo de disputar um lugar ao sol. Mas mostrando que carne de calango é banquete no sertão, conquistou a galera e uma vaga no time, posando de jogador principal nas campanhas publicitárias do Mengão. Mas aí então, veio uma joelhada maldosa e lá foi nosso goleador para o estaleiro, ó, Deus.

Não sei se pelo destino, mandinga, providência divina ou ocasião, mas essa contusão é uma bênção pro técnico Jaime, pois o reserva se encontra em ótima situação. Ele já foi conhecido por ser o filho do Lela, careteiro ponta-direita do Coxa Campeão Brasileiro de 85, e também por ser irmão de Richarlysson, espevitado lateral do Galo. Hoje, consciente do que é jogar pelo Flamengo, Alecsandro está amadurecido e confortável no papel que ora desempenha; é, com autoridade, o novo “camisa 9” do Mengo.

Entendo aqueles que torcem o nariz pro cara – já fui assim! Sei que ele tem aquele jeito meio insosso de ser, quase antipático (nisso, o testão, o cavanhaque e os dentões de coelho não ajudam em nada), mas não dá para virar a cara pro currículo do rapaz. Desde que despontou pro futebol brasileiro, pelo Cruzeiro, em 2006, ele nunca teve um desempenho medíocre por onde quer que tenha passado. Foi reserva no Atlético Mineiro, na temporada passada, por opção tática do Cuca. Fora isso, são mais de sete anos mostrando serviço! Não somente fazendo muitos gols (alguns, lindos de doer), mas também contribuindo para a armação das jogadas. Basta lembrar o golaço de bicicleta pelo Bacalhau, contra a Lusa, ou o primeiro gol marcado contra o Palmeiras, no último domingo, respectivamente, para se dar conta de sua capacidade técnica. Fora isso é lutador, eficiente e não tem medo de cara feia. E, principalmente, sabe pensar; é inteligente.

Alecsandro está com 33 anos e não está disposto a perder os holofotes que o maior time do Brasil lhe dá. Ele está na pilha para dar o máximo de si e o Flamengo, desde Romário, mais que precisa de alguém que saiba cuidar da pequena, lá na frente. Tendo iniciado a temporada na reserva, já marcou 14 gols – mesmo número de Hernane(6), Paulinho(5) e Nixon(3), juntos.

O craque tricampeão Paulo Cézar Caju disse, hoje, que o Brasil “está cheio de volante e cara alto”, além de ser um “time feio porque dá porrada e não deixa o adversário jogar”. Se eu fosse o Felipão, eu escutava o PC, aproveitava o ensejo e armava uma surpresa de última hora. Para quem já teve um Chulapa no lugar de um Careca e um Grafite no lugar de um Imperador, convenhamos; um Alecgol não ia fazer pior no lugar de um Robinho ou de um Jô (que, aliás, até se machucou)... Tempos bicudos, Brasil!



foto e arte: joão sassi




terça-feira, 15 de abril de 2014

Roberto Dinamite e a Síndrome de Superman

Roubado é mais gostoso?
A pretensa decisão da diretoria do Vasco da Gama de solicitar a anulação da partida final contra o Flamengo é de um ridículo atroz que só não é maior por falta de espaço em São Januário.  Seus dirigentes entendem que o gol rubro-negro foi fruto de roubo, sendo, portanto, ilegítimo. Clamam por justiça! Querem a cabeça do juiz, do goleiro e de quem mais estiver em conluio com tais meliantes!

É inacreditável! Esse pessoal não teve infância? Não sabe levar na boa-fé um fato mais que inerente ao esporte? O erro está implícito à disputa desportiva, uma vez que os embates estão submetidos ao julgamento potencialmente falho do ser humano. Ele não está previsto em qualquer regra, mas como um tempero que cai acidentalmente na panela, criando uma combinação espetacular, faz parte da cosmologia do esporte, permeando todo seu processo evolutivo e demais desdobramentos.

Cansados de tomar na tarraqueta, os diretores  vascaínos insistem na exposição e na humilhação públicas do próprio time, incumbência antes exercida pelos botafoguenses. Por querer voltar o tempo e refazer os acontecimentos da vida, Mr. Bob Dinamite, quem muito admirei quando em atividade, deveria ganhar o troféu "Síndrome de Superman", concedido ao cartola mais original do metiê. Como diabos ninguém teve antes tão reluzente ideia? Será que dá pra todo mundo entrar nessa fita aí, doido? É só ir lá com o adevogado, pá-pum e pronto, desembaçou? Tudo zerado? Convoca-se uma nova Final, distribui-se novos ingressos aos cambistas e tá tudo firmeza?... Mas, diz aí; tem jurisprudença, mano?

   - Poxa, Roberto, não tem! Passa outra hora, com outra roupa, meu filho, porque quem sabe não sobra alguma numa próxima oportunidade, quando vocês poderão fazer como o Flu e virar a mesa sempre que for conveniente?

O “delito flamengo-arbitral-global” teria sido admitido e confessado pelo arqueiro rubro-negro Felipe, baiano descarado, da mesma laia de Edílson e Vampeta, quando ele fez troça sobre os eternos vice-campeões com o provocativo chavão “roubado é mais gostoso”. Foi o suficiente para que o Gigante da Colina se retasse, apelando às tais providências jurídicas cabíveis mais descabidas à disposição.

Na mesma toada, nas redes sociais pululam acusações ao caráter do goleiro flamenguista. Percebo tempos tão hipócritas que uma clara provocação se torna uma prova da essência supostamente desvirtuada do povo brasileiro. Ou não se percebe que, em sua provocação explícita, ele enaltece o rival ao admitir, implicitamente, que ganhar do Vasco é tão importante que faria qualquer coisa para isso?  Ah, mas tenho certeza de que o probo leitor não coaduna com gente dessa estirpe, pois sim? Senão, vejamos...

 O brasileiro tem orgulho do sucesso internacional da seleção brasileira. É das poucas coisas que suplanta nosso atávico complexo de vira-latas.  Ao contrário da realidade social, no quesito futebol a nossa auto-imagem adquiriu autoridade moral sambando com a bola nos pés, assobiando e chupando cana ao mesmo tempo. Conquistamos cinco Copas do Mundo legítima e inquestionavelmente, com direito a Copa nas Américas, nas Oropa e até no Oriente!

Se porventura, porém, uma das estrelas bordadas na camisa canarinho, houvesse sido obtida, digamos, sob o tacão de uma ditadura militar, com favorecimentos mil, além de uma tanto sub-reptícia como elástica vitória sobre (des)determinado oponente, é certo que nos sentiríamos um pouco desconfortáveis por conta do olhar de soslaio que o mundo inteiro dispensaria a tal conquista (mais ou menos como a torcida do Sport se sente em relação ao “título” de campeão brasileiro de 87). Pode até constar nos anais, mas na cabeça da geral o papo é outro.

Apesar desta verve honesta e de sermos todos tementes a Deus, o brasileiro também faz macumba e adora jogar no bicho. São ações constitutivas da nossa cultura, como também o é a malandragem, tão bem corroborada por Túlio Maravilha – o ex-imortal – com sua providencial ajeitada no braço e conseguinte golaço sobre os hermanos, pelas semis da Copa América-95. Não vi um único brasileiro, por mais Caxias e ilibado que fosse, lamentar pelos jogadores argentinos estarem à beira de um ataque cardíaco, gesticulando, desesperados, para que o juiz anulasse o gol. Naquele momento, nosso jeitinho foi elogiado de Norte a Sul do país.

Será a prova cabal de nosso macunaismo? Não creio. É certo que se fosse contra a Venezuela, nos sentiríamos envergonhados por passar à final “na mão grande”. Sendo, porém, contra a Argentina, ter sido como foi se revelou um motivo a mais de regozijo! E não adianta falar que não foi porque foi!

Justiça, merecimento, mérito... São palavras tão bonitas, não obstante tão deslocadas do mundo da bola... Em 2007, por exemplo, estive presente ao Maracanã quando o Botafogo foi garfado e o Flamengo foi campeão. À ocasião, Dodô foi expulso por concluir a gol um ataque mal anulado pela arbitragem, impedindo a vitória alvinegra nos derradeiros minutos. Saí do estádio eufórico, mas aquela “injustiça” me incomodou muito porque, de fato, o Botafogo era muito mais time e não merecia perder. Deu até pena vê-los chorando na TV.


Agora, me pergunta se eu sinto o mesmo em relação ao jogo de Domingo? Como disse o zagueiro Wallace, só lamento pelo gol não ter saído aos 48!... Hahaha! Chupa, Vasco!

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Alma Atarantada


Ele é uma criança; não entende nada.

Adriano, tal qual Ronaldinho Gaúcho, Robinho e Kaká – todos remanescentes do malfadado “quadrado mágico” de 2006 – deveriam estar curtindo o ápice da vida esportiva, com uma ou duas Copas na bagagem, prestígio mundial e muita grana no bolso.

De 2006 para cá, entretanto, não ganharam nada pela Seleção Brasileira, perderam prestígio e, se isso consola, levantaram um bom troco. Mas não vingaram.

Sobre Ronaldinho, já disse o que penso alguns textos abaixo (Ronaldo e as 32 Primaveras); Robinho virou performer; Kaká perdeu o traquejo de jogador, como um Mangalarga Marchador que desaprendeu a marchar; e Adriano voltou a ser criança. 

Pensem bem: só uma criança faz o que quer, à hora que quer e quando quer. O adendo é que Adriano é uma criança que não sabe o que quer, daquelas que choram sem saber por que.

Mas quem desacreditaria uma criança; um ser com tanto futuro e tantas possibilidades?...

Vem daí, desse sentimento maternal que a torcida do Flamengo tem pelo Imperador, sua única e derradeira oportunidade para entrar para a história. Sim, porque se o sentimento fosse paternal, esse moleque já teria tomado umas bifas e ido trabalhar no balcão do Mac Donald’s para largar de ser trouxa e folgado. O que ele quer, afinal: disputar o Carioca de 2013 pelo Madureira?

Ou será que o vislumbre do abismo, enfim, lhe abrirá os olhos? Será que o Impera se tocou que a corda já esticou para muito além do que podia? E, por Deus(!), será que ele não enxerga seu clube de coração lhe fazendo cortesia em praça pública, como é do feitio de todo tolo apaixonado, enquanto clubes de todo o mundo zombam de sua história e tradição? Será que ele não vê que tem muito nego, como o pobre Zinho, colocando o seu na reta por conta dele? Será? O que será que será? - (não resisti ao trocadilho...)

Para quem viu aquele gorducho desajeitado – motivo de galhofa do próprio torcedor rubro-negro até sua comemorada saída para a Itália, há 10 anos – se transformar no principal centro-avante do mundo, chegando mesmo a destronar o Fenômeno a partir de meados da década passada, vê-lo nessas condições de pura melancolia e desnorteio causa dor.

E não falo da dor que o torcedor sente por ver seu ídolo na sarjeta, mas da dor de alguém que enxerga naquele sujeito grande e gracioso um ser humano angustiado que necessita de muito mais que uma mera advertência profissional.

O tempo das desculpas já se foi, como escreveu José Ilan, após cobrir a entrevista coletiva na qual um constrangido Adriano dava explicações. Nem mesmo o jogador acredita mais em suas próprias palavras.


foto: joão sassi
local: jijoca -ce



domingo, 3 de junho de 2012

Ronaldo e as 32 Primaveras

Acima, Ronaldinho é flagrado na rua: "Tá tudo normal;
 o pensamento é estar na Seleção
", assegurou  o craque.
Jurei aos meus doze seguidores do Twitter (agora já são catorze) que não mais falaria em Ronaldinho Gaúcho, e que o melhor que a torcida rubro-negra poderia fazer era simplesmente ser indiferente ao ex-atleta.

No entanto, ao estar aqui, dando a mão à palmatória, reconheço não ser possível ignorá-lo, haja vista a dimensão que seu futebol um dia alcançou. E ainda que o magnetismo e o carisma outrora vistos tenham simplesmente desaparecido junto com sua inspiração e espontaneidade, seria ludopedicamente condenável omitir os últimos acontecimentos.

Para não incorrer em meras suposições ou legítimos rancores, tomarei alguns fora-de-série como fio condutor deste artigo. E terei como referência o número 32 – a idade atual de Ronaldinho.

Vejamos os casos de Pelé, Zico, Romário e Ronaldo Nazário; estrelas de primeira grandeza; astros de brilho solar, tal qual o personagem desta notícia.

Em 1972, quando faria 32 anos de idade, Pelé disputou, segundo a Wikipédia, 110 partidas (oficiais e amistosas), marcando um total de 69 gols no período correspondente. O ano marcou ainda a data voluntariamente escolhida pelo Rei para se despedir da Seleção Brasileira, sendo ovacionado pela torcida paulista que lotava o Morumbi. Nos dois anos seguintes, marcaria ainda mais 104 gols pelo time da Vila famosa, encerrando a carreira jogando em alto nível, aos 34 anos de idade. Deu ainda três anos de lambuja para exibir-se e enriquecer no Cosmos-EUA, em Nova Iorque; mas isso não conta.

A título de comparação, dos 28 aos atuais 32 anos – a contar desde a estreia pelo Milan-ITA até a ruptura com o Fla – o astro gaúcho disputou um total de 150 partidas, marcando exíguos 48 gols (e não adianta que não vou me dar ao trabalho de pesquisar quantos foram de pênalti).

Passemos ao Galo, quem teve o dissabor de conhecer o inferno justamente aos 32. O ano era 1985, e Zico acabava de ser resgatado pelo Fla, no chamado “Projeto Zico”: uma engendração financeira ousada que possibilitou a custosa volta do filho pródigo à Gávea, numa época em que a moeda nacional não apitava nada.

Poucos meses depois, no entanto, o Galinho sofreria a mais grave contusão de sua carreira por conta do gesto gracioso de um “colega de profissão”. No ocorrido, o zagueiro banguense Márcio Nunes, “receando a conhecida maldade de Zico” (conforme declararia), entrou com uma bela voadora nos joelhos da joia rubro-negra.

Quatro anos e três cirurgias depois, Zico encerraria a carreira tendo comandado o Flamengo Campeão Brasileiro de 87, bem como sendo o líder da Seleção Brasileira durante as eliminatórias de 85, ocorrendo o mesmo na Copa do México (quando, todos sabem, ele só participou a pedido de Telê), com seu protagonismo indiscutível. Bastava Zico aparecer na lateral, se aquecendo para entrar, para a torcida mexicana vir abaixo.

Em resumo, mesmo com o joelho arrebentado, num tempo em que a medicina esportiva engatinhava, foi sempre um jogador temido e respeitado por adversários e torcedores, além de idolatrado pela torcida. Depois, seguiu os passos do Rei e foi fazer do futebol uma língua reconhecida em terras estrangeiras; foi quando se tornou imperador no Japão, mas isso também não conta.

Temos também o caso de Romário, quem arcou com um alto custo por querer fazer os tais mil gols, maculando um pouco o fim da carreira, quando já contava 42 anos de idade. Uma década antes, porém, quando completou o suficiente para constar nesta resenha, o Baixinho ainda aterrorizava geral.

Basta lembrar que, após os 32 anos de idade, Romário fez mais de 400 gols, ganhou inúmeros títulos e disputou inúmeras artilharias. Em tempo: só não disputou as Copas de 98 e de 2002 porque é, como sabemos, um bad-boy. Fosse mais esperto do que se acha, e tivesse se cuidado um pouco mais no quesito extracampo, é certo que seus números seriam maiores e mais grandiosos do que já são.

E de Ronaldo Nazário, o que se pode dizer? Talvez não seja necessário se lembrar do cara que pintou na Gávea, em meados de 2008, egresso do Milan, ostentado um cabelo bizarro, uma pança cômica e dois joelhos bichados - época em que tinha acabado de alcançar sua 32ª Primavera.

O Fenômeno não teve a despedida dos sonhos que Pelé teve; nem na Seleção, nem no Timão. Tampouco voltou ao time canarinho, ou a disputar mais uma Copa do Mundo, muito menos como protagonista, como fez Zico. E sequer balançou as redes, enfurecidamente, como o “Peixe” Romário. Nada disso!

Ainda assim, fez o que todo mundo já sabe: encantou os adoradores de Ludopedhya durante os dois anos seguintes, conquistando títulos e dando aos que não o tinham visto de perto, a chance de ver uma lenda em campo. Quando jogou a toalha, as 34 anos, o Fofômeno não precisava mais provar nada a ninguém: adentrou o Olimpo, sentou-se em sua poltrona de nuvens e está lá, curtindo os louros de sua bem-aventurada carreira.

Mas...

... e  Ronaldinho Gaúcho?

Ronaldinho, conforme o texto inaugural desse blog (leia "O Rei está Nu), esteve ali, na condição de um semideus, mas não entendeu o recado das massas.

Hoje, de acordo com pesquisa veiculada no “Esporte Espetacular” (o matinal dominical esportivo da TV Globo), nenhuma torcida brasileira o quer. Os índices variam quanto à rejeição – maior, como a da amargurada torcida gremista (88%), ou menor, como a carente torcida palmeirense (51%) -, mas não quanto à opinião do torcedor que, em todos os casos, ultrapassa os 50% de rejeição. Mesmo aqueles que torcem para times de menor prestígio nacional, como o do Figueirense ou o do Atlético Goianiense, estes também rejeitaram enfaticamente a presença do ex-melhor do mundo em suas equipes.

Se eu fosse o Ronaldinho, pedia o boné e ia fazer companhia às focas de algum parque temático em Miami. Como no caso do poeta, Ronaldo, seu tempo é outro. Acabou.


foto de João Sassi
Rodoviária-DF