terça-feira, 11 de setembro de 2012

Só se fala na Camisa Amarela da Seleção Brasileira!

Cabisbaixo torcedor brasileiro: cada vez mais escanteado.

                       
Não, eu não assisti aos 8x0 contra os chineses.  E não é que tenha me dado sono; eu dormi porque quis. Optei por esta saída honrosa logo após o segundo gol, com Neymar deslizando como uma libélula pela área, sem qualquer marcação; ali, estava claro que seria uma pelada sem qualquer qualificação que nunca poderia ser chamada de amistoso internacional. Um total desrespeito ao torcedor e aos fãs do esporte, em geral.

Obviamente, o título deste texto é enganoso; mero estratagema para cooptar leitores incautos. Afinal, todos estamos cientes do desencanto generalizado pela equipe canarinho. Mas, já que chegamos até aqui, é da Seleção que vou tratar.

Pois bem, a Seleção morreu. Não existe mais.

O que temos hoje em dia, dirigido pela Nike, achincalhado pelos árabes e explorado pela TV Globo, é o Time da CBF: a mais bem sucedida multinacional brasileira - chupa, Petrobrás! -, atuante em todos os continentes conhecidos e reconhecidamente a mais vitoriosa empresa no ramo de acúmulo capital de Copas do Mundo (notem que há um trocadilho sutil nesta última oração).

Bem sucedida porque produz milhões de dólares e beneficia a algumas poucas almas enlevadas (“Mr. Teixeeeeeira!”) por meio da privatização de um bem público, ainda que imaterial: o amor do povo brasileiro pela sua seleção de futebol.

Utilizam o hino nacional brasileiro, a bandeira verde-amarela e o sentimento de toda a Nação Brasil para vender, mundo afora, um produto plastificado como se fosse matéria-prima original, genuinamente tupiniquim. Aliás, esta é a única alternativa para o Time da CBF; explorar mercados externos em alta, como Qatar, China ou mesmo Gabão, porque por estas bandas a batata está assando legal.

Por inúmeras razões – e, verdadeiramente, não sei se cabe aqui enumerá-las – esse sentimento de que a Seleção representava a Nação está perdendo seu apelo e se transformando numa forçação de barra deslavada. O tal do “Brasil-sil-sil” já não ecoa em nosso coração como dantes ecoava; já não há reverberação. Mas simplesmente uma nostalgia, uma vontade de que as coisas engrenem, com o Brasil dando show, sambando com a bola no pé e mostrando como é que é. Mas não...

Desde 1989, quando o genro de João Havelange assumiu o comando da birosca, a conexão entre o torcedor brasileiro e a Seleção Brasileira foi se perdendo, perdendo, perdendo... E se perdeu a tal ponto que o agrupamento de atletas que representa a CBF nos gramados não mais merece o epíteto gentílico, posto que a sociedade brasileira demonstrasse crescentes dificuldades em se enxergar representada por uma instituição privada comercial – e, de fato, a Seleção, historicamente, sempre nos representara, e muito bem. Naqueles tempos de outrora, a pátria se calçava em chuteiras – sofria-se muito pelos jogadores! – mas e agora? Somos “nós” que estamos em campo?

Sentimo-nos representados pelo astro que chega ao estádio enaltecendo o próprio ego, ao divulgar músicas em sua homenagem por meio de modernas caixinhas sonoras, como fez Neymar, no último Dia da Independência? Como se sentem aqueles que viram Sócrates fazer de cada partida um ato cívico e político da maior importância, ao ter, agora, de abraçar uma geração tão hedonista e ególatra? Uma geração para a qual o slogan DEUS É FIEL tem muito mais legitimidade e relevância que a palavra DEMOCRACIA escrita na faixa da cabeça.

Não vou aborrecê-los com cifras de contratos, lucros, furtos ou desvios, mas é de conhecimento público que eles só se acumulam, desde então. Assim como nosso prestígio! Sim, ganhamos ... Quer dizer, a CBF ganhou duas Copas e outras tantas copetas, aumentando sobremaneira e ratificando o status vencedor de nossa confederação ante as demais adversárias. Um sucesso! (Só o México não reconhece nossa grandeza...)

Mas tudo isso foi obtido graças à depauperação da seleção enquanto símbolo cultural. Tal como o Maracanã, os craques de camisa dourada representavam um “ícone do esporte mais praticado no mundo, elemento de identidade cultural brasileira quase tão importante quanto a própria Língua Portuguesa e o samba.” *Disso, passaram à condição de pop star. Sequer pestanejaram, os rapazotes.

A omissão antropológica pode custar muito caro à nababesca Confederação Brasileira de Futebol, uma vez que é galopante o desinteresse nacional por esta tropa de soldadinhos obedientes que trajam feias e frágeis indumentárias que lhes trazem desprestígio e ridículo aos olhos da comunidade mundial.

A cena da camisa “padrão NIKE” se desfazendo em pleno ar, como se feita pelo mais inábil falsificador fosse, expõe uma metáfora trágica em relação ao orgulho que sentíamos em agitar uma bandeira brasileira em dias de jogo do Brasil: ele hoje não existe. Assim como a camisa, símbolo maior de uma seleção, nosso orgulho se desfaz cotidianamente, dentro e fora de campo, em vergonha e constrangimento.

 *A definição eu emprestei do jornalista Carlos Tautz, que hoje publicou “A Morte do Maracanã”.

foto de joão sassi
campão do varjão - d.f.





quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Alma Atarantada


Ele é uma criança; não entende nada.

Adriano, tal qual Ronaldinho Gaúcho, Robinho e Kaká – todos remanescentes do malfadado “quadrado mágico” de 2006 – deveriam estar curtindo o ápice da vida esportiva, com uma ou duas Copas na bagagem, prestígio mundial e muita grana no bolso.

De 2006 para cá, entretanto, não ganharam nada pela Seleção Brasileira, perderam prestígio e, se isso consola, levantaram um bom troco. Mas não vingaram.

Sobre Ronaldinho, já disse o que penso alguns textos abaixo (Ronaldo e as 32 Primaveras); Robinho virou performer; Kaká perdeu o traquejo de jogador, como um Mangalarga Marchador que desaprendeu a marchar; e Adriano voltou a ser criança. 

Pensem bem: só uma criança faz o que quer, à hora que quer e quando quer. O adendo é que Adriano é uma criança que não sabe o que quer, daquelas que choram sem saber por que.

Mas quem desacreditaria uma criança; um ser com tanto futuro e tantas possibilidades?...

Vem daí, desse sentimento maternal que a torcida do Flamengo tem pelo Imperador, sua única e derradeira oportunidade para entrar para a história. Sim, porque se o sentimento fosse paternal, esse moleque já teria tomado umas bifas e ido trabalhar no balcão do Mac Donald’s para largar de ser trouxa e folgado. O que ele quer, afinal: disputar o Carioca de 2013 pelo Madureira?

Ou será que o vislumbre do abismo, enfim, lhe abrirá os olhos? Será que o Impera se tocou que a corda já esticou para muito além do que podia? E, por Deus(!), será que ele não enxerga seu clube de coração lhe fazendo cortesia em praça pública, como é do feitio de todo tolo apaixonado, enquanto clubes de todo o mundo zombam de sua história e tradição? Será que ele não vê que tem muito nego, como o pobre Zinho, colocando o seu na reta por conta dele? Será? O que será que será? - (não resisti ao trocadilho...)

Para quem viu aquele gorducho desajeitado – motivo de galhofa do próprio torcedor rubro-negro até sua comemorada saída para a Itália, há 10 anos – se transformar no principal centro-avante do mundo, chegando mesmo a destronar o Fenômeno a partir de meados da década passada, vê-lo nessas condições de pura melancolia e desnorteio causa dor.

E não falo da dor que o torcedor sente por ver seu ídolo na sarjeta, mas da dor de alguém que enxerga naquele sujeito grande e gracioso um ser humano angustiado que necessita de muito mais que uma mera advertência profissional.

O tempo das desculpas já se foi, como escreveu José Ilan, após cobrir a entrevista coletiva na qual um constrangido Adriano dava explicações. Nem mesmo o jogador acredita mais em suas próprias palavras.


foto: joão sassi
local: jijoca -ce



quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Zé Love e o Resgate da Dignidade Humana

Zé Love retorna a Gênova de cabeça erguida.

Não sei qual a origem do apelido que colocaram no Zé Eduardo, mas sei que até bem recentemente, eu não botava a menor fé no tal do Zé Love.


Considerava-o um Zé-ninguém cujo maior mérito fora estar no time certo, na hora certa, mesmo sendo um cara incerto. Lembro bem dele na reta final da Libertadores de 2011; fazia gracinhas e perdia gols o tempo todo. Foi campeão graças a Neymar.


Mas calhou de jogar numa época em que qualquer Zé vai jogar na Itália; e lá se foi o Zé Love tentar ser alguém na vida.


Ficou quase um ano fora da mídia, em grande parte por haver se contundido e passado muito tempo no estaleiro. Mas se recuperou da contusão e fez uma boa pré-temporada pelo modesto Genoa; suficientemente boa, aliás, a ponto de despertar a cobiça do Milan – carente de um bom atacante após a deserção de Zlatan Ibrahimović.


“Despropósito total!”-, pensei, pego de surpresa pela aparição em grande estilo do cabo Zé.


Mas isso não era tudo, pois logo na sequência, pintou uma surpresa ainda maior: Zé disse não à poderosa equipe rubro-negra de Milão, o que fez o caso ganhar as páginas esportivas.


Entre letras e opiniões, um jornalista que escreve sobre negócios do esporte e analisa o noticiário do ponto de vista econômico, do marketing e da gestão, resumiu o fato nos seguintes termos: “A dignidade, invariavelmente, atrapalha e muito num planejamento mais longo de carreira. Zé Love, infelizmente, que o diga” – foi sua deixa, numa análise segundo a qual o atleta deveria ter se curvado às determinações da Casa Grande, como se outro futuro bem-vindouro nunca mais se lhe fosse fazer presente no horizonte da carreira esportiva.


Esse olhar hermético e funcional – que certamente despertaria a ira de Nelson Rodrigues - despertou minha curiosidade sobre o caso, no que então fui me informar melhor, buscando a versão do próprio atleta.


   - “Não sou jogador de ficar esperando em hotel! Já ganhei Libertadores!”, bradava o Zé, lá da Itália, em referência à condição destand-by por dez dias imposta pela esquadra milanesa (que teria, assim, mais uma semana para contratar algum outro jogador estrangeiro, o que faria o desconhecido Zé Love ter de voltar ao também parcamente conhecido time do Genoa, com o rabinho entre as pernas). Enquanto não oficializasse o acordo por meio de um contrato, ficaria no quarto, esperando o telefone tocar com a autorização do Milan para ele poder, enfim, assinar e treinar. “Isso não é digno” – pensou. E não era mesmo.


Para quem eu, até ontem, considerava um parvo, vibrei com sua postura!


Numa época em que os homens se dividem entre bobos alegres e tristes críticos, otimistas deslumbrados com o tecnicismo contemporâneo e pessimistas que sonham com a volta de uma existência in natura, é sempre salutar ter razões para acreditar na transformação da realidade para algo bom, algo melhor, vislumbrando atitudes como a do Zé. Cena de cinema:


O dirigente do Milan liga pro quarto do jogador e ninguém atende. No celular tampouco. Liga novamente, e nada! Fica puto: “Quem este bostinha pensa que é?”, esbraveja, com o aparelho grudado ao ouvido, que chama... Sem resposta. - “Deve estar ocupado com alguma puta...Questi brasiliani di merda!”.


Dispara para o hotel. Quer pegar Zé no flagra! Passa furibundo pelolobby, sob o sorriso amarelo do rapaz que está na recepção. Espera impaciente que o elevador percorra 19 andares. Então irrompe corredor adentro.


Já com a mão na maçaneta dourada, hesita.


Toca a campainha. Nada. Uma, duas, três vezes. Bate na porta. Grita!: "D'zéé?...". Os demais hóspedes entreabrem as portas, espiando o corredor para ver o que há. Em meio ao burburinho, é chamado o gerente.


   - “Ma qui è D´zé, cazzo?”, pergunta alguém.  
   - Ma che D'zé Cazzo?! È Dzé d'Amore; Dzé d'Amore, cazzo! -, responde o milanista, irritadíssimo!


Enfim, a porta do quarto do Zé é aberta.


Mas enquanto o cartola encontra apenas um bilhete sobre a cama dizendo “vafanculo!”, o agora notável Zé Love volta a Genoa, onde é recebido sob silvos e aplausos no Estádio Luigi Ferraris, sendo aplaudido de pé pelos torcedores. “Foi um dos momentos mais emocionantes da minha carreira”, disse.


Vi o gesto de Zé como uma atitude libertária por não se curvar às determinações da parte mais poderosa envolvida na negociação. Aliás, deixou bem claro que não é mercadoria. Um gesto de rebeldia que reacende o desejo da mudança e alimenta a esperança de quem acredita na beleza dos propósitos do  bicho-Homem.


Ao se fazer digno, Zé Love contrariou a lógica econômica e assombrou os idiotas da objetividade, razão pela qual nos aproxima de um ideal comum e, portanto, mais humano; é um gesto que enaltece toda a raça.


Ainda que ele não faça gols ou que nunca mais justifique o interesse de qualquer grande equipe, valeu Zé; valeu mesmo, moleque! A galera vibra!...




foto de joão sassi

varjão -df

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Três Minutos de Emoção e o Anticlímax do Jogo Final


A torcida do Porco nem esperou o apito final para vibrar.

                                                      
Logo no início da transmissão de Parmêra e Coxa, pela Copa do Brasil, o colega Maurício Noriega, comentando pela ESPN, aludiu à atmosfera que envolvia uma final de campeonato. Não lembro exatamente quais foram suas palavras, mas era clara a emoção que ele sentia ao frisar a contagiante vibração coletiva da qual era partícipe. Era o tal clima de final.

Algo que não houve, por exemplo, na sombria arena onde se realizou a primeira partida da final... Puft! Primeira partida; que papo é esse? Final é final, e ponto final. Sou contra a realização de uma final bipartida.

Senão, vejamos. A partida de ontem - todos os que viram, sabiam, e os que não viram, sabiam também - foi totalmente baseada no placar do primeiro jogo, resultando num time de marcação resistindo a outro que tentaria lhe fazer pressão; a very boring script...

Na tentativa de se fazer “justiça”, para que as duas torcidas possam comparecer e o fator campo seja favorável a ambas as equipes – na verdade, só para dobrar a renda -, criou-se a dupla-final, na qual, muitas vezes, o clima é, mas pode não ser, de uma grande final; principalmente quando há diferença de mais de um gol no “jogo de ida” – algo já feio desde sua denominação!

De uma final eu espero o clima ao qual se referiu o Noriega; um clima diferente, com uma “densidade diferente”, no qual toda a cidade – e não somente os que comparecem ao estádio – pulsa no mesmo ritmo. E não é que isso não ocorra no jogo de ida; apenas é diferente, pois o jogo de volta é que se configura numa grande final. Só este jogo literalmente final tem condições de propiciar o sentimento de que se está à beira do Paraíso ou do Inferno, pois não haverá amanhã: a decisão é hoje! É o jogo final! O dia do Juízo!!!

Tal sentimento deveria ter cadeira cativa, obrigatoriamente, em toda final, pois é nele que está aplicada toda a devoção do torcedor; é para isso que ele torce e paga ingresso, enfrentando todo o caos que o acompanha até seu lugar na arquibancada. Mas, não, amigos; não está!

Ontem, vos digo, este sentimento tão nobre, tão vital, tão... Visceral!, ontem, este sentimento mal teve lugar; no mínimo, o teve em escala muito menor do que se esperava. A primeira vez, antes do apito inicial, quando as expectativas eram todas, de parte a parte; e a segunda, durante os míseros três minutos que separaram o gol do Coritiba do gol do Palmeiras. Somente ali, naqueles parcos porém mágicos três minutos, o futebol viveu o ápice das emoções que somente uma final propicia, mas que logo encontrou seu fim na cabeçada surpresa de Bentinho. Antes dela, porém, uma torcida, enlouquecida, era pura expectativa, e a outra, assustada, a mais pura angustia: conseguiria o Coxa fazer o segundo? E o Palmeiras, vai segurar a onda?

Fez mais: empatou. E o jogo logo esfriou.

Dali em diante, num cenário avesso a maiores emoções, posto que os paranaenses dependessem de mais três tentos, perdurou certo anticlímax no Couto Pereira, até o apito final, quando, com sensação de dever cumprido, a gurizada do Felipão pode gritar “somos campões”!

Fica a pergunta: Pode isso, Arnaldo? Pode uma final ser, digamos, parcialmente degustada? É justo que um jogo que representa o porquê de todas as coisas possa ter sua própria identidade diluída por fatores precedentes? Ao imaginar que, não somente aqueles três minutos, mas que toda a partida pudesse transcorrer em perene estado de ebulição, chego à conclusão que o sistema poderia ser melhorado.

Por que não se inspirar, por exemplo, nas grandes decisões europeias, nacionais e continentais, as quais não fogem ao espírito do embate final, em campo neutro? Não é assim nas Copas da Itália, Espanha, França, Inglaterra, etc.? Não é assim na Copa dos Campeões da Europa? Por que, então, não se pensa em fazer o mesmo por aqui, com a escolha do palco do jogo final com antecedência, com divisão de ingressos e estrutura de apoio ao torcedor?

Não quero menosprezar o título dos Porco, mas acho que as duas partidas finais dessa Copa do Brasil só empolgaram aos próprios torcedores envolvidos, pois, por alguma razão (ou várias), não se criou, em ambas as partidas, a atmosfera de luta e vibração que se espera de jogos assim.


Foto de João Sassi
Varjão - DF


segunda-feira, 9 de julho de 2012

Porque o Mundo Precisa de Cores!

Capacete e o Papagaio-de-Vintém: tradição que faltou ao tricolor.

Ao entrar em campo vestindo seu uniforme branco (o chamado #2), o Fluminense demonstrou total falta de sintonia com a data centenária do clássico, chegando a ser desrespeitoso com a própria história do FLAXFLU.

No campo do Borogodó este tema já foi visto, e conforme adverti em “Virou Todo Mundo Japonês!”, a questão simbólica envolvendo o uniforme dos clubes e das seleções nacionais merece mais atenção da parte de todos.

Senhores, o que deu na diretoria tricolor – mandante da partida de Domingo – para ordenar que o time fosse a campo em brancas cores? Inclusive nas preliminares, quando a velha-guarda rubro-negra trajou o tal Papagaio de Vintém, indumentária com a qual se apresentara no primeiro FLAXFLU, em 1912, numa demonstração bonita do espírito esportivo e do resgate às tradições que a festa demandava.

Qualquer criança – e nas crianças podemos sempre confiar! -, se instada a dar seu pitaco sobre o clássico, haverá de mencionar o colorido do evento: a mistura de cores que ocupa as arquibancadas e desce até o campo pelo flamular das bandeiras em meio ao fumacê rubro-negro ou ao pó-de-arroz tricolor, emprestando características expressionistas ao espetáculo futebolístico. Era isso que, ouso eu escrever, quiseram dizer Nelson Rodrigues e Mário Filho: que as multidões, quando despertadas, vislumbraram, 45 minutos antes do nada, o colorido que daria mais brilho à existência humana, corando o imaginário de todos nós em preto e vermelho; em grená, verde e branco!

Falar de FLAXFLU é, por tudo isso, um enaltecimento à própria cultura brasileira e à sua diversidade étnica. É também, o emblema perene das classes sociais representadas em cada uma das agremiações, manifestado na transversalidade das cores que simbolizam o espectro socioeconômico nacional. O Flamengo, em envolventes faixas horizontais pretas e vermelhas como as da pomba-gira, presente nos terreiros afro-brasileiros escondidos por nossa hipócrita nação. E o Fluminense, com elegantes e longilíneas líneas de cores tão aristocráticas como sua torcida, a começar pelo grená – do Francês, grenat...

Pois toda esta pompa e circunstância foi menosprezada pelo time de Laranjeiras; um passo mal dado que seria o prenúncio de um jogo cinza como foi a tarde de ontem. Não fosse o filho único parido por Fred, logo no início da peleja, e o grande clássico teria sido tão sem graça como o alvo da camisa tricolor. Ainda bem que o Flamengo não entrou de amarelo e azul – de Tabajara, já basta o Joel...


Foto: Maurício Val/Vipcomm


quinta-feira, 5 de julho de 2012

Salve o Corinthians - o Libertador da América!

A República Popular do Corinthians em 1º lugar.

Eu ia escrever sobre o sentimento que leva um corintiano a orgulhar-se de ser corintiano. Mas logo desisti, pois não sendo corintiano, é certo que o resultado resvalaria numa brejeirice atroz, descambando com frequência para a pieguice dos testemunhos épicos.

Quis escrever algo porque, mesmo não sendo corintiano, ontem me flagrei em frente à TV, torcendo como louco.

Logo eu que durante toda a Liberta amaldiçoei a caretice do Tite e o irritante (porém eficiente) futebol de resultados da equipe. Ademais, não queria fazer parte do mesmo côro que um Andrés Sanchez, ou muito menos compactuar com a beligerância de algumas facções de manos fanáticas pelo alvinegro de Parque São Jorge.

Por essas razões, torci sempre contra o Curínthia: torci contra quando se classificou; torci contra quando passou do Emelec; torci contra quando Cássio operou um milagre diante do  Vasco; e torci mais contra ainda quando se impôs, indiscutivelmente, ao Santos de Neymar – time de minha predileção após a desconcertante eliminação do meu Mengão.

Mas foi o Timão que chegou à decisão.

E logo contra o Boca Jrs.; uma espécie de Golias das Américas. Um colosso em forma de Bombonera que há décadas impinge o terror pelo continente, esmagando sem dó qualquer esquadra que lhe faça frente. De Norte a Sul, de Palmeiras a Santos, do Grêmio ao Flu, do Flamengo ao Papão da Curuzu, todo mundo já foi triturado por aquela maldita boquinha doirada e azul.

Talvez por esta razão – pelo inimigo em comum, por sermos vítimas em comum! - tão logo o juiz apitou o início do embate, lá estava eu, totalmente conectado à Fiel, atento a cada movimento no Pacaembu. Parecia a Esquerda brasileira, em 70, que, na hora do vamos ver, mandava o Médici à merda e abraçava a causa verde-amarela em solo mexicano.

Torci mesmo, e me emocionei e vibrei muito com os dois gols históricos do Sheik, e mais ainda com sua astúcia: “Malandro que é malandro dá nó em pingo d’água, boludo!”, deve ter dito o safo atacante ao xeneize que fungava em seu cangote.


Foi gostoso torcer pelo Corinthians, ainda que uma única vez na vida. Foi bom estar irmanado àquele bando de loucos que, mesmo com todos os defeitos, mostravam-se meus aliados na luta contra a ditadura bostêra.

Creio que neste 5 de julho, ao invés de demonstrar recato e dor de cotovelo, deveríamos todos os torcedores brasileiros agradecer ao Sport Club Corinthians Paulista por nos haver libertado do complexo de inferioridade do qual padecíamos frente ao imponente e prepotente inimigo do Sul.

Chupa, Boca! Vai, Corinthians!

 Foto: João Sassi

“O Salto de Vampeta” - Palácio do Planalto/DF


terça-feira, 3 de julho de 2012

O Papel do Torcedor Pastel


Quando a FIFA dá bola-fora, a torcida é sempre atingida.
Quando perguntaram ao Frei Leonardo Boff o porquê de ser pessimista quanto à realidade atual, ele respondeu que não era o caso, mas sim de ser realista ante a péssima realidade.

Podem, portanto, me chamar de ranzinza ou de coisa pior, mas é de aspectos negativos que este texto vai tratar. Pensei que era necessário fazer uma breve reflexão sobre situações que me tem chamado a atenção e que podem se tornar tendências de gosto duvidoso.

De maneira geral, este blog tenta abordar o mundo da bola fazendo, quando possível, um contraponto entre o futebol de ontem e o futebol de hoje, não por simples romantismo ou nostalgia, mas por acreditar que algo muito importante – algo diretamente associado à essência desse esporte – esteja se perdendo, se deturpando ou, no mínimo, se desvirtuando.

Um exemplo.

Voltemos algumas semanas; à final da Liga dos Campeões da Europa. O juiz acaba de apitar, determinando o fim do jogo, e o Chelsea é campeão. Enquanto os jogadores do time inglês festejam em campo a épica e improvável vitória contra os germânicos, seus alucinados torcedores, simplesmente extasiados, celebram a conquista nas arquibancadas.

Eis que não mais que de repente, em meio à catarse de todos – vitoriosos e derrotados -, menos de um minuto após o fim do jogo, surge uma música estrondosa pelo moderno sistema de som do estádio, sufocando os gritos de alegria, tratando a euforia do sucesso ou a dor do fracasso da mesma e fria maneira: como pequenos e dispensáveis detalhes no cronograma da festa.

Os gritos de guerra e as canções de júbilo que se danem, se o hit da moda é o que deve ser ouvido pelo torcedor que está no estádio ou mesmo por quem está em casa, sob risco de toda celebração parecer uma cópia reeditada de si mesma, dada a pasteurização caracterizada pelo enfadonho FIFA modus operandi de ser. Nele, mais importante que a vida em si e as emoções sobre as quais o jogo se sustenta, é saber se o palco sobre o gramado já está pronto para receber os doutos sanguessugas do esporte, ávidos por aparecerem na foto à hora da premiação (ou mesmo para surrupiar una medallita, de quando em vez).

Claro, não se pode esquecer a maquininha cuspidora de papel prateado, algo que surgiu como novidade aceitável, mas que ninguém supunha que se tornaria um lugar comum, por vezes inconveniente ou mesmo deselegante; cafona, mesmo. 

No futuro já experimentado, todas as imagens se condensarão num tablado asséptico estampado por patrocinadores e ornamentados por papeis prateados; será impossível diferenciar as conquistas, o local, a cidade ou até o estádio em questão. Tudo terá de ser dentro do novo padrão mundial, segundo o qual a espontaneidade não será mais encarada como uma qualidade, senão como um acontecimento pouco benfazejo.

Nesta recém-encerrada Eurocopa, após cada gol, uma mesma música ecoava pelos autofalantes e estimulava os torcedores a comemorá-los do mesmo modo, entoando-a em uníssono, independentemente de qual seleção o marcasse. Se fosse gol, todo mundo cantava ô-ô-ô e pronto! Quando saquei que era uma norma do torneio, mais uma vez lembrei de 1984, do George Orwel, e da mentalidade totalitarista que o livro denuncia. A FIFA ou a UEFA, querendo participar, poderiam fazer tocar uma musiquinha que tivesse a ver com a seleção em questão, no mínimo!

Com uma igualdade imposta, o coletivismo do ato perde sentido a partir do momento em que se torna, mais e mais, artificial. Perde-se, nesse novo ritual, a possibilidade do torcedor se manifestar pela sua identidade e tradições nacionais. Perde-se a espontaneidade que o momento propicia, condensando-a num gesto premeditado e repetitivo. Mais uma vez, os donos do futebol tentam assemelhá-lo, tanto quanto possível for, a um jogo de vídeo game: é gol? Toca a musiquinha! Sintetize-se a alegria! Agora, vai perguntar a um torcedor do Boca Juniores ou do Corinthians (só para prestigiar os finalistas de amanhã) se eles topariam substituir seus cânticos históricos pelo último sucesso da Beyoncé ou do Teló; tenha dó!

São fatos assim que entristece o cidadão... E também ver um campo rodeado por seguranças robóticos que não se movem por nenhum motivo, que não o de reprimir possíveis invasões ou de informar supostas infrações cometidas pelo torcedor. São figuras estranhas que tiram do esporte a sua verve popular e democrática ao estabelecer uma cultura de vigilância e terror à beira dos gramados – sempre em nome da proteção máxima ao patrocinador e não ao torcedor, registre-se.

Algo que se contrapõe ao futebol de ontem, quando na Copa de 82, no fatídico Brasil 2x3 Itália, uma sorridente policial tomava conta, tranquilamente, de toda uma extensão da arquibancada do Sarriá, ao som do samba, do suor e da cerveja da torcida brasileira!

Ano que vem, o Brasil vai fazer seu papel de bom garoto, atendendo a toda e qualquer vontade da FIFA durante a Copa das Confederações – evento-teste para a Copa do Mundo. Resta saber se o novo jeito do Brasil jogar, fora de campo, irá respeitar a cultura nacional ou se se converterá em apenas mais uma demonstração do nosso colonialismo atávico. Com a palavra, o ufanista Ministro Rebelo.

foto de joão sassi
campão do varjão - df