| Cabisbaixo torcedor brasileiro: cada vez mais escanteado. |
Não, eu não assisti aos 8x0 contra os chineses. E não é que tenha me dado sono; eu dormi
porque quis. Optei por esta saída honrosa logo após o segundo gol, com Neymar deslizando
como uma libélula pela área, sem qualquer marcação; ali, estava claro que seria
uma pelada sem qualquer qualificação que nunca poderia ser chamada de amistoso
internacional. Um total desrespeito ao torcedor e aos fãs do esporte, em geral.
Obviamente, o título deste texto é enganoso; mero estratagema
para cooptar leitores incautos. Afinal, todos estamos cientes do desencanto generalizado
pela equipe canarinho. Mas, já que chegamos até aqui, é da Seleção que vou
tratar.
Pois bem, a Seleção morreu. Não existe mais.
O que temos hoje em dia, dirigido pela Nike, achincalhado
pelos árabes e explorado pela TV Globo, é o Time da CBF: a mais bem sucedida
multinacional brasileira - chupa, Petrobrás! -, atuante em todos os continentes
conhecidos e reconhecidamente a mais vitoriosa empresa no ramo de acúmulo
capital de Copas do Mundo (notem que há um trocadilho sutil nesta última
oração).
Bem sucedida porque produz milhões de dólares e beneficia a
algumas poucas almas enlevadas (“Mr. Teixeeeeeira!”) por meio da privatização
de um bem público, ainda que imaterial: o amor do povo brasileiro pela sua
seleção de futebol.
Utilizam o hino nacional brasileiro, a bandeira
verde-amarela e o sentimento de toda a Nação Brasil para vender, mundo afora,
um produto plastificado como se fosse matéria-prima original, genuinamente tupiniquim.
Aliás, esta é a única alternativa para o Time da CBF; explorar mercados
externos em alta, como Qatar, China ou mesmo Gabão, porque por estas bandas a
batata está assando legal.
Por inúmeras razões – e, verdadeiramente, não sei se cabe
aqui enumerá-las – esse sentimento de que a Seleção representava a Nação está
perdendo seu apelo e se transformando numa forçação de barra deslavada. O tal
do “Brasil-sil-sil” já não ecoa em nosso coração como dantes ecoava; já não há
reverberação. Mas simplesmente uma nostalgia, uma vontade de que as coisas
engrenem, com o Brasil dando show, sambando com a bola no pé e mostrando como é
que é. Mas não...
Desde 1989, quando o genro de João Havelange assumiu o
comando da birosca, a conexão entre o torcedor brasileiro e a Seleção
Brasileira foi se perdendo, perdendo, perdendo... E se perdeu a tal ponto que o
agrupamento de atletas que representa a CBF nos gramados não mais merece o
epíteto gentílico, posto que a sociedade brasileira demonstrasse crescentes
dificuldades em se enxergar representada por uma instituição privada comercial –
e, de fato, a Seleção, historicamente, sempre nos representara, e muito bem. Naqueles
tempos de outrora, a pátria se calçava em chuteiras – sofria-se muito pelos
jogadores! – mas e agora? Somos “nós” que estamos em campo?
Sentimo-nos representados pelo astro que chega ao estádio
enaltecendo o próprio ego, ao divulgar músicas em sua homenagem por meio de modernas
caixinhas sonoras, como fez Neymar, no último Dia da Independência? Como se
sentem aqueles que viram Sócrates fazer de cada partida um ato cívico e
político da maior importância, ao ter, agora, de abraçar uma geração tão
hedonista e ególatra? Uma geração para a qual o slogan DEUS É FIEL tem muito
mais legitimidade e relevância que a palavra DEMOCRACIA escrita na faixa da
cabeça.
Não vou aborrecê-los com cifras de contratos, lucros, furtos
ou desvios, mas é de conhecimento público que eles só se acumulam, desde então.
Assim como nosso prestígio! Sim, ganhamos ... Quer dizer, a CBF ganhou duas
Copas e outras tantas copetas, aumentando sobremaneira e ratificando o status
vencedor de nossa confederação ante as demais adversárias. Um sucesso! (Só o
México não reconhece nossa grandeza...)
Mas tudo isso foi obtido graças à depauperação da seleção
enquanto símbolo cultural. Tal como o Maracanã, os craques de camisa dourada representavam
um “ícone do esporte mais praticado no mundo,
elemento de identidade cultural brasileira quase tão importante quanto a
própria Língua Portuguesa e o samba.” *Disso, passaram à condição de pop star. Sequer pestanejaram, os
rapazotes.
A omissão antropológica pode custar muito caro
à nababesca Confederação Brasileira de Futebol, uma vez que é galopante o
desinteresse nacional por esta tropa de soldadinhos obedientes que trajam feias
e frágeis indumentárias que lhes trazem desprestígio e ridículo aos olhos da
comunidade mundial.
A cena da camisa “padrão NIKE” se desfazendo em
pleno ar, como se feita pelo mais inábil falsificador fosse, expõe uma metáfora
trágica em relação ao orgulho que sentíamos em agitar uma bandeira brasileira
em dias de jogo do Brasil: ele hoje não existe. Assim como a camisa, símbolo
maior de uma seleção, nosso orgulho se desfaz cotidianamente, dentro e fora de
campo, em vergonha e constrangimento.
*A
definição eu emprestei do jornalista Carlos Tautz, que hoje publicou “A Morte
do Maracanã”.
foto de joão sassi
campão do varjão - d.f.

