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Conformado, o craque celebra: - Daqui o professor disse que eu posso render mais!... |
As
coisas estavam ficando realmente difíceis para o time do Santos. Refugiado em meio
aos torcedores do Bolívar, eu tremia como pinto molhado nas gélidas arquibancadas
do Estádio Olímpico de La Paz; sequer ousava tirar a mão do bolso para
alcançar uma botellita de red label fasifiki (descolada mais cedo no Mercado
Central). Contentava-me em seguir o coro da massa, “bo-bo-bo, lí-lí-lí,
var-var-var: BOLÍVAR!!!”. Mas apesar do calor humano, a noite estava friíssima.
E logo a chuva e o vento tratariam de trazer um pouco mais de sofrimento, tanto
aos torcedores como aos jogadores.
As
arquibancadas estavam todas em Azul Celeste, cor do time anfitrião, lotadas. Não
que a equipe paceña o merecesse – longe disso -, mas pelo fato de Robinho estar
em campo. O ano era de 2005, e a partida era disputada ainda pela fase de
grupos da Libertadores. Todo esforço era válido para ver a jóia praiana em
ação. Por isso encarei a epopéia de ir a campo me extasiar. O Peixe perdeu por
4 x 2, pois, além do frio e do campo encharcado (tipo charco mesmo), viu
aliar-se ao adversário a Senhora Dona Altitude e um juiz amigo dos hômi. Mesmo
assim, Robinho foi o destaque absoluto com impressionantes arrancadas (numa das
quais saiu o segundo gol santista), deixando os bolivianos aterrorizados, além
dos fantásticos dribles que, de hábito, aplicava. A torcida delirava quando lhe
tiravam a bola, ainda que a patadas, mas não tirava o sorriso de satisfação do
rosto com as incríveis jogadas testemunhadas.
Ao
longo daquele ano, compartilhei do suplício alvinegro ante a iminente debandada
do craque para a Europa. Também sentido, mesmo que em silêncio, por todo torcedor
brasileiro, encantados que estávamos pelas pedaladas e estripulias do menino
vicentino. O projeto “Fica, Robinho!” foi simpático, tocante, mas não o
suficiente para sensibilizar o coração daquele calunga ousado e irreverente
que, sabíamos – tínhamos mesmo a certeza, ora, bolas! -, representava o futuro
do futebol brasileiro.
Pois
não é que o seguro morreu de velho e ficamos todos com a cara no chão?
O
que aconteceu de lá pra cá com esse garoto é de entristecer a alma do menos
nostálgico dos aficionados pelo violento esporte bretão. No Real, virou reserva
galáctico de luxo; mesmo lugar que ocupava no “quadrado mágico” do selecionado de
Parreira (ou seja, nenhum). De Madrid, partiu com o peito estufado em busca de
novos “desafios”, no que foi recebido como craque no City, de Manchester, onde,
se fez alguma coisa, simplesmente não me lembro (e estou muito preguiçolento
para pesquisar na rede). Antes de sair definitivamente, fez um curso de “Figuração
Express” em sua velha conhecida Vila Famosa, servindo como coadjuvante para o
brilhar inebriante dos ascendentes Ganso e Neymar. Saiu fazendo careta e
forçando cara de menino, dizendo-se o velho Robinho, embora, na verdade,
estivesse só ficando mais velho e cada vez menos Robinho.
Metamorfose
que se confirmou naturalmente quando abarcou ao Milan, já com um inquebrantável
ponto de interrogação que pairava perenemente sobre sua cabeça. “Quem é esse? É aquele outrora responsável por espalhar a esperança
e transformar sal em mel?”, perguntariam, incrédulos, Milton Nascimento e
Fernando Brant. Aquele, das sete pedaladas em cima do Rogério na final do Brasileirão; é esse mesmo quem
está ali, esquentando o banco do tradicional San Ciro?
Pois,
sim, caros senhores, é esse mesmo. O tal que foi nosso principal líder (?) na
Copa passada e que, quando fez o gol contra a Holanda, ajoelhou-se e benzeu-se
como se enfim houvesse dado cabo à sua divina missão nesta Terra.
Hoje,
tudo o que se ouve do ex-futuro-Pelé são críticas quanto ao alisabel que
ornamenta suas madeixas, e nada mais. No Brasil, seja entre especialistas, seja
entre torcedores, seu nome sequer é cogitado para a próxima Copa - quando, em
teoria, aos 30 anos, teria a oportunidade de desfilar o fino da bola, como fez
o Rei, em 1970, ou o Galinho, em 1982. Mas, não. Preferiu seguir os passos
daqueles que já se acham maduros o suficiente, dos que acham que não tem mais
nada a aprender, tornando-se subproduto de sua geração narcizóide. No futuro, o
sorridente Robinho será lembrado por suas pedaladas juvenis e, com alguma boa
vontade, como o cara que “arrebentou” na Copa América de 2007.
É pouco... Profundamente pouco para quem já deu, um dia, o enganoso indício de que estávamos no caminho certo. Parece que Robinho andou pedalando pro lado errado.
É pouco... Profundamente pouco para quem já deu, um dia, o enganoso indício de que estávamos no caminho certo. Parece que Robinho andou pedalando pro lado errado.
foto: joão sassi
Na boa: acho que no futuro Robinho nem lembrado será. Representará, no máximo, uma referência exótica, como Denilson. Lamentável, mas verdade.
ResponderExcluirPois é, Márcio, por demais lamentável... O Denílson vai ficar lembrado pelo lance com os turcos, e só. Já o Robinho, faça-se justiça, ainda tem aquele tal de "dois pra lá, dois pra cá", aplicado contra o Equador, no Maracanã. Não é lá muita coisa, mas foi bem bonito.
ResponderExcluirTudo bem, lance bonito de se ver na hora. Mas - sejamos realistas - contra o Equador não dá pra ficar na história ...
ExcluirVerdade,joão! Por esse lance e aquela pedalada contra o Corinthians...Realmente uma pena! Boníssimo texto, parabéns!
ResponderExcluirForte abraço,
Arthur Guedes.
Valeu a presença, Arthur! No mais, resta-nos lamentar o desperdício de uma safra que prometia (Robinho, Adriano, Kaká, Ronaldinho Gaúcho, etc).
ResponderExcluirAbração del D.T.