sábado, 19 de novembro de 2016

Perdoe, Dr. Roberto... (mas nosso Flamengo não será campeão)

Esse rubro-negrinho prefere bater uma bola a acompanhar os jogos do Flamengo pela TV

    Não me lembro de haver assistido a qualquer coisa tão maçante em muitas décadas de futebol. Os 40’ que desperdicei defronte a TV foram tão desagradáveis quanto o slogan que alardeia o “cheirinho de hepta”. Difícil crer que as pessoas paguem o PREMIÈRE para ver isso.

    Para início de análise, além de um corte de cabelo padronizado e de propalada fé do Senhor Jesus Cristinho, o que o time do Flamengo tem para mostrar? Pose de estátua? Ou total falta de capacidade para ser campeão? O Flamengo não merecer vencer.

    Quando liguei a televisão, o oriundi Leo Batista já estava apresentando os melhores momentos do 1º tempo que, ressalte-se, pareceram-me muito melhores ao último colocado do Brasileirão do que à equipe que almeja a consagração. Porque se o objetivo do time era entrar em campo com a faca entre os dentes e passar o rodo geral, então eu não entendi nada quando nosso técnico gritava, insistentemente, “paciência!” aos jogadores que deixavam o vestiário, rumo ao 2º tempo. Paciência?! Só se for ao torcedor, né, Zé? Pois quem perdeu dois ou três gols feitos foi o América, enquanto o nosso foi na cagada, né? Assim como foi cagada o atacante americano dar uma ombrada, já na segunda etapa, tornando possível ao nosso engomado goal-keeper praticar uma defesa decerto impossível, caso cabeçada fosse.

    Falando em segunda etapa, avanti, se é para isso que aqui estamos! Que coisa medonha... A começar pelos uniformes. O do Coelho, cuja mistura de cores agrada no original, agora foi transformado em penteadeira de puta, sendo que na penteadeira você dá uma arrumada, mas a camisa, só queimando e se esquecendo da fórmula para nunca mais repetir. Quanto ao do Mengo, é verdadeiramente astucioso como conseguiram embagulhar o clássico manto do Mundial de 81! Pô, Adidas! Pô, diretoria! Tanto o design modernoso-academia não combina com o traço rubro-negro, como um logotipo azul e laranja jamais combinará com qualquer camisa do Fla, em qualquer época – quiçá com a “Tabajara”. O patrocinador fica tão em evidência com suas letras garrafais e pesadas que toda vez que o time entra em campo eu me confundo, achando que é o time da CAIXA...

    Voltando ao suplício, e me desculpem o tom modorrento, mas que desagradável... Enquanto os mineiros atacavam com alguma dignidade e honra, dado o rebaixamento, os cariocas mandavam ver um pão de queijo e contemplavam as vaquinhas pastando nas montanhas verdejantes, como num copo de requeijão. Enquanto o inconfiável PC se esfalfava para evitar mais uma carga do esquadrão deca campeão, cá atrás, a comissão técnica a tudo assistia, tomando mais uma xícara de café passado na hora.

    Entre um naco de queijo de minas e outro, entrou o Gaborel, cabra que eu gosto muito (apesar das evidentes limitações), e que deu um balaço que parece que vai ser gol mesmo depois de ver no replay que não foi; merecia. Digo mais: se a bola entrasse, com a beleza e a personalidade com que desferiu o potente chute de canhota, quem sabe o baiano caísse nas nossas graças e finalmente desabrochasse. Foi o único fato digno de registro.

    Como se não bastasse (o Golpe, a PEC55, o reacionarismo galopante, etc), o enfadonho enredo da noite da última quarta-feira (16) ainda contava com a narração quadradinha do bom funcionário Luiz Roberto, quem não deixava o sonolento telespectador se esquecer de “toda a emoção em jogo na encarniçada disputa pelo G-3”... Uáááááááááá, que sono! Cá do sofá, para piorar, não se podia nem mesmo deixar-se contagiar pela empolgação da torcida presente ao estádio que, segundo o Luiz, “cantava e pulava sem parar, fazendo uma festa no Mineirão!”... Sério? Difícil acreditar naquilo que não se pode ver, já que a transmissão global, ao privilegiar os patrocinadores, a qualquer custo e em detrimento das manifestações populares de cunho cultural, político ou clubístico, não se ocupa mais de promover pormenores tais, como nos tempos de outrora, com seus 100 mil torcedores, chuva de papel higiênico e picado, charangas, batuques e bandeiras mil. A despeito da quantidade de câmeras altamente tecnológicas espalhadas por todo o ambiente, os telespectadores só ficam sabendo da tal “festa no Mineirão” por conta dos insistentes alertas do narrador: - Canta feliz a torcida flamenguista nas arquibancadas!... – emendava.

    Se ele, sempre educadíssimo,  não nos faz o favor de avisar, jamais saberíamos que alguém cantarolava por aquelas constantemente vazias cadeiras da Arena Mineirão, já que desde que a Globo ‘pegou pânico’ (SIC) de tudo o que é espontâneo, suas transmissões esportivas passaram a ser ambientadas numa câmara mortuária. De nada lhe servem microfones ultrassensíveis ou engenhocas de ponta, pois a emissora ranzinza e quatrocentona opta, há tempos, por suprimir da vida dos telespectadores qualquer energia contagiante ou expressões genuínas de alegria vindas daquela turba popularesca que subsiste em nossas (mau) padronizadas arenas - justamente as manifestações que historicamente (e até há pouco) resignificaram o jogo e a forma de se torcer, criando passarelas imaginárias, avenidas e carnavais em meio às gerais. Foi tudo substituído por um som abafado, almofadado. Da torcida, um leve alarido. E o Luiz Roberto que, contido, esfregando suas mãozinhas, deixa escapar um insincero sorriso folgazão e sintetiza a experiência pretensamente coletiva: - Tudo isso é um grande barato!...

    Do que será que ele está falando? Do preço dos ingressos (aproveitando o trocadilho) é que não é. Da qualidade do jogo, muito menos. Será da tal disputa pelo G-3 (ou G-4, G-7 ou G-16 – quem não cair, tá na Liberta!)? Ou das es-pe-ta-cu-la-res intromissões publicitárias que agora fazem a tela diminuir, obrigando-nos, como gados, a ver o que eles querem que vejamos? (Parabéns ao gênio que pensou nisso.) Não sei; são tantas coisas “bacanas e legais” (só para citar o Luiz) que a gente se perde nesse verdadeiro parque de diversões das emoções, né, Maestro Júnior?... – Hã?!...

    Por fim, voltando à vaca fria, i.e., ao time do Flamengo que só nos presenteia com leite azedo, é necessário finalizar dizendo que, tal como agora, já iniciamos muito mal para finalizarmos muito bem alguns brasileirões (em especial, os de 87, 92 e 09). Destoando dessa tríade vitoriosa e descontando o fato de não termos um Zico, um Júnior ou um Pet, o mal é que nessa escalada rumo ao caneco não tenha rolado uma arrancada final espetaculêndida, daquelas de fazer com que geral sinta calafrios ao topar com o Mengão-deixou-chegar-fudeu. Borrariam as calças só de sentir o cheiro da turma da Gávea, mas com um futebol fedorento desses...

    O texto era só para esculachar o futebol do Mengão, mas acabou sobrando para a Globo e para o vistoso Luiz. Foi mal, aê, Dr. Roberto, mas nesse ano nosso Flamengo não merece (nem vai) ser campeão. Fedeu!

PS: claro que se logo mais, no New Maraca, ganhar dos coxa, e os porco e os peixe perderem, torcerei como louco e acreditarei como nunca! Ó, meu Mengão, eu gosto de você...

imagem: joão sassi


terça-feira, 3 de março de 2015

Borogodó Passando a Régua

O Vasco não brilhou, ao contrário do ilustre torcedor.

Esta nova seção (até agora, a única do blog) se propõe a pontuar o que de mais interessante aconteceu na última semana.

À exceção dos jogos do Flamengo, já não faço a menor questão de assistir a qualquer partida de futebol. O passionalismo juvenil de quem faltava à aula ou mesmo ao trabalho para ver um reles amistoso da Seleção Brasileira, no Tadjiquistão, já não existe mais – bem como o futebol ou a própria seleção, dizem.

Vez ou outra, porém, esbarro num canal qualquer e dou uma espiada no que anda fazendo um Barça ou um PSG da vida, esses times de grife do businessfootball. No último Sábado, por exemplo, bastaram alguns minutos assistindo ao toque de bola culé, contra o time do Granada, para me lembrar de como o Brasileirão, além de sonolento, possui um nível técnico digno da várzea do futebol mundial.

Neymar, que não vem atuando bem há uma meia-dúzia de jogos, não me parece tão à vontade. Foi (in)devidamente enquadrado para ser, no máximo, uma estrela de segunda grandeza do atual plantel azul-grená. Ele deveria parar de baixar a cabeça para Messi e partir para cima, do contrário, poderá reeditar a (até certo ponto) frustrante trajetória de Robinho.

Por lençóis piores que os do Moicano da Vila, e ocupando um papel ainda menos relevante em sua equipa, passa o ex-são-paulino Lucas. Quando se transferiu do Morumbi para o Parc des Princes, a Globo chegou a despachar seu setorista, Abel Neto, para cobrir os primeiros passos do então futuro melhor do mundo pela Cidade-Luz, além de produzir matérias especiais para o Esporte Espetacular e o Jornal Nacional – tava cheio de moral, o moleque! Duas temporadas depois, claudicante e diminuído pelo ego colossal de Ibrahimovic, é titular de ocasião, não fez falta na Copa do Mundo e nunca mais apareceu no comercial da Wolkswagen. Neymar que abra os olhos.

Na seara nacional, gostei de saber que a Fiel tem feito do Itaquerão um pesadelo para os times visitantes, sendo parcialmente responsável pelo excepcional desempenho alcançado pelo Timão, em seus redutos. Para isso, muito contribui a acústica extasiante do estádio, o que causa torpor ao adversário. A Nação Rubro-Negra, se quiser fazer frente aos manos e do Mengão, indestrutível em seu rincão, agora vai ter de se virar para ecoar seu famoso canto gregoriano sob as lonas cafonas que tanto descaracterizaram o Maracanã.

Já no clássico dos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro, entre Flamengo e Botafogo, nem a despedida do limitado, mas esforçado Leo Moura, ou a propaganda bizarra da camisa do Fogão chamaram tanta atenção quanto a tentativa de celeuma criada pela imprensa tupiniquim, que viu na divertida declaração pré-jogo – “Vou marcar gol e Marcelo Cirino, não!” - feita pelo esforçado, mas limitado botafoguense Bill, algo a ser alardeado como provocação e desrespeito, estimulando o tal “o pau vai comer em campo”. Que imprensa puritana. Parece que nunca ouviram falar de um Romário, de um Renato Gaúcho... Ô, gente inocente!

Por fim, aquele que considerei o ponto mais louvável do fim de semana, digno de aplausos coletivos: a presença de colorados e tricolores nas arquibancadas do Gigante da Beira-Rio. Das ocasiões a que pude assistir a um clássico, as mais emocionantes foram em companhia de torcedores adversários. Quanto menos segregação há, mais espaço para a paixão do torcedor aflorar. Saravah!


foto de joão sassi


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Sonolentão 2015 (não bastassem os 7x1...)

Vilipendiado, aviltado e desrespeitado, o torcedor brasileiro sente sono.
Thank’s God, it’s over! Mais um campeonato brasileiro para ser esquecido! - marca registrada da “Era” dos pontos corridos...

- “Uma das vantagens em ser campeão com antecedência é poder comemorar por mais tempo!...”, inovou o apresentador do Globo Esporte desta 2ª feira, ao exibir imagens da torcida cruzeirense, no Mineirão, celebrando um bicampeonato conquistado há tanto tempo que os celestinos nem se lembram mais.

Já no ótimo Redação SPORTV, o jornalista Carlos Cereto mencionou que o gol mais festejado pela torcida palmeirense, neste ano - ano do centenário! –, foi o do Santos, no triunfo sobre o rebaixado Vitória, na derradeira rodada do campeonato, que livrou de vez o Verdão da humilhante degola. Pois não foi outra que não esta a maior atração da última rodada: a agonia dos únicos três clubes que ainda poderiam cair, pois nem disputa pelo “G4” havia mais. O que poderia ser uma data inesquecível, que mobilizasse todo o Brasil, transformou-se, portanto, num dia qualquer; num domingo desperdiçado, desses que se passa assistindo ao Faustão e comendo miojo.

As expectativas para a “rodada decisiva” eram tão nulas que o principal diário de notícias da capital do País do Futebol (o Correio Braziliense) não trazia uma única linha especializada que lembrasse ao leitor este mais que melancólico fim do Brasileirão2014. Nenhum colunista se prestou a fazer qualquer análise, tão desinteressante se mostrou o produto servido ao torcedor brasileiro. E pensar que “profissionalismo” é a palavra da moda!...

Não bastasse a FIFA nos currar durante a Copa (e depois a Alemanha nos violentar); não bastasse o governo brasileiro construir estádios superfaturados (e inacabados) com dinheiro público e doá-los a empresários; não bastasse o ingresso a preços escorchantes cobrados por estes mesmos empresários; não bastassem as proibições sem fim dentro das novas “arenas”; não bastasse a elitização e a desfiguração total do perfil do torcedor brasileiro; não bastasse a destruição do Maracanã; não bastasse a ausência de um camisa 10 de qualidade atuando por aqui; não bastasse uma camisa oficial custar, em média, 200 reais; não bastasse o excesso insano de propagandas nas camisas oficiais; não bastasse o marketing selvagem, colorido e nada tradicional nas camisas oficiais; não bastassem os clássicos de torcida única; não bastasse a volta do Eurico Miranda ao Vasco; não bastasse o time de maior torcida no país estar a mais de 140 rodadas longe do “G4” e, por fim; não bastasse o Pelé fazer as vezes de garoto-propaganda (das Olimpíadas no Rio) até quando está na unidade de terapia semi-intensiva (!), ainda temos de testemunhar passivamente como o campeonato de maior tradição e representatividade no Brasil vai se tornando o mais desinteressante e entediante dos espetáculos? Por que tanto penar, ó, Deus? Não basta termos um Dunga à frente da Seleça? Um Marin de cabelo acaju? Um Ricardo Teixeira rindo em Miami? E ainda isso?

Por outro lado, sorte a minha ter, nesse pensar, a companhia de gente da estirpe de um Xico Sá ou de um Peninha que, ontem, no excelente Extraordinários – de longe, o melhor programa esportivo da TV brasileira (aberta e fechada) – opinaram contra a escabrosidade dos pontos corridos. Como afirmou o historiador gremista, “a Final é uma entidade!”, uma data esportiva que a diferencia não somente das demais datas esportivas, senão também de todos os dias do ano. As finais marcam nossa vida. Criam registros indeléveis e produzem emoções que se refletem na imaterialidade de um não-lugar, porque em toda a cidade (todo o País!), resultando numa sinergia irreplicável em condições normais de temperatura e pressão – e os caras querem tirar isso da gente, como se nos fizessem um favor por imitar o futebol europeu com sua justiça e hábitos inexoráveis, é mole?

Pergunte, portanto, o dadivoso leitor a qualquer torcedor medianamente conectado ao mundo da bola, qual foi o grande dia do futebol tupiniquim, no corrente ano, e terás como resposta inescapável a primeira partida da Final mineira da Copa do Brasil, entre o Galo e a Raposa. Nenhuma outra peleja despertou tamanho interesse e expectativa. Nenhuma partida foi tão aguardada, acompanhada ou celebrada por tantos torcedores, de tantas agremiações diferentes, pais afora – algo deveras sintomático.

É inegável que o sistema de pontos corridos gere, além de tédio, tal gama de deturpações, que não seria precipitado pensarmos na implementação imediata de um novo modelo que atenda às demandas culturais do torcedor brasileiro, principalmente no tocante aos quesitos “emoção e imprevisibilidade”. Que os mentecaptos da CBF deixem a bola rolar solta, sem o cabresto de fórmulas tão claras quanto chatas. E que tenham os velhacos da cartolagem clarividência e criatividade, pois, do contrário, haja ânimo para suportar o Sonolentão 2015...


foto: joão sassi

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Disputa entre Galo e Raposa dá Bode

CANUTTO: E você, Bode, que que achou? // BODE: Cachorro?! Que cachorro, o quê? Eu não sou cachorro, não!


Tenho uma amiga sofredora que, certa feita, me ligou do Maracanã, onde assistia o seu Botafogo perder, só para me dizer que ela estava de frente para a torcida do Flamengo – e que era a coisa mais linda que ela já tinha visto.

Decerto, a presença da torcida adversária - devidamente achincalhada pela torcida vitoriosa, sob silvos, urros, vaias e chacotas intermináveis (sempre dentro dos limites cavalheirescos perpetrados pelo jogo, claro) – abrilhanta qualquer partida, além de fortalecer a ideia de que o esporte seja apenas uma forma recreativa que simula o conflito, não devendo prevalecer o interesse em eliminar ou acabar com o adversário, fisicamente.  – “Ser espectador de um esporte é um mecanismo que desenvolve a consciência de união das pessoas. Paradoxalmente, o esporte contribui para a união ao enfatizar o conflito entre as partes” - proferiu a socióloga norte-americana Janet Lever, em seu livro A Loucura do Futebol (Record)

Aos exasperados da bola (profissionais, amadores ou espectadores), a vida não teria completude e sentido se, em seu transcurso, não houvesse já programada uma grande final de campeonato ganha sobre o arqui-rival, nos estertores de uma batalha dada por perdida. O gol do campeonato! O delírio em campo! Os torcedores explodindo em loucura, lá das arquibancadas (ou da Geral!), em fraternal comunhão com milhares de anônimos!...  - Quem não sonhou com um momento assim, tendo a torcida adversária por testemunha, num estádio lotado?

Indiferente aos sonhos da maioria, porém, a diretoria do Atlético Mineiro preferiu disputar a primeira partida da Final da Copa do Brasil deste ano em campo diminuto (Independência), indigno para um clássico de tamanha envergadura, história e importância contextual. Ato contínuo, um entrevero entre os rivais, suscitado por recomendações da Polícia Militar e proibições judiciais, fez com que o Cruzeiro abrisse mão de sua já ínfima cota de ingressos, decretando que apenas as cores do Galo estariam presentes às arquibancadas do estádio. Ô, tristeza sem fim para nosso futebol...

Mais ainda para monstros sagrados como Tostão, que diz não entender o motivo do clássico se realizar a meia-bomba: - “Isso é um atestado de falência da sociedade e dos governos, incapazes de combater a violência urbana, no futebol e fora dele”, disse o mestre, inconformado com a bestialidade em curso.

Para o bem do esporte, o mesmo nobre princípio que equilibra e dá ordem à relação conflituosa entre adversários no campo de jogo deveria se aplicar a todos os que compõem o espetáculo; especialmente aos torcedores, que bancam todo o circo, em escala global. E não somente quanto à proteção destes, mas, inclusive, no sentido de garantir totais condições para que o embate esportivo se dê também entre eles, possibilitando a presença de torcidas antagônicas e proporcionando uma rivalidade tão saudável como pedagógica em todos os jogos, sobretudo nos clássicos, quando a paixão atinge o ápice. Deveria ser uma questão de Estado, pois diz respeito ao esporte mais praticado no planeta Terra, cuja seleção de maior expressão e respeito é a brasileira (ou costumava ser).

O combate à ignorância e à selvageria não deveria se dar nas ruas (e muito menos nos estádios!), mas nas salas de aula, em campos e quadras espalhados pelo país, oferecendo aos jovens, praticantes ou não, a exata noção do zelo que devemos ter por valores vitais à sociedade, como a tolerância, a aceitação e o respeito à diversidade.

É vergonhoso que, governo após governo, o esporte nacional, inestimável instrumento de coesão social e promovedor de alianças e aproximações culturais as mais diversas, em nível mundial, venha sendo deixado de lado e tratado como coisa pequena no que diz respeito a sua função social, embora cada vez mais como grande negócio, quando os interessados são poderosas multinacionais exploradoras do trabalho infantil, xeiques trilhardários ou meros ditadores – a eles, o tapete vermelho, o Brasão e as cores nacionais – e o Hino, de lambuja!

A presença de interesses inconciliáveis (somente uma agremiação sairá vencedora), representados pelas torcidas rivais num estádio de futebol, deveria ser obrigatória por conta da própria natureza do esporte, segundo a qual um rival forte é mais apreciado que um fraco; rivalidade esta que se dá, tanto e mais, se houver espaço para embates simbólicos que extrapolem as quatro linhas, enfatizando as diferenças clubísticas e enaltecendo o sentimento de cada torcida em relação ao seu time. 

O extermínio daquilo que nos é distinto representa a morte da nossa maior fonte cultural de estímulo e paixão, e também uma sociedade mais violenta e desequilibrada. Em seu quadro clínico-político vegetativo, no entanto, o Estado brasileiro segue desprovido de qualquer ideia ou ação que favoreça o bem-estar comum.

Por ora, enquanto perdurar o pensamento unidirecional das massas de que é impossível conviver com "o diferente", e até quando não se sabe, o futebol brasileiro será apenas um sonho que se sonha só, desprovido de essência, cada vez mais alienado e alienante, distante como nunca de suas raízes multiétnicas de mistura e paz, união e celebração. Povo sem cultura é povo escravizado.

PS: Penso em Manoel de Barros e só consigo sorrir, mesmo com sua escapulida da vida. Viva o poeta. 

foto: joão sassi                                                 
@BorogodoFC

sábado, 18 de outubro de 2014

Sheik no Mengão!

O povo sabe o que quer...

Você gostaria de ter no seu time um jogador que, além de curtir uma balada, é chamado por tudo quanto é torcedor de mercenário, chinelinho e filho da puta? Um sujeito que não pára em time nenhum, sempre saindo vazado, em rota de colisão com a diretoria, às vezes com parceiros de vestiário ou até mesmo com a própria torcida dos clubes por onde jogou; você contrataria?

Pois eu, mesmo sabendo que meus irmãos rubro-negros vão chiar e me xingar, digo ao povo que sim; que daria apoio total à contratação do intrépido Sheik – o Emerson, para o Mengo, Não apenas por se tratar de um jogador-torcedor que, ademais, tem estrela, é goleador, raçudo até doer, além de um puta colecionador de títulos, mas, principalmente, por representar o que há de mais autêntico no futebol brasileiro.

Sem medo de errar, Emerson é, de longe, nosso jogador menos hipócrita – e isso significa muito! Não porque simplesmente gravou a ferro quente no inconsciente coletivo nacional uma verdade que ecoará para sempre – “CBF, você é uma vergonha!” – mas, principalmente, por dar a entender a quem o acompanha que a mise-en-scène do cotidiano profissional seja apenas um pequeno detalhe em sua vida pessoal, cuja essência, malandra, porém sincera, segue intacta. A cumplicidade que ele impõe ao interlocutor, por exemplo, parece ser de uma inocência quase infantil, mas é apenas a velha malícia brasileira, tão em falta no atual cotidiano ludopédico.

Suas declarações, quando contrastadas às dos demais jogadores, nos dão a dimensão da falta de personalidade e de lucidez que impera por estas, agora, inférteis searas brasileiras. Sheik não chuta no vazio. Segue uma escola de gente que dizia o que pensava - como um Paulo Cesar Caju, um Afonsinho, um Sócrates, um Renato Gaúcho ou, mais recentemente, um Juninho Pernambucano. Uma linhagem que encontra no semi-aposentado craque Alex, do Coxa, um de seus últimos  remanescentes. O sérvio Petkovic era da mesma estirpe, mas, por ser gringo, criado no Leste Europeu e ter tido sólida educação socialista, não pode ser integralmente aceito nessa seleção genuinamente brasileira, embora siga sendo um dos mais belos paradigmas de inteligência e personalidade a ter se expressado pelos nossos micrrrrofones.

Com quase trinta anos nas costas, Emerson voltou ao Brasil sob considerável desconfiança por conta do tempo que passou no Japão e nas Arábias; era o famoso “quem?”. Como cartão de visita ao ressabiado torcedor, sagrou-se campeão brasileiro, por três times diferentes, consecutivamente, sempre marcando presença.

No Flamengo, foi ele quem segurou as pontas até Pet e o Impera assumirem o comando da galé rubro-negra, rumo ao Hexa, em 2009. No Flu, fez o gol do título no ano seguinte (e tantos outros mais), conquistando uma taça que os tricoletas não sentiam o prazer de levantar havia mais de um quarto de século – desde o tempo do Romerito, cumpádi! No Timão, após nova conquista do Brasileirão, enfrentou aquela que, na minha módica opinião, talvez seja a prova mais cascuda que um boleiro pode encarar: final de Liberta contra o Boca.

Para saber como ele se saiu, basta dar um pulinho nos arredores do La Bombonera e perguntar aos torcedores xeneises o que pensam do Sheik... O cara que apresentou aos portenhos a malandragem carioca e deu nó em pingo d’água, deixou de morder um dedo argentino enfiado em sua boca, irritando ao limite do possível quem sempre fora mestre em nos irritar. De lambuja, marcou dois gols na Final e deu ao Corinthians seu primeiro título continental. Aprovado com nota máxima.

Fora de campo, entrementes, sobressai-se tanto ou mais, criando situações revolucionárias num ambiente tão reacionário como o que domina e se perpetua dentro do futebol, em que boa parte dos envolvidos é machista, preconceituosa e até mesmo homofóbica. Emerson não é nada disso e publicou uma foto sua dando uma bitoca num amigo. O cara se garante. Mais que um jogador, é um indivíduo que usa sua ousadia para transformar a realidade que vê, e com a qual não concorda. Como reconhecimento ao seu gesto cidadão, no entanto, houve muita gente querendo proibi-lo de vestir a camisa do Corinthians, quando não, linchá-lo em praça pública.

Recentemente, logo após sua demissão, pelo Fogão, ele trouxe a público um vídeo em que aparecia à vontade, de calção de banho, dançando uma musiquinha palha e sorrindo sob o sol. Mas como o Botafogo, havia perdido uma partida na véspera das imagens virem à baila, nova onda de críticas conservadoras e preconceituosas foi despejada sobre o atleta, entre outras coisas, por suposto “desrespeito” e perobagem. Na realidade, o cara apenas estava sendo ele mesmo, curtindo o pacto de felicidade que estabeleceu com a própria existência – o que deixa muita gente raivosa.

Figuras como ele, com uma carreira de sucesso, auto-estima elevada e, sobretudo, pensamento crítico, causam calafrios nas estruturas mais retrógradas da sociedade, dentre as quais o futebol ocupa lugar de destaque. Conforme revelou, ao não ser convidado para o churrasco de aniversário promovido pelo presidente botafoguense, há festas às quais não vale a pena comparecer. Ele sabe perfeitamente que o meio está assim de gente “nada a ver”...


Defendo, portanto, sua volta à fragata rubro-negra, na qual teria tudo para formar uma parceria suburbana do mais alto quilate com o Luxa, metendo brasa nas caldeiras e agitando a regata flamenguista rumo à Liberta. Quem gosta de calmaria é marinheiro. Sheik no Mengão!


foto&arte: joão sassi

segunda-feira, 7 de julho de 2014

É bom de malhar, é bom de cuspir - Zúñiga Geni!

Sem Neymar, venceremos alemães e argentinos
Podem apostar comigo; o colombiano Zúñiga ainda será lembrado como um cara legal. E talvez, mais cedo do que se imagine, haveremos de agradecê-lo pelos serviços prestados.

Primeiro porque a covardia contra Neymar, sob o aspecto físico, não deixará qualquer seqüela no astro – o que, por si só, se revela o maior dos alívios, tanto ao coração dos brasileiros como ao bolso dos banqueiros. Só quem sente dores crônicas na coluna vertebral sabe o que é sentir dores crônicas na coluna vertebral... Mas disso nosso craque não padecerá.

Segundo porque, involuntariamente, deu ao time brasileiro a oportunidade de se fortalecer como equipe à medida que as expectativas não mais recaem sobre um salvador, e sim sobre todo o grupo. Zúñiga deu chance a 22 jogadores de poderem brilhar coletivamente. De sobra, ainda livrou Neymar de substituir Barbosa como potencial carregador do fardo de mais uma eventual “vergonha” nacional. É um efeito colateral atraente numa tragédia que se configurava sem ser anunciada, sub-repticiamente.

Vida de jogador é dura, embora seja inegável que nossos craques recebam, hoje, muito mais mimos e panos quentes que nos tempos de outrora. Talvez isso forje personalidades menos preparadas para a pressão. Pelé só chorou após ganhar seu primeiro Mundial; Ronaldo agüentou, mas surtou às vésperas de sua primeira grande decisão; já Neymar, marejou antes mesmo da bola rolar no Itaquerão, na estréia da Seleção. Sinais de que o menino doirado não seguraria o rojão? Se sim ou se não, é certo que a tensão sobre seus ombros seria desumana; algo que nem Garrincha, Pelé, Zico, Romário ou Ronaldo sofreram, uma vez que nunca disputaram uma Copa do Mundo em casa.

Pessoalmente, acho que o Moicano não daria conta, sozinho, da Alemanha, da Argentina ou da Holanda, que estão num melhor momento. Não porque lhe falte talento, mas, sobretudo, por conta da omissão dos demais. Na hora do vâmovê, todos se livrariam da bola, deixando a estrela solitária perdida numa galáxia de marcadores. E, cá entre nós, alemães não são croatas, holandeses não são chilenos e argentinos não são camaroneses; ao contrário, esses caras têm camisa, tradição e futebol. A torcida canarinho parecia depositar suas esperanças menos na qualidade da Seleção que num eventual “jeitinho” ou lance genial, o que se confirmou quando do empate com o México e também com o Chile, nosso tradicional saco de pancadas em Copas.

Assim, aos trancos e barrancos, jogando mal e tal, esperávamos passar pelos alegres Novos Baianos de Berlim. Com alguma sorte, reza e macumba forte, o plantel alemão sentiria os efeitos de quatro semanas regadas a azeite de dendê, deixando a vaga sonhada à nossa mercê. Na final, contudo, os deuses do futebol não titubeariam e nos reservariam a Argentina de Messi. Estava, pois, configurado um novo Maracanazo, pronto, feito e acabado, posto que os argentinos não dessem chances ao tutu mineiro, tendo trazido de outras plagas seu próprio cozinheiro. Que brasileiro conseguiria sobreviver a um vexame tanguêro?

E, de repente, derrepentemente, vem de lá Seu Almeida, vulgo Sobrenatural, e nos presenteia com um joelhaço na espinha dorsal que, tal como o choque da tomada dado no dedo da criança desavisada, produzirá um efeito colossal. Fred deixará de pecar e orar para fazer gols decisivos nos dois jogos, Fernandinho brilhará como nunca, Luiz Gustavo não deixará ninguém se criar e Bernard irá botar pra quebrar. Sem falar em Dante, nosso Kant soteropolitano, quem irá traduzir aos companheiros toda a lógica filosofal do jogo alemão, deixando nossos adversários sem resposta ante a argumentação da defesa brasileira. Com a ausência de Neymar, todo mundo terá de se ligar. E a massa finalmente, pelos estádios, recomeçará a cantar: ”Meu amigo argentino/ diz aí, como é que é/ ter somente duas Copas/ uma a menos que Pelé!...”.



PS: Um #salve pro Neymar, um pro Zúñiga e outro pro Amarildo (os dois)!

foto: joão sassi

domingo, 29 de junho de 2014

É tempo de Copa!

Hermanos colombianos na mira do Brasil.

A Copa do Mundo começou!

Cá entre nós, gente do metiê, essa tal “fase de grupos” só serve aos anseios políticos da FIFOTA, para fazer de conta que todo mundo participa da festa e angariar votos. Findadas as preliminares, porém, chegamos aos finalmentes, a fase mais gostosa, que dá aquele friozinho na barriga e um comichão na bexiga, fazendo a machaiada segurar o piu-piu e a mulherada apertar o xibiu.

É quando o cidadão não consegue ir à geladeira buscar uma gelada ou sequer ir ao banheiro dar aquela aliviada. É quando aparece a mãe, a tia, o cunhado, a irmã, o primo e mais uma porrada de gente que nunca se reuniu para ver um jogo, e que agora, juntos, torcem como loucos pela Seleção. É o gol que arrebata, é o empate que maltrata, é a bola no travessão que quase mata, enfarta.

A família volta a ser a célula-mater da Pátria e, como num estádio, quem não tem afeição ou intimidade já se abraça, vibra, pula, fibra! É o abraço suado, embriagado, o calor de quem a gente gosta, ou nunca gostou. Mas é por uma boa causa; é pela alegria. Não com “muito orgulho e muito amor”, mas por amor verdadeiro, por inteiro. Vontade de olhar nos olhos, de gritar, chorar e sorrir juntos. Quase sexual. Vontade nacional.

É tempo de Copa! É tempo de corpo. De pegação de línguas; de línguas úmidas, molhadas, enroladas. É tempo de união entre os povos. Tempo de celebração, confraternização, emoção. É tempo de Copa, pôrra!  

Não dá para perder o bonde e deixar a vida passar porque a banda não toca do jeito que você quer. Se solte! Se deixe! Largue de dureza, hômi! É mês de festa, de São João, quadrilha, Lampião! Se avexe, caba, porque é mês de Copa e ela está ali, piscando pra você, como cavalo encilhado, como uma moça, um afago, um gol escancarado.

Se o Diabo mora ao lado e patrocina o rebolado, se benza e tome banho de ervas para tirar o mau-olhado, mas não se vingue do que nos é tão adorado. Não guarde mágoas do amigo alienado, baba-ovo do Galvão e tiete do Felipão. Releve. Esqueça. Esmoreça e aqueça o coração. É tempo de Copa, meu irmão!

É tempo de uma energia que não rola toda hora. Não faz sentido ser tão rígido, intransigente, brigalhão. É tempo de Copa, cara! Do sofrimento desnecessário, angustiante, redentor. É tempo de vitória suada, nos pênaltis, nos acréscimos, inesperada.  Tempo de vitória sofrida. Tempo de vida.



 foto: joão sassi